Cinema

Que horas ela volta?: Luta de classes à brasileira

Crítica francesa consagra filme brasileiro que mostra o despertar da dignidade negada e a insurreição dos marginalizados pela fratura social.

30/06/2015 00:00

Leneide Duarte-Plon

Créditos da foto: Leneide Duarte-Plon

Tratar da luta de classes com sutileza é um desafio ganho pela cineasta Anna Muylaert. Num país que dissimula essa luta entre patrões e empregados domésticos através de louvadas relações cordiais tinturadas de afeto, seu quarto filme surpreende pela inteligência e leveza com que trata o tema. 
 
Depois de algum tempo sem empolgar a crítica francesa (o último a merecer entusiamo semelhante foi « Som ao redor », « Les bruits de Recife », do cineasta Kleber Mendonça) o cinema brasileiro volta a entusiasmar críticos e público do país mais cinéfilo do planeta, terra dos irmãos Lumière, inventores do cinematógrafo. 
 
O responsável é o filme Que horas ela volta? Batizado Une seconde mère  (Uma segunda mãe) em francês, o filme de Anna Muylaert foi lançado em Paris dia 24 de junho, precedido de grande campanha de publicidade nos jornaleiros, nas tipicamente parisienses « colonnes Morris » e nos jornais. No Brasil, o filme será lançado em agosto.
 
 « Anna Muylaert costura com delicadeza dois temas, a maternidade e as relações de classe, muito presentes nesse país emergente que é o Brasil », destacou a crítica de Télérama, Guillemette Odicino, que chama atenção para o talento de Regina Casé, « uma star em seu país ».  
 
Graças à filha Jéssica (vivida pela excelente atriz Camila Márdila), que desaba em sua vida em São Paulo vinda do nordeste, a empregada doméstica Val, magistralmente construída por Regina Casé, evolui com sutileza da submissão e do conformismo à compreensão intuitiva da servidão. A libertação é o passo seguinte. 
 
« Simples coincidência ou modismo, os raros filmes do cinema brasileiro que chegam a nós nos últimos meses estabelecem um diálogo intrigante com o mesmo tema : a fratura social e étnica vivida no país pela burguesia branca e suas populações negras. Como uma fábula subterraneamente fantástica (Les bruits du Recife, de Kleber Mendonça Filho) ou de uma sátira (Casa Grande, de Felipe Barbosa) todos traçam o perfil de uma sociedade brasileira onde predomina a desigualdade, onde as velhas relações de classe são marcantes », destacou o crítico Romain Blondeau, da revista Les InRocks.
 
O jornal Libération, tradicionalmente o mais cinéfilo da imprensa francesa, ressaltou o « despertar de uma classe em luta », num trocadilho com a expressão consagrada pelo marxismo, que teorizou a luta de classes, ignorada, quando não negada, pelos neoliberais do mundo inteiro. Este quarto longa-metragem da cineasta Anna Muylaert (co-autora do roteiro de « O ano em que meus pais saíram de férias », de Caio Hamburger) sonda, segundo a crítica Clémentine Gallot, « uma luta de classes e a profunda segregação social brasileira, marcada pelas origens étnicas, apesar da mestiçagem ».
 
A crítica destacou, ainda, a importância do papel materno no filme, que relega a paternidade a segundo plano. O prêmio do público que o filme recebeu no Festival de Berlim deste ano é, no entanto, relativizado, tendo em vista a qualidade da seleção, que ela não considerou das melhores.
 
Mais entusiasmado ainda, o crítico da revista Les InRocks escreveu :
 
« Retomando de Teorema de Pasolini o tema arquiclássico do intruso-revelador, Une seconde mère observa com malícia o desmoronamento de uma ilusão burguesa através uma série de situações absurdas, quiproquos, mesquinharias, que retiram o véu grotesco de um sistema de exploração social. Tratado de moral de humor surpreendemente solar, atravessado aqui e là por um fulgurante acesso de ironia, o filme desenha um quadro desinibido e bem-humorado da luta de classes, que pode se revelar sutilmente através de simples olhares. Olhar superior e concupiscente do rico proprietário que erotiza corpos vindos das favelas; olhar utilitário da burguesa que desumaniza os domésticos; e olhar finalmente erguido de Val, soberba heroína resistente, a quem o filme oferece um happy-end exaltante em forma de manifesto de ruptura para uma insurreição dos marginalizados ». 



*Leneide Duarte-Plon é jornalista, trabalha em Paris e é co-autora, com Clarisse Meireles, da biografia de frei Tito de Alencar, Um homem torturado-Nos passos de frei Tito de Alencar.



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