Cinema

Samba: um retrato da imigração

A discriminação aos imigrantes também desembarcou no Brasil e um filme francês tem muito a nos dizer sobre essa realidade cada vez mais presente.

11/08/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

As imagens seriam impensáveis, no passado,  quando a mitologia de uma Europa libertária, fraterna e igualitária – bem, esta em termos - ainda alimentava a fantasia e as ilusões dos que se encontravam dentro e fora do velho continente. Adeus definitivo às ilusões. O que se viu nos noticiários da semana foram imagens tétricas de policiais franceses montados em azeitadas motos tentando deter a onda dos 200 imigrantes desesperados, a maioria africana, procurando atravessar a Mancha pelo Eurotúnel a partir do porto de Calais em direção à Inglaterra. Lá, um destino não exatamente melhor os aguardaria. Os agentes,  via-se, disparavam rajadas de gás lacrimejante contra esses párias do nosso tempo. Para o primeiro ministro britânico, David Cameron eles são “enxames humanos” – o que fazer com eles? Pragas humanas. Insetos.
 
O balanço é trágico: o governo húngaro de extrema direita  construiu um muro para se isolar; e 4 500 imigrantes foram interceptados. Desde o início do ano, 100 mil dos enxames de Cameron tentaram a aventura - a maioria vinda do Afeganistão, do Paquistão e da Síria, expulsos pelas guerras promovidas e estimuladas justamente pelos ex - colonizadores. No último mês, dez imigrantes morreram na trilha da Mancha procurando o caminho da salvação e da sobrevivência. 
 
“É fácil chorar em frente da televisão quando assistimos a estas tragédias. É mais difícil levantar-se e assumir  responsabilidades”, disseram, indignados com a indiferença dos governos mais ricos europeus, em uma declaração conjunta, o vice-presidente da Comissão Europeia Frans Timmermans, a representante para a política externa e segurança da UE, Federica Mogherini, e o comissário para as Migrações, Dimitris Avramopoulos. 
 
Ao que a ministra do Interior da Grã Bretanha, Theresa May, rebateu com uma imagem grosseira: “Há que se criar uma estratégia para convencer os imigrantes de que nossas ruas não são pavimentadas com ouro."
 
As imagens dos telejornais com imigrantes famélicos desembarcando em Lampedusa, na Sicília e nas costas da Grécia bombardeiam as nossas consciências. São inquietantes, porém previsíveis. Dois mil homens, mulheres, velhos e crianças, morreram na travessia, desde janeiro. No Mediterrâneo é verão e o clima é mais propício para as pragas de Cameron tentarem a aventura. Mas neste fim de semana a história dos insetos humanos ficou mais próxima do nosso egoísmo. Seis haitianos foram baleados nas pernas e nos quadris quando se encontravam sentados na escadaria de uma igreja com um serviço de assistência a eles, na zona central de São Paulo. 
 
Covardes atiraram do interior de um carro em velocidade. Antes, há cerca de um mês, em um posto de gasolina da cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, um mentecapto agrediu um frentista. Nacionalidade, haitiano. 
 
É provável que os eventos desse escândalo extremo do nosso tempo, que nos sacodem, expliquem o sucesso de um pequeno filme francês, uma comédia despretensiosa, em cartaz há mais de um mês no circuito cinematográfico mais inteligente do Rio e de São Paulo. Chama-se Samba. O nome do personagem protagonista é Samba Cissé. Imigrante senegalês, ele vive em Paris há dez anos – isto: dez anos – e não consegue obter a cidadania francesa embora seja um talento inato como chef de cozinha e fale correntemente o idioma. Seus empregos são precários, provisórios e sem quaisquer direitos, é claro, assim como as centenas de outros indivíduos, na mesma situação, que vivem em cubículos, na periferia da Cidade Luz dos turistas abonados. Os recrutadores para tarefas modestas temporárias (limpador de vidros, vigia noturno, lixeiro) exploram-no. Pagam 50 euros por um trabalho.
 
A história de Samba foi escrita pelo ator e cineasta Éric Toledano, parceiro frequente de outro diretor, Olivier Nakache. Os dois são autores do grande sucesso comercial de quatro anos atrás, o filme Os Intocáveis (Les Intouchables), detentor do premio Cesar e maior bilheteria da história do cinema francês.  Conta a história real de um milionário tetraplégico inválido assistido por um auxiliar de enfermagem imigrante, negro. Nessa produção, e também em Samba, o ator é o carismático Omar Sy, um francês gigantesco, sempre com uma atuação crítica, filho de mãe mauritana e de pai senegalês. 
 
A atriz Charlote Gainsbourg faz uma funcionária de ONG de ajuda aos imigrantes ilegais apanhados pela polícia e com risco de serem devolvidos aos seus países – como ocorre com Samba. 
 
A trilha musical tem direito a Gilberto Gil e Jorge Ben Jor já que um outro personagem do filme, também imigrante, é um árabe disfarçado de brasileiro. “Mais fácil, assim, conseguir emprego,” ele explica enquanto seduz meio mundo com sua ginga e extroversão de malandro. Caricatura ou não?
 
A trajetória do senegalês Samba se dá com esse pano de fundo político-social: as condições desumanas da vida dos imigrantes que sofrem com regras burocráticas e humilhantes, na Europa, e o racismo manifesto nas cenas na rua e no metrô parisiense. 
 
Para tentar passar despercebido (!) e evitar ser alvo de animosidade explícita, Samba é aconselhado pelo velho tio, também um imigrante que veio do Senegal há mais tempo ainda, adotar um “disfarce”: terno, gravata, pasta de executivo e jornal enrolado debaixo do braço. Sem muito sucesso. 
 
Samba, o filme, segue a trajetória do cinema fácil e divertido – entretenimento inteligente-, com diálogos espertos em particular na sua primeira parte. Quando vai se enredando na história amorosa pessoal de Cissé com a deprimida executiva Gainsbourg cai na vala comum do que ensinam os manuais americanos para roteiristas.
 
Vale assistir a odisseia de Samba Cissé no filme de Toledano e Nakache. Seu roteiro nos remete ao dos haitianos, bolivianos, peruanos, dos árabes imigrantes e dos refugiados que começam a chegar ao país  pedindo ajuda e socorro.
 
Nas próximas décadas eles vão se multiplicar. 





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