Cinema

Selma e os gritos que ainda vêm das ruas americanas

Filme indicado para o Globo de Ouro, 'Selma' retrata as lutas selaram a adoção da lei para garantir os direitos dos eleitores afro-americanos nos EUA.

02/01/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

Vem mais outro filme-bomba por aí, remexendo na história do racismo e dos direitos humanos nos EUA e nas feridas que teimam em não cicatrizar, decorrentes da escravatura, da discriminação, violência e menosprezo aos negros que, mesmo com um presidente de pele escura e descendência africana no seu segundo mandato, volta e meia se apresentam como chagas vergonhosas de uma sociedade conservadora e fechada em si mesma.


Depois de 12 anos de escravidão, de dois anos atrás, um dos raros filmes produzidos pelo cinema americano sobre o tema da escravidão, este de agora se chama Selma e fala sobre direitos civis. Está com estreia marcada para 25 deste mês no Brasil. Sua diretora, Ava DuVernay, foi indicada para o Globo de Ouro de 2015 – coisa raríssima, em se tratando de diretores negros. Os outros dois agraciados com o prêmio foram Spike Lee (Faça a coisa certa) e Steve McQueen (12 years a slave).


Lançado há pouco em Manhattan, na véspera de Natal, Selma surpreendeu lotando a sala do cinema em que estreou e “não poderia vir em melhor hora,” como relata a jornalista brasileira Heloisa Villela, de Nova Iorque. Ela se refere aos desmandos policiais e às passeatas de protesto que, nos últimos meses, lotam as ruas de várias cidades do país, inclusive na liberal e cosmopolita Nova Iorque, e resultaram nas mortes de jovens negros.


“Selma estreou no dia 24 e, apesar de ser noite de Natal, quando as ruas de muitas cidades ficam vazias já que quase todo mundo se reúne com os parentes, aqui em Nova York as ruas, e a sala de cinema, estavam lotadas.”


No próximo dia 9 Selma ganhará grande circuito em todos os EUA.


Em março deste ano, a chamada caminhada de Selma completa 50 anos. “Historicamente, é pouco tempo,” Heloisa lembra. “E dá o que pensar. Hoje, os índices de participação dos afro-americanos nas eleições em todos os níveis são baixíssimos. Pouca gente exerce esse direito garantido na marra. Em média, menos de um terço dos eleitores negros que podem votar se dão ao trabalho de depositar o voto na urna.” 


“O filme de DuVernay reconta a história das três passeatas decisivas, entre as cidades de Selma e Montgomery, no Alabama, que selaram a adoção da lei para garantir os direitos dos eleitores afro-americanos dos Estados Unidos. O voto negro tinha sido promulgado em 1875. Quase cem anos depois, ainda era difícil exercer esse direito. Na época, os estados do sul adotavam uma série de manobras para rejeitar o registro dos eleitores negros. Uma delas era exigir que o eleitor soubesse ler e escrever e conhecesse a fundo a constituição do país.”


“A mobilização que ocorreu, em março de 1965, em Selma, no Alabama era parte integrante do movimento de direitos civis liderado pelo reverendo Martin Luther King, encontrou em Selma o município ideal para chamar a atenção do país. Distando 75 quilômetros de Montgomery, capital do Alabama, Selma era um exemplo típico de segregação e desrespeito aos direitos dos afro-americanos. No caminho entre as duas cidades, o condado de Lowndes era recordista: lá, nenhum eleitor negro conseguira se registrar para votar em 60 anos.” 


As caminhadas de protesto entre as duas cidades são históricas. “A primeira ficou conhecida como o Domingo Sangrento. Martin Luther King não estava presente. Quando os manifestantes tentaram cruzar a ponte Edmund Pettus, policiais e milicianos avançaram armados com cassetetes, alguns revestidos com arame farpado. Foi um massacre noticiado em todo o país e provocou uma enxurrada de adesões. Brancos e negros de diversos estados, de várias organizações civis e religiosas se juntaram aos manifestantes para os protestos seguintes. Foi tanta a pressão que o presidente Lyndon Johnson conseguiu arrancar do Congresso a aprovação da Lei do Direito do Voto proibindo a discriminação na hora de registrar eleitores e no momento de organizar as eleições.”


“Assim como ocorre com quase metade do eleitorado branco, eu acho,” continua Villela, “que os negros não se sentem representados por democratas ou republicanos. Simplesmente não acreditam no processo eleitoral como meio de conquistar mudanças significativas que criem melhores empregos e tornem as escolas públicas dos bairros pobres e de maioria negra tão boas quanto as dos bairros brancos e afluentes. Eleger um presidente afro-americano não provocou mudança alguma nesse quadro. O desinteresse pela democracia continua o mesmo. E reforça a tese dos professores de Ciências Políticas Martin Gilens, da Universidade Princeton, e Benjamin Page, da Universidade Northwestern sobre o fim da democracia americana.”


“Eles provocaram muita discussão em abril passado quando publicaram o trabalho sobre a transformação dos Estados Unidos em uma oligarquia. Afirmam que os interesses da elite econômica têm muito mais impacto na adoção de políticas nacionais do que as preferências do cidadão comum. Daí, adeus democracia.”


“Agora, as minorias estão lutando pelo respeito à vida. As mortes recentes de afro-americanos desarmados nas mãos de policiais brancos que sequer foram a julgamento pelos homicídios cometidos levaram milhares às ruas de várias cidades. Aqui em Nova York o incidente foi ainda mais longe. O policial deu uma gravata no pescoço de Eric Garner, um golpe que é proibido pelas normas da própria polícia. Ainda assim, a corporação ficou do lado do policial. Recusa admitir que ele errou. O prefeito Bill de Blasio, casado com uma afro-americana, tem um filho adolescente. Negro. E declarou, em público, ter conversado com o rapaz várias vezes a respeito dos cuidados que ele deve tomar se for parado na rua pela polícia. Esse é um medo que eu não conheço. Uma conversa que nunca precisei ter com os meus filhos. Mas a realidade dos pais negros do país é outra.”


Como Heloísa Villela observa, De Blasio tocou em uma ferida aberta e está pagando caro por isso. “Durante o enterro de um policial morto em serviço, milhares de colegas do agente deram as costas ao prefeito enquanto ele discursava no funeral. Foi uma cena forte, preocupante. Por vários motivos. Mas é estarrecedor imaginar que a imagem do colega dando uma gravata em um cidadão desarmado até ele morrer asfixiado não seja suficiente para que eles reconheçam um erro. E é também sinal de que o corporativismo e o preconceito estão muito acima da justiça e do sentimento básico de humanidade. Os policiais que se comoveram com o sofrimento da viúva e dos filhos do colega morto não demonstram a mesma preocupação com o que está passando a família da vítima do excesso de força.” 


“Selma mostra o que foi preciso para garantir o direito do voto, básico em qualquer democracia. Mas não foi suficiente para varrer o preconceito, como deixam claros, hoje, os gritos que vêm das ruas.”


Esperamos que Selma, no Brasil, tenha um lançamento forte e digno da sua importância. Produzido por Oprah Winfrey, com elenco impecável – Tom Wilkinson e Tim Roth estão nele -, relata, afinal das contas, momentos da rica vida e luta de Luther King interpretado com garra e “com todo o seu coração”, como diz DuVernay, por David Oyehowo. É uma atuação inesquecível, diz a crítica lá de fora.


As novas gerações daqui, os bem jovens, precisam conhecer e repisar a biografia um dos maiores líderes dos direitos para todos que deu a vida pela causa da igualdade entre os humanos. Este é um tema que começa a ferver, entre nós, no caldeirão do Brasil, por conta das novas leis de controle policial que estão entrando em vigor, da violência das polícias nas comunidades e periferias e das grandes bancadas racistas e armamentistas que vão atuar no novo Congresso.




 
 







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