Cinema

Saudades do Brasil

Claude Lévi-Strauss em longa entrevista, em Paris, três anos antes de sua morte, conduz um belo filme sobre um Brasil em formação

21/04/2021 13:03

(Wikipedia/Reprodução)

Créditos da foto: (Wikipedia/Reprodução)

 
Nada mais adequado como registro da data de hoje, 21 de abril, que o título dado pelo etnólogo, antropólogo, filósofo e escritor francês Claude Lévi-Strauss a um célebre trabalho da sua obra: o volume de fotogafias Saudades do Brasil. Do mesmo modo é pertinente, nos dias atuais, o mesmo título do lindo documentário da cineasta Maria Maia, em exibição on-line* no certame Dias da América Latina e do Caribe (Latin American Days) organizado pelo Ministério das Relações Exteriores da Eslovênia: Lévi-Strauss: saudades do Brasil. Ele representa o cinema brasileiro nesse encontro em companhia dos docs Ailton Krenak: O Sonho da Pedra, de Marco Altberg e Caminho do Mar, de Bebeto Abrantes.

Realizado por Maria Maia, foi produzido por Dea Barbosa para a TV Senado, em 2006. Faz uma reconstituição da experiência de Claude Lévi-Strauss no início da carreira, no Brasil, nas suas duas viagens ao país: em 1935 foram 19 dias, e, em 1939, oito meses quando integrou um grupo de professores europeus trazidos para dar aulas na recém-criada Universidade de São Paulo (USP).

Uma longa entrevista do próprio Lévi-Strauss com idade avançada, em Paris - ele faleceu em 2009 -, e algumas vezes em off, conduz o espectador com eficiência e fornece as passagens corretas para diversos momentos da sua vivência no interior do Brasil, na região Centro-Oeste, Mato Grosso, Paraná e interior de São Paulo, Pirapora, Mogi das Cruzes, e em meio aos indígenas bororó e kadiwéu.

Um material escolhido a dedo e precioso onde comparece também a mulher do escritor, a etnóloga e antropóloga Dinah Lévi-Strauss, que é interpretada mais adiante no filme pela atriz brasileira Juliana Carneiro da Cunha. E Mario de Andrade - grande amigo do casal -, e Jean Cleaver, o editor da famosa coleção Terre Humaine da qual Tristes trópicos faz parte.

O documentário é musicado com Villa-Lobos, Darius Milhaud, Cateano Veloso, Tom Jobim e canções de rituais das tribos visitadas. Jean Malaurie, editor do volume, também é entrevistado assim como Antônio Cândido, Manuela Carneiro, Eduardo Viveiros de Castro e Caetano Veloso que cita o pai do estruturalismo na sua canção O Estrangeiro interpretada no filme, além de um grupo de antropólogos brasileiros.

Em Tristes trópicos o autor fala como descobriu Marx quando ainda estudante, aos 17 anos, e do seu interesse por Freud. '' De certa forma tudo pode ser decodificado porque há no inconsciente humano regras, uma maneira de formular as coisas que podemos decifrar; uma racionalidade profunda.''

''Eis o que vi, eis o que sou''. Na sua entrevista ao filme ele fala da liberdade a que se permitiu escrevendo como quem compõe uma ópera, ''com árias e explicativos.'' E diz: ''Odeio viajantes e exploradores, mas vou falar das minhas expedições.''

Sugerimos assistir ou rever, se for o caso, a este documentário de referência. Ele fala de um país num momento de vir-a-ser, quando Lévi-Strauss o conheceu. Hoje, vive-se a tragédia da sua destruição.

Saudades do Brasil.

*Veja o documentário Lévi-Strauss:Saudades do Brasil completo e legendado abaixo ou clicando aqui.





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