Cinema

Rosas transgressoras de Tóquio

A Tóquio queer dos anos 1960 se espalha no exuberantemente criativo 'O Funeral das Rosas'

18/01/2021 12:37

 

 
"O espírito de um indivíduo atinge sua verdade absoluta através da negação incessante." Letreiro final do filme

A influência exercida sobre Stanley Kubrick em Laranja Mecânica (1971) tornou-se a maior referência de O Funeral das Rosas (1969). Mas isso é muito pouco para dimensionar a relevância desse filme não só na Nouvelle Vague Japonesa, mas em todo o cinema queer mundial. Depois de algumas exibições esparsas no Brasil e de aparecer em comunidades de troca cinéfila, a obra-prima de Toshio Matsumoto fica, enfim, disponível em versão restaurada e impecável na plataforma Supo Mungam Plus.

O primeiro longa de Matsumoto foi também o filme de estreia da estrela transgênero Peter, nome artístico de Ikehata Shinnosuke. Descoberta num bar gay de Tóquio aos 17 anos, ela seguiria carreira no cinema e nos palcos, tendo interpretado o bobo da corte no Ran de Kurosawa. Em O Funeral das Rosas, ela é Eddie, a queridinha do Bar Genet (uma das muitas referências à cena cultural e contracultural da metade do século passado). Seu sucesso junto aos frequentadores e principalmente ao dono do bar, o traficante de drogas Gonda (Yoshio Tsuchiya, um dos poucos atores profissionais no elenco formado por amadores e minicelebridades urbanas), desperta o ciúme da "madame" Leda (Osamu Ogasawara), uma tavesti que encarna o modelo da geisha tradicional. A rivalidade com a popíssima Eddie significa, portanto, uma mudança de paradigmas na representação de transgêneros e crossdressers



Em torno desse fiapo de trama, o filme traça um painel exuberante da cena queer de Tóquio na época, com destaque para a área de Shinjuku. Eddie circula entre gays, travestis, jovens descolados, junkies, ativistas políticos, gente do cinema pornô e um coletivo que faz vídeos de vanguarda inspirados em Nam June Paik. Um integrante desse último grupo dá a chave para o espírito do filme ao citar Jonas Mekas: "Todas as definições de cinema foram apagadas. Todas as portas foram abertas".

Matsumoto não só as abriu, como escancarou. Com uma fotografia virtuosística em preto e branco de Tatsuo Suzuki, o diretor ataca em todas as frentes: planos-sequência enredantes (como uma rodada de baseado que parece não ter fim), cenas aceleradas à moda do cinema mudo, quadrinhos, letterings (textos na tela), entrevistas documentais, cinema-verdade, clipes experimentais relâmpago trazidos de seus curtas anteriores, estroboscopias, cenas coreografadas, performances de rua, outtakes (planos supostamente cortados da montagem) e até uma impossível câmera subjetiva do ponto de vista de uma pessoa cega.

As ousadias se estendem à forma de mostrar o universo gay e trans com franqueza e naturalidade absolutas, embora deliciosamente ultrajantes. As cenas de homoerotismo são sensuais, apesar de não explícitas. Eddie é um dândi narcisista que ama o próprio corpo, esquadrinhado em banhos voluptuosos. Os símbolos perpassam todo o filme, das rosas (o termo "bara" em japonês tanto é rosa como pejorativo de homossexual) às formas fálicas, às facas e ao fatalismo de um carro funerário que corta a cena por duas vezes.

A porção trágica do título resulta de um subtexto melodramático que vai sendo gradativamente desdobrado e envolve os pais de Eddie. Não é à toa que, em dado momento, vê-se uma parede forrada de cartazes do Édipo Rei de Pasolini. No fim das contas, O Funeral das Rosas vai ser uma versão muito peculiar da tragédia de Sófocles, sendo Eddie um possível diminutivo de Édipo.



No caudal de referências percebe-se um misto de influência e diálogo com a Nouvelle Vague francesa: jump cuts (cortes em salto) e quebras brechtianas de Godard, manipulações do tempo mental de Resnais, corpos filmados como paisagenas à moda de Hiroshima Mon Amour. Mas há também vínculos com o underground americano, como o já citado Jonas Mekas. A sequência da dança-bacanal ao som de psych-rock evoca o ambiente de criação da The Factory de Andy Warhol. Os figurinos, por sua vez, se assemelham aos da swinging London. O cineasta dentro do filme se chama Guevara e cita o escritor Le Clezio, outros acenos à mitologia ocidental da época.

Nada disso contradiz a essência da própria Nouvelle Vague Japonesa, com seu coquetel de transgressões formais e temáticas. Esse movimento foi em grande parte viabilizado pela Art Theatre Guild, sistema de produção, distribuição e exibição que tornou possíveis este e filmes de Nagisa Oshima, Shohei Imamura, Mashiro Shinoda e outros expoentes dos anos 1960.



Desde a década anterior, Toshio Matsumoto tentava fundir documentário e experimentalismo. Exemplo disso é o curta A Canção das Pedras, de 1963, que pode ser visto legendado no Youtube. Muitas passagens de O Funeral das Rosas se dão na fronteira entre ficção, documentário e performance. A história é frequentemente interrompida por entrevistas frontais com "garotos gays", travestis, viciados em drogas e com os próprios atores/atrizes comentando sobre seu personagem e o trabalho no filme. Durante a rodagem de uma cena pornô com Eddie, a câmera abre para revelar toda a equipe em volta da cama, dirigida pelo próprio Matsumoto. A alusão aqui é à onda do cinema erótico underground (ou "pink"), emergente na Tóquio de então.

Não tenho notícias sobre a recepção do filme em 1969, mas é possível imaginar o impacto de tanto atrevimento reunido em 105 minutos de pura intensidade. Até 2017, quanto foi restaurado, era um tesouro pouco conhecido internacionalmente. Kubrick, porém, já reconhecia a inspiração direta para a concepção estética do seu Laranja Mecânica. Nesse vídeo comparativo pode-se conferir as semelhanças nas cenas aceleradas com música clássica e nos sorvetes fálicos. Mas há muito mais, seja nos figurinos, no estilo de montagem e na direção de arte, seja em detalhes como os cílios postiços imensos.





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