Cinema

The Post - A Guerra Secreta

Imprensa para servir aos governados; não aos governantes

19/02/2018 10:47

 


Spielberg é o mestre do cinema comercial. O controle que exerce sobre as imagens, o ritmo impresso na narrativa, o trabalho de direção de atores e as escolhas sofisticadas dos elencos dos seus filmes, a esplêndida montagem vapt vupt fascinando as plateias de massa criadas à sombra da TV - tudo é planejado e organizado com competência tal que é difícil não absorver com prazer, mesmo condescendente, os chavões de alguns diálogos e lugares comuns de cenas e sequências dos seus filmes, todos eles odes derramadas a heróis e heroínas que atapetaram a história da humanidade.
Steve Spielberg acredita firmemente no cinema que faz e no ‘caminho que deve ser percorrido pelo herói’, como na tragédia grega. A força do seu sucesso planetário também vem daí e da competência da sua equipe e com destaque, no caso presente, em especial, para Ann Roth, figurinista e John Williams, na trilha musical.
The post – a guerra secreta, de 2016, é o seu trabalho mais recente nesse sentido. Nele, novamente Spielberg narra como uma heroína vence os percalços, ganha do destino e é fiel à sua consciência. O filme concorre ao Oscar deste ano em duas categorias: Melhor Filme e Melhor Atriz.
Relata, como pano de fundo, o episódio histórico conhecido como Papeis do Pentágono, um calhamaço célebre, de 14 mil páginas carimbadas top secret que um analista corajoso, da estatura de Mark Felt, Assange e Snodown vazou: Daniel Ellsberg, hoje com 87 anos.
Como narrativa principal, o criador de ET desenha, com a precisão habitual, o retrato de uma mulher legendária na história do jornalismo americano.
Quando o marido se suicida, a viúva Katharine Graham (atriz Mary Streep, excelente, desta vez com poucos tiques e sem cafungar) se torna proprietária do Washington Post. Um jornal respeitado, porém provinciano que então se esvaía diante da força e expansão acelerada do seu concorrente de Manhattan, o New York Times. Até o ano de 1971, quando assume a presidência da empresa, Katharine foi uma dona de casa tradicional, anfitriã badalada e personagem de colunas sociais, amiga íntima de Jacqueline e John Kennedy e frequentadora assídua dos fins de semana na propriedade do casal em Hyannis Port. Uma mulher ainda à moda antiga.
Catapultada para a presidência do jornal editado por outra legenda do jornalismo americano, o editor Ben Bradlee (ator Tom Hanks), ‘Kay’ assume a posição de poderosa executiva acidental, canhestra e insegura num mundo essencialmente masculino - e machista - para comandar a abertura de capital do Post, na Bolsa.
Nesse momento delicado, com o Times nos seus calcanhares, estourando as vendas e recém divulgando documentos confidenciais começando a ser publicados, é que Bradlee recebe, na sua redação, os históricos Pentagon papers vazados por Ellsberg e entregues ao repórter Ben Bagdikian. Com eles ficava óbvio que todos os governos americanos, de Eisenhower a Richard Nixon, sabiam e reconheciam que a Segunda Guerra da Indochina e a continuação dela, a Guerra Americana no Vietnã onde vietnamitas e soldados americanos morriam como moscas, era uma guerra perdida.

A escolha de Sofia de Kay Graham era esta: publicar ou não os documentos que viriam a ser a consolidação do começo do fim da guerra no Vietnã, quatro anos depois, como ocorreu. Salvar o negócio familiar tornando a empresa aberta, o que estava prestes a ocorrer; e como era consenso entre seus advogados, conselheiros e diretores pusilânimes, silenciando sobre o material explosivo atirando-o ao lixo. Ou, ao contrário, correr o risco quase certo de ser processada, como foi, parar na cadeia, e incorrer na perseguição sem tréguas do governo Nixon ao seu jornal caso decidisse divulgá-los.
Em um áspero diálogo do filme, é relembrado um dos mantras famosos da época, quando Graham cobra do ex- secretário de Defesa dos governos Kennedy e Lyndon Johnson, Robert McNamara (que no passado encomendara um relatório decisivo sobre a possibilidade de a guerra ser ou não viável) a justificativa dele, que era seu grande amigo, para enviar para uma guerra que sabia perdida, centenas de garotos, ‘’muitos deles filhos de amigos nossos’’.
E ouve, de um constrangido ‘’Bob’’: ‘’Para evitar a humilhação de uma derrota da política de contenção e guerra ao comunismo.’’
Comunismo era o inimigo político da época.
Em outro momento, o editor Bradlee defende, exaltado, a sua posição de divulgar os documentos. ‘’A imprensa deve servir aos governados; não aos governantes.’’
‘’O Post não pode ter medo dos governos que dizem o que se pode ou não publicar.’’
Soa familiar? Sim. Mas o exemplo aqui não prosperou.
Embora o cenário seja este, The Post é um filme, segundo o próprio Spielberg, sobre a ‘’ascensão que é a ascensão de todas as mulheres.’’
No Brasil, antes, durante e depois da atuação de Graham, três mulheres passaram à história como firmes editoras-executivas do jornalismo, cada qual ao seu modo. Uma delas tendo enfrentado, com coragem e clareza, os generais da ditadura de 1964.
Katherina ‘Kay’ Graham, absolvida pela Suprema Corte, numa decisão histórica, não foi condenada por ter divulgado os documentos de Ellsberg. Três anos depois viu o seu jornal abrir caminho para a renúncia de Nixon com a divulgação do escândalo de Watergate, resultado do trabalho de outro vazador lendário, Mark Felt. Aos 84 anos ela morreu de sequelas provocadas por uma queda.
Daniel Ellsberg, ex-analista militar do Pentágono e ex-funcionário da Rand Corporation, é vivo e mora na Califórnia, com a mulher, uma budista assumida, Patrícia. Ele assinou, no ano passado, o manifesto em defesa do presidente Luiz Inácio da Silva - Eleição sem Lula é Fraude -, entre os mais de 200 mil signatários.
Quem conheceu e visitou os túneis e os labirintos subterrâneos cavados e preservados até hoje, para visitação turística, em Saigon e redondezas, com os seus inacreditáveis espaços para hospitais, salas cirúrgicas, imensos refeitórios, dormitórios, espaços de lazer, debaixo da terra, pode constatar: a Guerra Americana era uma guerra perdida tal a complexidade, a tenacidade e a perfeição da ação dos vietcongs.
São algumas das questões dos fatos e lembranças pessoais despertadas pelo filme de Spielberg. Bem mais além do retrato impecável de uma mulher íntegra no comando do seu jornal.



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