Cinema

Ruy Guerra em Moscou e ''fora da caixinha''

Com um ousado filme experimental, um dos mais respeitados e queridos diretores do cinema nacional volta a oferecer uma janela de liberdade ao espectador

09/10/2020 14:24

(Assessoria de Imprensa Festival Internacional de Moscou)

Créditos da foto: (Assessoria de Imprensa Festival Internacional de Moscou)

 
Um dos diretores mais respeitados e dos mais estimados pelas equipes com as quais trabalha no cinema brasileiro, Ruy Guerra está de volta às telas em grande estilo, depois do seu filme Quase memória,* de 2015. E vem destacado, com a participação, representando o Brasil, no 5o Festival de Cinema dos BRICS, em Moscou, que se encerra esta semana. Por causa da pandemia, o festival foi realizado on line, no âmbito do 48o Festival Internacional de Cinema da capital russa.

 Aos pedaços foi um dos dez trabalhos indicados para a competição e produzidos no Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O outro representante brasileiro é Silêncio da chuva, de Daniel Filho.

O filme recebeu também, no recente Festival de Cinema de Gramado, o Kikito de Melhor Direção, Fotografia (de Pablo Baião) e Som (Bernardo Uzeda). Luciana Mazzotti assina o roteiro junto com o diretor e a assistência de direção é de uma das duas filhas de Ruy, a atriz Dandara Guerra.



A narrativa do filme (final de 2018) é experimental e se sustenta nos fundamentos da escola do cinema pelo cinema, o cinema ''da opacidade''. O ''cinema que é imagem'', antiilusionista, dos soviéticos e de Eisenstein, como acentua Ruy. O avesso do cinema ''da transparência'', da realidade ''idealizada'' de André Bazin. '' É como sair da caixinha'', brinca Ruy.

Aos pedaços foi feito em preto e branco, é iluminado com grandes contrastes de luz e sombra que acentuam a angústia do protagonista. Desafia a fronteira entre a realidade e a imaginação e retrata um momento na vida do personagem Eurico dividido entre alucinações e a sua vida palpável, cotidiana.

O elenco é composto por um quarteto. O ator Emílio de Melo é Eurico, Júlio Adrião faz o seu interlocutor e confidente. Simone Spoladore e Chris Ubach interpretam as duas Anas entre as quais Eurico se questiona e se debate.

Os interiores de duas casas, nas cidades de Cataguases e Maricá são os cenários por onde trafegam as duas personagens Anas. As duas têm arquitetura e decoração modernistas. Uma das Anas, o protagonista suspeita, deseja matá-lo. E ambas as mulheres são idênticas e vivem em residências análogas, ainda que em continentes diferentes; um desértico, e o outro paradisíaco.

"Fazer um filme sem as amarras da necessidade comercial permitiu que Ruy trabalhasse com experimentalismos", diz a sua produtora, Janaína Diniz Guerra, filha do diretor. "Ele também se permitiu errar, lembrando que a possibilidade do erro é o que provoca a inovação. O filme tem alguns personagens fora de quadro, como por exemplo o narrador, na voz de Arnaldo Antunes, a fotografia e as próprias casas - uma no deserto, a outra na praia".

"Todo o cinema americano adotado no mundo se baseia em uma estrutura de narrativa viciada", acredita o diretor que nasceu e foi criado em Maputo (então Lourenço Marques), em Moçambique, filho de pais portugueses, e veio para o Rio de Janeiro via Lisboa e Paris, onde estudou no legendário IDHEC, o Instituto de Altos Estudos Cinematográficos. Chegou ao Brasil em 1958. Mesmo agora, aos 89 anos, dos quais 70 anos foram dedicados ao cinema, desde a era do Cinema Novo do qual foi uma das estrelas, Ruy continua buscando a inovação.



Um dos principais nomes do cinema brasileiro, ele teve participação fundamental no movimento do Cinema Novo, com seu primeiro longa-metragem, Os Cafajestes, de 1963, e Os Fuzis, em 1964. Na ocasião, os dois causaram furor. Na década de 80, Guerra dirigiu o belo musical A ópera do Malandro (85), em parceria com Chico Buarque de Holanda.

Agora, em entrevista para a mídia russa, diz ter sido uma grande experiência para ele ''sair daquela linha tradicional do cinema que faz com que os filmes sejam todos iguais". Diz Guerra: "Com Aos pedaços, temos, sim, um grito de liberdade."

E ressalta que sua proposta inovadora propiciou também o trabalho de atores com mais liberdade. ''Como a narrativa é diferente, eles participam do processo criativo e isso nos traz, a todos, muita liberdade. É dessa liberdade que eu extraio coisas novas."

Essa janela de liberdade se espraia pela platéia porque ''o espectador pode construir a sua própria história", realça o diretor à repórter Ana Esteves, do site Sputnik. Para os críticos de cinema que assistiram a Aos Pedaços, ele mostra a juventude e ousadia do diretor que não perdeu o vigor e segue desafiando convenções.

Agradecendo aos Kikitos recebidos em Gramado, mês passado, Ruy Guerra sublinhou, mais uma vez, que arte é sinônimo de resistência.



''Quero agradecer a coragem de dar uma premiação a um filme como Aos Pedaços que foge às regras, é um filme que nem todo jurado teria coragem de premiar. Agradeço à minha equipe, que me ajudou a descobrir o filme que eu queria fazer. Foi um filme em que precisei de muitos talentos, e tive esses talentos. Mas também não posso deixar de falar da escuridão em que estamos vivendo. Um governo que dizima as populações indígenas e quilombolas. Um governo racista, que promove uma avalanche de destruição. Obrigada ao Festival por abrir essa janela por onde respiramos um pouco de ar puro”.

*Disponível no Now.

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