Cinema

Quando vazar documentos é questão de integridade

O filme 'Segredos oficiais' narra o caso de vazamentos de memorandos secretos que poderiam ter evitado a guerra contra o Iraque

16/04/2021 11:13

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Segredos Oficiais ''é imperdível'', escreveu o jornalista americano Jon Schwarz, no The Intercept, que trabalhou com Michael Moore em Capitalism: a love story na época em que o filme foi lançado, final de 2019. ''Poucos filmes retratam tão bem o que é estar diante de um verdadeiro dilema moral e tentar fazer a coisa certa. Mesmo em dúvida. Mesmo com medo. Mesmo sem a menor idéia do que vai acontecer em seguida''.

Relembramos as manifestações de Schwarz a respeito de Official secrets, do diretor Gavin Hood, uma co-produção Grã- Bretanha/Estados Unidos e disponível nos catálogos do Now/HBO e Amazon Prime com a nova onda de interesse pela espionagem eletrônica, vazamentos e por gravações de conversas telefônicas produzidas por hackers.

Alguns deles contribuem para iluminar verdades históricas denunciando ações subtraídas pelos governos do conhecimento de imenso contingente de cidadãos. Como ocorreu nos bastidores do caso Moro/Curitiba desvelados por Walter Delgatti Neto, de Araraquara, que estão contribuindo para mudar o rumo dos acontecimentos políticos atuais. E, anos atrás, quando fizeram emergir detalhes do que ocorreu antes do ataque ao Iraque por forças militares americanas e britânicas - uma guerra ilegalmente deflagrada em março de 2003 que matou 650 mil iraquianos apenas durante a invasão.

Para alguns analistas, e também compartilho da opinião, Segredos Oficiais é um dos melhores filmes sobre o tema; é preciso e fiel aos fatos. Trata-se de uma produção comercial limpa e austera, com um bom movimento cinematográfico de suspense na sua primeira parte.

A atriz Keira Knightley é eficiente interpretando a real autora dos vazamentos, uma jovem linguista tradutora de documentos oficiais e especialista em mandarim. Katharine Gun tinha na época 24 anos e trabalhava no corpo de funcionários na Sede de Comunicações do governo britânico (GCHQ), agência de inteligência dos ingleses equivalente à agência americana NSA (National Security Agency).

Vazando documentos, Gun tentou impedir a guerra do Iraque ao divulgar um memorando secreto que provava que os EUA e o Reino Unido, em conluio, pressionavam representantes de seis nações no âmbito do Conselho de Segurança da ONU para que votassem a favor da invasão, em 2003.

O objetivo espúrio, senão criminoso, acabou sendo alcançado apesar da denúncia provada no documento vazado ter ido parar na primeira página do jornal londrino dominical de centro-esquerda The Observer, mídia do grupo do The Guardian.



No elenco do filme trabalham os atores Matt Smith, Matthew Goode e Ralph Fiennes, este fazendo o advogado de Gun, que (na vida real) conseguiu que a absolvessem das penas de crime de espionagem no desenrolar do duro processo constituído contra ela e comprovando e reforçando a ilegalidade da guerra.

Na sua primeira parte o filme narra quem era Katherine Gun, jovem casada com um muçulmano que por pouco não foi deportado da Inglaterra quando o escândalo estourou. Apenas porque era seu marido.

O mais peculiar do caso, que ganhou grande repercussão a seu tempo é que Katharine não era uma militante de coletivo organizado nem ativista de direitos humanos. Era apenas uma moça simples e ingênua, mas íntegra, tradutora de documentos sensíveis para o governo, e que começou a se exasperar quando via, à noite, em sua casa, o noticiário da televisão com discursos favoráveis à invasão.

Todas as noites, Tony Blair e George Bush se apresentavam nos noticiários pressionando pela guerra ao denunciar (inexistentes) depósitos de armas em massa no Iraque e ambos chamavam a atenção da opinião pública para sua causa com declarações opostas aos fatos sobre os quais ela lera durante o dia - e por acaso - na tela do seu computador.

Memorandos ultra-secretos evidenciavam o jogo de pressão do governo americano junto ao britânico para levarem a ONU a deliberar a favor do conflito armado. E o governo do Reino Unido hesitava porque declarar guerra sem o aval do Conselho de Segurança era uma idéia impopular entre a população.

Na segunda parte do filme a ação se amplia mostrando o silêncio e a omissão da mídia dos Estados Unidos e de Londres não seguindo o furo do The Observer ao divulgar a manobra dos falcões anglo-americanos. O New York Times publicou quase nada sobre o vazamento durante as semanas que antecederam a operação contra Bagdá, e o Los Angeles Times e o Washington Post escreveram perfumarias sobre o caso ao qual chamaram ''de espionagem não comprovada.''

Por pouco a invasão não aconteceu e o gesto de Katharine foi em vão. Centenas de milhares de pessoas morreram, o caos se espalhou pela Síria onde perdura até hoje e o Estado Islâmico ganhou força.

Quando eclodiu esse escândalo, o ex-militar americano Daniel Ellsberg, célebre e corajoso hacker da nossa época, do caso dos Pentagon Papers (memorandos sigilosos com decisões do governo dos Estados Unidos na guerra do Vietnã) comentou: ''Os atos de Katharine Gun foram mais oportunos e importantes do que os Pentagon Papers. Revelações como esta podem impedir uma guerra”.

O vazamento de Gun não fez diferença. Katharine deixou a Inglaterra depois do processo concluído, vive na Turquia e afirma que provavelmente não faria diferente se tivesse à sua frente, hoje, o mesmo caso. "Ações desse tipo devem ser vistas como necessárias,'' afirma.

Mas o vazamento recente das conversas ilegais entre juiz e procuradores do grupo da Lavajato de Curitiba, no Brasil, está fazendo diferença e está sendo decisivo para mudar o rumo da história do país.







Conteúdo Relacionado