Cinema

Saravá, Senhora do Rosário

O bonito documentário de Joyce Prado oferece a memória negra narrada pelos próprios descendentes de escravizados

22/10/2020 15:28

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
O filme abre espaço para comentar e dar espaço como ponto de partida e de maneira original, a história de Chico Rei - ou Galanga - que, segundo a tradição oral de Ouro Preto, em Minas Gerais, foi sequestrado no Congo, onde era rei, e escravizado durante o ciclo do ouro na região. Galanga teria conseguido comprar sua liberdade e em seguida libertou, ele próprio, vários homens e diversas mulheres na mesma situação. Em gratidão, esses ex-escravizados o coroaram em uma linda cerimônia que ficou conhecida como “Reinado”. Ela é, até hoje, uma das atrações turísticas cidade de Ouro Preto.

O bonito documentário Chico Rei entre nós, é dirigido por Joyce Prado, está estreando hoje,* on line, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que vai até 04 de novembro.

A história de Chico Rei mostra a repercussão da escravidão brasileira na vida das pessoas negras até os dias de hoje, drama que está sendo revisto pela História, recontado com dignidade pelos movimentos negros e, como se vê no filme, é uma ''contra narrativa'', como ressalta a sua diretora, contendo detalhes e aspectos bem pouco conhecidos até agora.

“A história das pessoas negras nos países colonizados geralmente é contada através da perspectiva dos colonizadores. Pouco ou nada se sabe sobre quem foram aquelas milhões de pessoas trazidas para o Brasil durante a escravidão'', diz a diretora e produtora Joyce Prado, que vem da Comunicação Social do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e é especialista em Roteiro Audiovisual pelo Centro Universitário do SENAC.

''A população do país precisa conhecer e reconhecer a história dos antepassados para compreender o impacto de suas ações na sociedade atual”, observa Joyce, que faz parte da diretoria da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).



A equipe de filmagem do doc é inteiramente feminina e majoritariamente negra; os homens e as mulheres entrevistadas são os protagonistas. Sua trilha musical, envolvente, de Sergio Pererê (com participação de Emicida) e a excelente pesquisa é assinada por Luana Rocha.

 Chico Rei entre nós apresenta aspectos pouco falados ou desconhecidos da mineração nas redondezas de Ouro Preto - que não era apenas uma ''cidade-pérola'', mas sobretudo uma ''máquina africana'' montada para extrair o valioso minério das duas mil minas existentes nas montanhas da região, das quais 400 delas eram situadas dentro da própria cidade. Mostra também a sofisticada estrutura criada pelos escravizados iorubá vindos da Costa da Mina, no Golfo da Guiné, conhecedores, há milênios, da escavação e extração do minério no interior de montanhas.

Do bairro do Alto da Cruz, em Ouro preto, o filme passa à memória das origens do bairro da Liberdade, em São Paulo, conhecido hoje como território original de migração asiática - mas que só chegou ao local séculos depois dos africanos.

A escravização e o racismo institucionalizado são outros temas do filme assim como o sincretismo religioso do catolicismo com religiões africanas. Sequências tocantes, as das danças e festejos, e das oferendas e preces no interior de igrejas, onde cantava-se ''Ô Senhora do Rosário, Saravá".

''Estamos reescrevendo a memória negra'', diz o poeta, cantor e roteirista Aloysio Letra, um dos entrevistados. ''O papel da construção das organizações políticas negras, e elas durante a ditadura; as instituições católicas e o candomblé, as esquerdas e as comunidades eclesiásticas de base, as utopias, as perspectivas africanas. A memória e a cultura são a raiz, a base para muitas mudanças. E a cultura é tudo'', diz ele.

Entre os assuntos pouco conhecidos abordados por Chico Rei entre nós, um dos mais relevantes é o papel da formação das Irmandades católicas como divisor de classes sociais. Elas destinavam-se, na época, à construção de igrejas dedicadas e destinadas a grupos destacados; às classes do branco rico, do branco pobre, do mulato e do negro.

A São Francisco e a Santo Antonio eram dedicadas igrejas suntuosas. Para frequentá-las eram exigidos exames de sangue que provassem a ''pureza'' da linhagem dos fiéis brancos e abastados. Já Nossa Senhora das Dores era a protetora dos brancos pobres. N. Sra. das Mercês (ou Mercedes) era a santa de devoção dos mulatos, e Santa Efigênia a protetora dos negros.

Cada um desses grupos contava com grupos de advogados próprios para atender ao seu público específico na assistência de saúde, ajuda jurídica, confecção de documentos, produção de atestados de família. A Irmandade oferecia assistência em geral às populações das periferias das cidades; àqueles quase sempre negros, que não era desejados nas ''centralidades'' urbanas.

Se por um lado Chico Rei às vezes derrapa na ansiedade de esmiuçar tantos temas (todos relevantes) ao mesmo tempo, e que poderão se desdobrar em novos documentários importantes, por outro ele decorre com placidez e delicadeza nas sequências de cenários dos bairros pobres e em construção das montanhas das Gerais.

Sobre o seu trabalho, que deve ser visto, Joyce Prado ainda completa: “Ao longo do processo histórico de construção da nação nós fomos marginalizados e desprovidos da nossa auto-estima. As nossas vidas foram continuamente apagadas e reprimidas; nosso direito de existir foi recusado. Como chegamos ao ponto em que estamos? Qual é a nossa verdadeira história”?

É o que esse filme, assim como tantos outros, com o mesmo objetivo e em vias de produção, estão procurando responder.

*Plataforma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo https://44.mostra.org





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