Cinema

Que herói é esse?

De maneira talvez involuntária, "Cadê Edson?" acaba retratando a miopia política que afeta alguns ditos "movimentos sociais" de caráter disruptivo e incapazes de enxergar para além de suas pautas imediatas.

30/11/2020 10:18

 

 

O júri de longas brasileiros do Forum Doc BH, encerrado ontem, em lugar de prêmios concedeu quatro destaques. Um deles foi o destaque "Imagens que faltam" para Cadê Edson?, de Dácia Ibiapina. A justificativa dizia: "Pelo tratamento sensível de imagens e sons ao confrontar as construções da mídia hegemônica, pela vigorosa atualização do método da entrevista no cinema, por trazer na montagem as imagens que o poder se esforça em nos ocultar e por criar tantas imagens necessárias que muito nos ensinam sobre a memória dos brasileiros em luta".

Não discuto a decisão dos jurados, mas quero deixar aqui a minha visão do filme, visto no início deste ano.

Incensado por alguns críticos na Mostra de Tiradentes, CADÊ EDSON é um filme no mínimo "complicado".

Ninguém duvida da solidariedade da diretora Dácia Ibiapina, professora aposentada de cinema da UnB, aos movimentos populares. Este já tinha sido o tema do seu longa anterior, Ressurgentes: um Filme de Ação Direta, que fez a crônica do pensamento político e das ações de um grupo de militantes autônomos de Brasília entre os anos de 2005 e 2013. Nesse novo trabalho, ela registrou ou coletou registros de ações do (e contra o) Movimento Resistência Popular (MRP), organização de luta por moradia que nasceu de uma dissidência do MTST.

Dácia elegeu como personagem central o ativista Edson Francisco da Silva, que liderou várias ocupações no DF e hoje cumpre pena em regime aberto. A pergunta "Cadê Edson?" se notabilizou quando da desocupação violenta do antigo hotel Torre Palace e da prisão de Edson, em 2016. No entanto, pode ser interpretada também como uma indagação sobre a posição política do personagem – e, por extensão, de certos "movimentos sociais".

Numa conversa direta com a documentarista, Edson admite sem qualquer constrangimento que saiu do MTST porque não concordava com o apoio a Dilma Rousseff nas eleições de 2014. Ora, um líder popular que apoiava Aécio Neves ou se mantinha "isentão" naquele momento, engrossando o coro dos que demonizavam a política, dificilmente pode ser aceito como herói. Mas é isso o que o filme faz, com uma incompreensível dose de ingenuidade. Nada é questionado sobre a responsabilidade dele perante a cena política, nem sobre as acusações de extorsão que pesaram contra ele.

De maneira talvez involuntária, o filme acaba retratando a miopia política que afeta alguns ditos "movimentos sociais" de caráter disruptivo e incapazes de enxergar para além de suas pautas imediatas. Erros como o de Edson, em busca de um confuso ideal de autonomia – quando não de interesses inconfessáveis – contribuíram para o enfraquecimento da esquerda e a queda do país na fossa em que hoje se encontra.

Inquieta, ainda, ver a entrada maciça das religiões neopentecostais nos movimentos, ao menos no caso do MRP. Estaríamos prestes a ver surgirem movimentos por moradia de direita? Como entender esse brasil?

O documentário de Dácia tem bons momentos de observação da vida nas ocupações e entrevistas com outros militantes. A incorporação de filmagens espetaculares da polícia durante a desocupação do Torre Palace, com cenas aéreas dos helicópteros encurralando militantes no terraço do prédio e policiais expulsando famílias brutalmente pelas escadas, surte um efeito perturbador. Na abertura do filme, essas imagens dramáticas parecem ser comemoradas por manifestantes de verde e amarelo, numa montagem que reúne falsamente dois contextos diferentes. A intenção pretensamente simbólica resulta apenas panfletária e colegial.

Trailer e materiais oficiais sobre o filme podem ser vistos aqui.

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