Cinema

Sociopatologia da vida cotidiana

Em 'Tiros em Columbine' (2002), Michael Moore se pergunta e nos pergunta por que algo tétrico como aquilo pôde ocorrer? "Uma coisa é certa", sentencia o documentarista: "ainda que as armas não atirem por si mesmas, o massacre fica bastante facilitado se for possível obtê-las em um supermercado, ao abrir uma conta em um banco ou mesmo no cabeleireiro". Por Flávio Ricardo Vassoler

16/06/2013 00:00

 

Littleton, Colorado, 20 de abril de 1999. Que faz o estudante Eric Harris? Mata 12 colegas de sua escola, 1 professor e deixa vários feridos com seus Tiros em Columbine (2002), documentário dirigido por Michael Moore. Após a chacina, Eric se suicida. (A história tende a requerer que o fundador de uma causa se ofereça em holocausto; assim fizeram muitos daqueles que continuaram a disparar os tiros de Columbine ao redor do mundo.)

Desde o princípio, Michael Moore se pergunta e nos pergunta por que algo assim tétrico pôde ocorrer? “Uma coisa é certa”, sentencia o documentarista: “ainda que as armas não atirem por si mesmas, o massacre fica bastante facilitado se for possível obtê-las em um supermercado, ao abrir uma conta em um banco ou mesmo no cabeleireiro”. Tiros em Columbine, nesse sentido, apresenta-se como um forte libelo contra a posse indiscriminada de armas e munições, “uma tradição americana resguardada pela Segunda Emenda de nossa constituição”, advoga o ator Charlton Heston (1923-2008), presidente da Associação Nacional do Rifle (NRA, em inglês), que teve a insensibilidade de realizar uma conferência em Littleton, Colorado, algumas semanas após o massacre ter ocorrido.

Michael Moore: “Por que ocorrem tantas mortes por arma de fogo nos Estados Unidos em comparação com os demais países?”

Charlton Heston: “Talvez porque tenhamos uma história muito violenta...”

Michael Moore: “A Alemanha não tem uma história violenta? A Inglaterra e seu colonialismo não o têm? O Canadá é um país em que as armas abundam tanto quanto aqui. Por que, então, temos mais de 11.000 mortes por arma de fogo anualmente nos Estados Unidos?”

Charlton Heston: “Talvez, então, por sermos um país multiétnico...”

Michael Moore: “Como, senhor Heston? O senhor poderia explicar melhor o que quer dizer com a associação que acaba de fazer?”

Charlton Heston acaba se dando conta de que não pode deixar seu profundo racismo transbordar para a esfera pública. Sua (de)formação eugênica deve se fortificar em sua mansão em Beverly Hills. Afinal, “as comissões pelos direitos civis nos trazem embaraços, você sabe”.

Michael Moore consegue, assim, identificar por que os meios de comunicação conservadores dos EUA culpam os negros e os latinos pela violência rotineira que tanta audiência e dividendo traz aos programas policiais. O porta-voz Charlton Heston, taticamente, não pôde ser enfático, mas para os descendentes da Klu Klux Klan, historicamente próxima à NRA, meio racismo basta.

Eric Harris era branco – eis um problema para Charlton Heston e seus correligionários. O racismo entranhado explica o ódio étnico e a reprodução do medo espraiados pela elite branca dos EUA, mas, por si só, não explica como pôde ocorrer o massacre de Littleton. Talvez devamos buscar mais pistas entre os escombros de nossa sociopatologia da vida cotidiana.

Segunda-feira, dia 1º de abril, 11h. Um relatório pormenorizado de custos humanos paira sobre a mesa do presidente Astolfo Alcântara de Mello Filho e Neto. Seu grupo empresarial não pode se dar ao luxo dispendioso de reverberar a parábola do bom samaritano. É preciso aumentar a liquidez; é preciso reduzir custos. Assim, em menos de 10 segundos, a assinatura do magnata autoriza a demissão de 5.000 funcionários e suas respectivas famílias. E, aqui, devemos notar o caráter impessoal da medida tomada por Astolfo: se seu grupo empresarial não se livrar do fardo humano dispendioso, a concorrência o fará naufragar. Em consequência de tal lógica que nos trata como meros instrumentos com vistas à maximização insana e tautológica da produção mais rentável que busca sempre mais e mais rentabilidade produtiva, a humanidade é desumanizada contínua e cotidianamente. A produção maciça da riqueza social reza o mantra de que os recursos são escassos, isto é, os recursos devem ser divididos com escassez. 11º Mandamento: Obedecerás. Nesse sentido, em nossa guerra de todos contra todos, os mais aptos, vale dizer, aqueles que se mostrarem mais enregelados com os demais e, por extensão, consigo mesmos, conseguirão abocanhar um naco maior das vísceras de nosso corpo social. 12º Mandamento: Retaliarás.

Segunda-feira, dia 1º de abril, 7h. Marginal Pinheiros completamente congestionada. Súbito, o carro de Maurício apenas resvala o carro de Pedro a 10 km/h. (Os dois não se conhecem, mas, coincidentemente, trabalham para o mesmo grupo empresarial capitaneado por Astolfo Alcântara de Mello Filho e Neto; logo, convivem com o espectro do desemprego há, pelo menos, 6 meses; em consequência, precisam maximizar as metas de produtividade para imaginar, sem quaisquer fundamentos sólidos por parte da empresa, que conseguirão manter seus empregos que já estão com os dias contados; aliás, manter os empregos e os respectivos casamentos, pois só encontram as esposas e os filhos dormindo quando voltam para casa às 22h45.) Maurício e Pedro saem de seus veículos sem mais. Começam a discutir aos berros. O trânsito lento torna-se estático, já que os demais motoristas dolosos não querem perder a oportunidade de acompanhar ao vivo e gratuitamente a potencial apresentação de MMA. Suponhamos que Pedro, o dono do carro imperceptivelmente avariado, tenha um revólver calibre 38 em seu porta-luvas. Nesse caso, estamos ou não diante de uma altíssima probabilidade de que mais tiros de Columbine sejam disparados em São Paulo?

Mas o subsolo sociopatológico que alicerça a vida cotidiana e se confunde com nossa segunda natureza não deve ser (re)produzido apenas na luta pela sobrevivência. O entretenimento também deve ser autoritário. Filmes de serial killers e exterminadores lotam as salas de cinema em meio às quais Maurício e Pedro terceirizam o ofício paterno que já não têm tempo de exercer. Crescei e multiplicai-vos: Maurício Filho e Pedro Jr. aprendem desde cedo que o ódio, o rancor, a frieza e a indiferença são os melhores remédios para prolongar nossa doença que vive por pouco mais de 70 anos. Ora, os jogos virtuais canalizam a violência que não pode ser exercida de fato. Um deles faz com que o jogador simule batidas de carro, roubos, estupros – e chacinas urbanas. E não nos esqueçamos de que a concorrência deve ser aniquilada. Se essa é a lei social – transformada historicamente em lei natural – que rege desde as macro até as microrrelações de nossa sociedade, por que estranhar que uma famosa locadora de filmes tenha o nome de uma bomba fulminante de que a Royal Air Force, a força aérea britânica, lançou mão durante a Segunda Guerra Mundial? Afinal, é preciso liquidar e exterminar o foco de resistência nazista. Para isso, é preciso lançar a “arrasa quarteirão”, também conhecida em sua língua nativa como blockbuster.

Quando a guerra é televisionada, os alvos militares – muitos deles civis – mais parecem reproduções das telas dos jogos virtuais. Não vemos a dor do outro. Ela se esgueira entre os escombros distantes e silenciados. Mas, se a víssemos e a ouvíssemos, não pisaríamos sobre ela como muitas vezes fazemos com os corpos mendigos que ainda não foram assassinados pelos esquadrões de extermínio, o serviço terceirizado de nosso ódio? Afinal, o Coronel Ubiratan Guimarães não foi eleito deputado estadual sob a bandeira 14.111 após a Tropa de Choque ter erradicado 111 detentos no antigo presídio do Carandiru? E quanto ao “estupra, mas não mata” que, além de não estar atrás das grades, ainda continua a provocar risos entre nosso imaginário coletivo?

As condições para a (re)produção da sociopatologia da vida cotidiana não continuam apenas presentes. Elas se recrudescem, na medida em que ao capitalismo não se contrapõem antíteses efetivas. Os juízes midiáticos – via de regra patrocinados por grupos empresariais como os de Astolfo Alcântara de Mello Filho e Neto – inculpam Eric Harris sem mais. A loucura diagnosticada individualmente escamoteia a administração coletiva da insanidade. Eric Harris e seus pupilos mundo afora – inclusive o sociopata brasileiro da escola em Realengo, no Rio de Janeiro – não puxaram os gatilhos sozinhos. Mas a sociedade alicerçada sobre a maximização violenta das satisfações pessoais contra os demais requer, subterrânea e cotidianamente, o retorno contumaz dos carrascos como o mote para roteiros cinematográficos bem pagos. Eis a verossimilhança do exterminador do futuro.

*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.






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