Cinema

Réquiem para um sonho

A trama 'Adeus, Lênin!' (2003), de maneira inusitada, não apenas focaliza uma fratura familiar provocada pela sanha de abandonar Berlim Oriental, como também narra uma fundamental nostalgia de algo que, após a queda da União Soviética, se tornou indelével: a esperança como cicatriz

23/06/2013 00:00

 

‘Adeus, Lênin!’ (2003), filme dirigido por Wolfgang Becker, a princípio poderia parecer um rematado réquiem para a experiência do socialismo encouraçado pelo Muro de Berlim; mais uma crítica ao caráter distópico que a utopia emancipatória assumiu em sua disputa com o Ocidente capitalista. Mas a trama, de maneira inusitada, não apenas focaliza uma fratura familiar provocada pela sanha de abandonar Berlim Oriental, como também narra uma fundamental nostalgia de algo que, após a queda da União Soviética, se tornou indelével: a esperança como cicatriz.

1989. A República Democrática Alemã chega a seu 40º aniversário. Uma parada militar prestigiada pelo premiê soviético Mikhail Gorbatchev celebra o socialismo de caserna. Alex, jovem trabalhador, decide participar de uma parada outra: uma passeata que demanda liberdade de imprensa. A repressão policial é maciça. Súbito, Christiane, mãe de Alex e entusiasta do regime, vê o filho sendo preso pelos soldados. Um desmaio ocasionado por um ataque cardíaco muda o transcurso da estória.

Alex há 10 anos não vê o pai que, supostamente, teria fugido para a Alemanha Ocidental com uma outra mulher. Assim, Christiane, após a debandada do marido, como que se casou com a pátria socialista. A pedagoga fazia de tudo para que o país caminhasse rumo a Utópolis. Pequenas atividades cotidianas que, a bem dizer, prolongam o ímpeto de transformação do ser humano. Após a revolução – que, na Alemanha Oriental, não ocorreu –, vale dizer, após a consolidação de um regime que propõe uma nova humanidade, é preciso construir a promessa dia-a-dia. Paira sobre a revolução que não se vê apenas como a tomada para a manutenção do poder o estigma de um aforismo que o ditador fascista Benito Mussolini bem soube sintetizar. “Após a revolução, resta o problema dos revolucionários”.

Pois Christiane zela pelo socialismo com a minúcia de um ourives. Além de mediar a formação de seus filhos e estudantes, envia cartas e mais cartas para o comitê do partido para relatar (sem jamais delatar) os sutis desvios do cotidiano: calças que não foram bem confeccionadas, sutiãs impróprios para as mulheres da revolução, a limpeza das ruas, a correção de um hino. Sua supervisão não é autoritária, mas carinhosa. Quando Che Guevara esteve em uma conferência das Nações Unidas para discutir o embargo norte-americano a Cuba, surgiu a possibilidade de o revolucionário conceder uma entrevista a uma jornalista dos EUA para que a população do país conhecesse as perspectivas do comandante-em-chefe. Em primeiro lugar, Che deixa claro que não tem absolutamente nada contra o povo norte-americano. A revolução cubana colide contra os desígnios do imperialismo fomentado pelo Estado. “E qual seria a principal característica de um revolucionário?” Che traga seu charuto Monte Cristo antes de exalar a resposta:

− O amor. Apenas um genuíno sentimento de empatia com a humanidade pode dar à luz o novo homem socialista.

Não à toa Che defendia que era preciso lutar por incentivos morais e não materiais para que os trabalhadores incrementassem a produção econômica em Cuba. Trabalho voluntário, entrega. Para transformar o cotidiano pós-revolucionário enrijecido pela tradição hierárquica, competitiva e individualista do capitalismo, as armas e o farisaísmo precisam dar lugar à consciência redimensionada por uma verdadeira empatia com a utopia.

A mãe de Alex, nesse sentido, ressoa as palavras e os atos de Che. Mas a truculência da polícia contra os manifestantes, entre os quais seu filho Alex, faz com que sua Utópolis fique ilhada pelo coma durante 8 meses. Nesse entretempo que só daria à luz um bebê prematuro, o Muro de Berlim e a República Democrática Alemã são abortados. Christiane não assiste à reunificação das Alemanhas e não fica sabendo que sua filha Maria deixara os estudos de Economia Política para se tornar atendente do Burger King. Um dia, quando Alex enfim dá um beijo em Lara, a enfermeira que cuida de sua mãe com bastante cuidado, Christiane abre os olhos em meio a um mundo em que o socialismo se transforma cada vez mais nos escombros da memória. O médico sentencia:

− Alex e Maria, a mãe de vocês ainda corre riscos. Ela não pode se exaltar de maneira alguma. Se isso acontecer, um novo ataque cardíaco será muito provável.

Alex decide levar sua mãe para casa. Afinal, onde mais ela receberia o carinho devido? Afinal, onde mais Alex poderia esconder de Christiane que o socialismo havia entrado em colapso? “Sua mãe não pode se exaltar de maneira alguma. Se isso acontecer, um novo ataque cardíaco será muito provável”. Em meio ao adeus a Lênin, Alex amealhará as ruínas da República Democrática Alemã para que sua mãe continue a viver no admirável mundo velho.

O apartamento é redecorado segundo os padrões socialistas. É preciso resgatar os antigos produtos: café sem concorrência, pepinos que o Muro conservava, geleia plebeia ao invés da real. Funcionário de uma loja de antenas parabólicas, Alex arregimenta seu colega de trabalho Denis, aspirante (algo trôpego) a cineasta, para que os programas da televisão vermelha continuem a inocular a atmosfera da guerra fria na Christiane convalescente. Não se trata tão somente de evitar um novo e iminente ataque cardíaco. Trata-se de resguardar o reverso do Muro de Berlim e de alimentar a grande cativa da história humana, a esperança enclausurada na Caixa de Pandora.

A realidade ficcional do socialismo que Alex recria para sua mãe acaba se insinuando pelas frestas do carinho. Certo dia, Christiane abandona a estufa socialista de seu quarto para (tentar) caminhar pelas ruas da Alemanha reunificada que ela não imagina existir. O estranhamento vai despontando – “o que são estes slogans comerciais?” – até que a realidade contraditória irrompe sem mais: sobre as ruas ainda repletas de ladas, surge um helicóptero peculiar. Seu voo transporta o ícone-mor do socialismo, a estátua de ninguém mais que Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lênin. O olhar perplexo de Christiane parece não (querer) entender que o helicóptero cada vez mais ao longe dá adeus ao ilustre bolchevique.

O réquiem para um sonho faz com que Christiane decida abrir o subsolo de suas memórias. Alex e Maria ficam sabendo que o pai não fugira para a Alemanha Ocidental com outra mulher. Na verdade, conseguira permissão para um congresso na República Federal da Alemanha a fim de que Christiane logo em seguida partisse com os filhos rumo ao capitalismo. A trama levantara a desconfiança da polícia política, o que resultou na separação definitiva entre pai e filhos mediada pelo Muro de Berlim. “Seu pai escreveu para vocês durante três anos, mas eu não lhes mostrei as cartas”. Em uma transformação profundamente contraditória (e demasiado humana), Christiane, que não pudera reconciliar os filhos com o marido na Alemanha Ocidental, acaba se casando com a pátria socialista, cujos mecanismos de controle só fizeram separar o joio vermelho do trigo capitalista. Ao invés de julgar Christiane sem mais, Alex procura realizar o último desejo de sua mãe. O filho amoroso vai à casa do pai para levá-lo a um último reencontro com a antiga esposa. O coração de Christiane, que já claudicara diante do mero prenúncio da reunificação das Alemanhas, não resiste ao caminhar pelos escombros da memória e sucumbe poucos dias depois.

O enterro de Christiane não relegará a utopia a sete palmos do chão. Alex procura, ainda uma vez, o afago da memória. Na extinta República Democrática Alemã, as crianças, como se fossem cosmonautas, lançavam seus foguetes lúdicos com a esperança de que o socialismo fosse o pioneiro na exploração do espaço. Christiane pede a Alex que suas cinzas sejam lançadas aos céus a bordo de um foguete cosmonauta. Quiçá para distanciá-la de um mundo em que a utopia se transformou em estilhaço da memória. Adeus, Lênin. Quiçá para se confundir com as estrelas, cujo firmamento distante a humanidade tentou redesenhar com o socialismo.





Conteúdo Relacionado