Cinema

Tempo para a guerra, e tempo para os escombros

As tomadas panorâmicas do italiano Roberto Rossellini vão caminhando pela carcaça de Berlim. Montes de entulho em meio aos quais ratos e sobreviventes disputam um naco de pão esverdeado e a última lata de carne em conserva. Alemanha, ano zero (1948), filme dirigido por Roberto Rossellini, denega a poética restauradora do Velho Testamento. Por Flávio Ricardo Vassoler

24/09/2013 00:00

 

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se; tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz”. (Eclesiastes, 3, 1-8) Alemanha, ano zero (1948), filme dirigido por Roberto Rossellini, denega a poética restauradora do Velho Testamento. Após a tempestade vem a bonança?

− Não! – sentencia o protagonista mirim Edmund Mahler antes do suicídio. Após a Blitzkrieg vem a tempestade. Alemanha, ano zero: tempo em que as pedras se transformam em escombros.

As tomadas panorâmicas do italiano Roberto Rossellini vão caminhando pela carcaça de Berlim. Montes de entulho em meio aos quais ratos e sobreviventes disputam um naco de pão esverdeado e a última lata de carne em conserva. Ali, ali, logo ali Pandora plantou uma violeta, uma violeta que resiste sobre um último tufo de grama. Mas o estômago a rugir sentencia que não há tempo para a poesia. A violeta se junta aos escombros sob a sola do coturno do soldado aliado – americano ou russo? – que dispersa a multidão larápia. Aqui está um edifício ajoelhado. Edifício sem rosto, a fachada ruiu sob a sinfonia dissonante das ogivas. Vemos o interior dos apartamentos sem vida, um piano sem cauda, uma cama de casal solteiro, divorciado – viúva! –, brinquedos espalhados pelo chão facultativo, e uma mulher que arfa, uma mulher que arfa. As pernas abertas como asas de borboleta denunciam que o enésimo soldado acaba de estuprá-la. Mas logo vemos 200 marcos – “dinheiro de pinga!”, ela escarra – sobre o criado-mudo. Alemanha, ano zero: zero à direita, zero à esquerda. Mercado negro, mercado de corpos. É preciso (tentar) sobreviver.

Edmund Mahler tem 13 anos. O pai velho e tuberculoso está prostrado na cama. O irmão/soldado tem medo de sair de casa. “Os aliados não vão me perdoar, eu lutei até a última bala pelo Reich”. Em verdade, em verdade sabemos: o soldado, eis um inválido em tempos de paz. A irmã sabe que, à noite, é possível fazer trocas que o mal-estar da civilização finge soterrar entre os escombros. Mahler, pouco mais que uma criança, sustentará a casa entre as ligações elétricas clandestinas, os canos de água desviados, as propinas para os soldados, os porões do mercado negro, o exército jovem da prostituição, as filas e mais filas de salvos-condutos Berlim afora, a chancelaria de Hitler, seu bunker, o local em que seu corpo foi incinerado. Mas, antes, Mahler precisa vender uma encomenda para seu professor dos tempos de primário – docente entusiasta do nacional-socialismo e da formosura dos jovenzinhos famintos do pós-guerra.

− Vá até a chancelaria do Reich. Lá você encontrará dois soldados ingleses que têm muito interesse em comprar este disco. Um disco com um dos últimos discursos do Führer. Leve também esta vitrola, eles vão querer testar o disco. Pode deixar que vamos repartir os lucros, pode deixar.

A câmera caminha sobre o ombro de Mahler como se Rossellini convocasse os espectadores para sentirmos os estalidos dos escombros sob os pés e o odor da decomposição. Berlim putrefata. Pronto, estamos na chancelaria do Reich. Os soldados ingleses querem ouvir Adolf Hitler, então Mahler apruma a agulha sobre o vinil.

− Pois eu tenho muito orgulho de ser o Führer da Alemanha, e nós venceremos, nós vencemos sempre, nós venceremos ainda uma vez e sempre! A vitória final nos espera!

Súbito, a câmera sai do plano dos sobreviventes e volta a sobrevoar o esqueleto de Berlim. Estaríamos diante de uma cena surrealista se a tragédia histórica não insuflasse verossimilhança à colagem que sobrepõe o discurso do Führer aos prédios pilhados e empilhados. E ainda há quem queira ouvir Hitler, alguns transeuntes sentem a nostalgia das palavras de ordem, dos tempos de comícios com tochas e bandeiras, ninguém se dá conta de que a grandiloquência do Führer agora reverbera e faz eco entre os salões vazios, as mesas de escritórios como barricadas. Mas Mahler só pensa em voltar até o professor/aliciador para receber o quinhão da venda. “Hoje teremos um pouco mais de comida, não vai haver só água com polenta, teremos algumas batatas e, com sorte, conseguirei uma lata de sardinha”. O professor logo nota que Mahler traz consigo uma tristeza que não se sacia com o jantar. “O que foi, meu jovem?”

− Meu pai está muito doente. Ele não tem condições de trabalhar. Somos 4 pessoas, mas apenas 3 podem lutar. Na verdade, são duas, porque meu irmão está refugiado em casa com medo da retaliação dos aliados. Então minha irmã e eu nos revezamos dia e noite... (O olhar ávido do professor insinua: “noite e dia...”) Amanhã meu pai vai voltar do hospital. Lá ele ao menos comia três vezes por dia. Com o dinheiro dessa venda, professor, vamos poder almoçar. Mas e depois? Como vamos sobreviver? O que vai acontecer?

O professor está pronto a ensinar – e a pregar – ao ex-aluno as afinidades eletivas entre o nacional-socialismo e o darwinismo social:

– Meu pequeno e querido Edmund, você tem que aceitar as coisas como elas são. Seu pai é velho e fraco. Olhe só para a natureza! (O professor aponta para algumas árvores esturricadas que testemunham a aula entre os escombros.) Os fracos devem morrer para que os fortes sobrevivam! Assim foi, assim é e assim será.

Que influência pode ter essa ode à iniquidade sobre um jovem faminto que assiste ao colapso de sua família e à agonia interminável do pai? O pai “rezo a Deus para que me leve, ó, meu Deus, não mais quero ser um fardo para a minha família, não quero ser condenado a viver, pelo amor de Deus, meu Pai, me leve daqui, ajude os meus filhos!” Que influência pode ter uma ode à iniquidade sobre um jovem faminto que assiste à agonia interminável do pai e ao colapso de sua família?

Antes de arrimar o pai moribundo com seus ombros franzinos hospital afora, Edmund Mahler surrupia um frasco de veneno do ambulatório. “Logo meu pai estará livre, logo!”

− Quer um chá, pai?

A tosse da pleura viscosa e vermelha mal permite ao pai tuberculoso dizer “muito obrigado, meu filho”. “Que vamos comer amanhã?” – pensam os três irmãos cabisbaixos.

− Mas este chá está com um gosto estranho – assim tossiu o pai pela última vez.

Choro e ranger de dentes.

− Como vamos enterrá-lo? O caixão custa uma fortuna!

Um vizinho pisa sobre a dor e traz a compaixão das trincheiras:

− Caixão? Não, não: sempre há sacos de papel.

Edmund Mahler faz uma última pergunta ao irmão antes de se esgueirar entre os escombros:

− O papai agora está livre, Karl?

O menino já não raciocina, sente saudade do pai que não vai mais abraçá-lo, sente saudade do pai que envenenou, não tem mais forças para alimentar os irmãos mais velhos, não tem mais forças para alimentar os irmãos velhacos, os escombros o hipnotizam, a decadência quer soterrá-lo, mas Roberto Rossellini ainda lhe traz uma trégua: um padre, sob a abóbada inexistente de uma catedral que se esforça em permanecer de pé, começa a tocar seu órgão – o réquiem de Edmund Mahler, a dança fúnebre do ano zero alemão. O menino ouve o apocalipse e vai se confessar com o professor/aliciador/mentor. Quando Adolf Darwin fica sabendo que o pupilo envenenara o pai levando seus ensinamentos às últimas consequências, um pedagógico chute na bunda sentencia que “eu não tenho nada a ver com isso, menino, nada! Não conte isso a ninguém, a ninguém, e fora daqui, fora!”

A câmera volta a ficar sobre o ombro de Edmund Mahler. “Meu pai agora está livre”. Choro e ranger de dentes. Subimos os degraus de mais um edifício sem rosto. A câmera agora se abre e os espectadores passamos de partícipes a testemunhas – ou pior, cúmplices. Uma última tomada de Berlim antecede a queda (da culpa) de Mahler. Berlim sobrevivente. Berlim indiferente. Do 6º andar ao térreo: o cadáver de Mahler mimetiza a natureza pós-guerra; Edmund Mahler se confunde com os escombros.

Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento sobre a terra: tempo para estrebuchar, e tempo para morrer; tempo para salgar o solo, e tempo para arrancar o que mal foi plantado; tempo para matar, e tempo para não cicatrizar; tempo para demolir, e tempo para soterrar; tempo para chorar, e tempo para ranger os dentes; tempo para gemer, e tempo para desmaiar; tempo para atirar pedras, e tempo para relegá-las; tempo para se amontoar, e tempo para apartar-se; tempo para procurar, e tempo para perseguir; tempo para escoltar, e tempo para condenar; tempo para rasgar, e tempo para suturar; tempo para calar, e tempo para ser calado; tempo para eletrizar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para os escombros.

(*) Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z: www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, , página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.



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