Cinema

Scorsese: sobre a lealdade, a violência e o remorso

Mais que um novo filme sobre a máfia, 'O irlandês' comenta, de modo brilhante, as raízes da violência em que nasceu o capitalismo americano

12/12/2019 10:33

 

 
Há quem, com toda razão, terminando de assistir O irlandês, comente que o filme mostra admiravelmente a violência inerente ao capitalismo norte americano. Ficção embora inspirado em pessoas reais? Talvez. Não faz diferença se o espectador conhece um pouco a realidade dos fatos relativos ao sindicalismo americano organizado na era Kennedy e as raízes do sistema. A menção do filme a Joe Kennedy deixa clara a intenção.

Baseado no livro do advogado Charles Brandt, que recolheu do próprio Frank Sheeran as informações que constam do seu trabalho, o filme/monumento de Martin Scorsese é, antes de tudo, uma reflexão sobre a lealdade. O próprio Scorsese diz isto no excelente vídeo, uma conversa de botequim deliciosa, entre amigos, exibido em seguida a O irlandês na versão do Netflix.

Scorsese lembra como um personagem secundário, um coadjuvante na vida real como foi o irlandês Sheeran - cuja alcunha sublinhava o fato de ser um dos raros irlandeses da confiança de mafiosos italianos; os mesmos que acabaram determinando o seu destino. Sheeran foi peça central nos acontecimentos históricos e decisivos no mundo do sindicalismo trabalhista americano nos anos 50.

Um filme também sobre a lealdade porque ela é posta em xeque e deve ser provada a dois senhores poderosos e perigosos, duas figuras lendárias: Russell Bufalino (controlava a máfia da Pensilvânia e de Detroit) e Jimmy Hoffa, o sindicalista trabalhista mais famoso da história dos Estados Unidos, que foi desaparecido em 1975 sem deixar rastros até hoje.

Um outro filme, aliás, Hoffa, dirigido por Danny de Vito e lançado em 1992, com roteiro do excelente escritor David Mamet, relata a trajetória desse personagem que em determinado momento foi tido como a segunda personalidade mais popular dos EUA rivalizando com John Kennedy. Quem fez o papel de Hoffa foi um competente Jack Nicholson.)

Da parte de Steve Zaillian, o brilhante roteirista do filme de Scorsese, sua observação sobre o tema é sombria e fortemente poética. Ele diz que se trata de uma história " de laços que se dissolvem na noite das almas quando ocorrem todas as traições.''

Pistoleiro de origem irlandesa, Frank Sheeran foi guarda-costas de irrestrita confiança da famiglia Bufalino e, a partir de certo momento, amigo pessoal de Hoffa - ligado ao sindicalismo e à máfia ao mesmo tempo. Matador que aprendeu a matar - assassinar soldados alemães vencidos e sem armas - na Itália, quando da sua participação na Segunda Grande Guerra.

O filme o mostra desde os 24 anos, quando retorna da guerra, na Pensilvânia, filho de um pintor de paredes; e onde morreu, em 2003.

Foi Robert de Niro, que faz o irlandês, quem leu o livro de Brandt, publicado em 2004, e o passou para o grande amigo ''Marty''. Em 2012 os dois chegaram a fazer uma leitura do livro e do roteiro. Al Pacino ( hoje com 79 anos) foi chamado, aceitou o papel de Hoffa, e outro grande amigo e ator fiel a Scorsese, Joe Pesci, do mesmo grupo dos setentões (76 anos) foi convocado para fazer Bufalino numa performance empolgante que compete com as de Pacino e De Niro. "Marty'' me tirou da sarjeta,'' diz Pesci, se referindo ao fato de que há dez anos não trabalhava.

Neste início de fecho de ouro maciço com que Scorsese vai concluindo seu trabalho no cinema americano, ele consegue reunir Pacino (pela primeira vez dirigido por ele) e De Niro, ambos atuando juntos em diversas sequências, o que até agora não acontecera. Em O Poderoso Chefão II os dois não contracenam. Em Fogo contra Fogo aparecem juntos numa ligeira sequência, e o medíocre As Duas Faces da Lei foi um desastre.

O irlandês custou 175 milhões de dólares; filme bem além do padrão dos filmes de Scorsese. Parte significativa deste dinheiro foi utilizado no trabalho dispendioso, de última geração, necessário para rejuvenescer digitalmente os rostos dos protagonistas em sequências que vão e vêm entre passado remoto e passado próximo, num longo flashback até o tempo presente: os últimos anos de Sheeran, na casa de idosos onde esteve internado, no fim da vida, e é perguntado sobre a questão dos remorsos: bela sequência final.

Sobre esses mesmos remorsos que a violência pode provocar nos que a praticaram, De Niro comentou em entrevistas concedidas para divulgar o seu filme: “Pode ser. Eles têm de fazer o que fazem para sobreviver; quase inconscientemente”.

Nas outras ocasiões, em Nova York e na TV, o ator faz questão de definir Donald Trump como ''o "presidente gângster". Em Londres declarou: "Não quero que ele morra, mas que vá para a cadeia".

Fica a sugestão: para ser apreciado na sua plena força cinematográfica O irlandês deve ser visto, de preferência, na telona do cinema. Caso não seja possível, como tem a duração de mais de três horas, que não seja fatiado em episódios ao modo de uma série como diversos espectadores têm tentado. A linguagem do cinema é outra, mais rica e complexa, o seu timing é exclusivo e, no caso, a cenografia e os símbolos devem ser minuciosamente observados.



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