Cinema

Tiro de misericórdia

Uma pergunta embasa 'Testemunhas de uma guerra' (2009), filme dirigido pelo bósnio Danis Tanovic: o sobrevivente é um assassino?

19/11/2013 00:00

Divulgação

Créditos da foto: Divulgação

Dois náufragos flutuam a esmo sobre o que restou de um bote. Eles sabem que o mar quer tragá-los. (O mar, essa imensidão inconsciente.) Suas forças estão se esvaindo, eles sabem que não já não é possível resistir, que o espaço exíguo para escapar do naufrágio os arremessa um contra o outro. Um deles vai morrer. Um deles precisará morrer. Eis, então, a pergunta que a filosofia se faz há muito tempo: o sobrevivente é um assassino? E se, em nossa sociedade patológica, essa for a base das experiências morais? Pois esta é a pergunta que embasa a experiência do espectador de Testemunhas de uma guerra (2009), filme dirigido por Danis Tanovic.
 
Dois fotógrafos experientes vão a mais uma guerra. Eles são testemunhas. (Que ninguém nos ouça: eles são cúmplices.) Estamos no Curdistão, a bucha de canhão de todos os países ao redor. Irã, Iraque, Síria. O Curdistão sempre perde. Mas os fotógrafos não querem deixar de capturar o lirismo da guerra, a beleza de um grito para sempre suspenso pelo clique, um estilhaço perfurocortante, o crepúsculo que vela os moribundos. As fotos só não conseguem retratar o cheiro de putrefação dos cadáveres que ainda respiram, dos escombros que agonizam.
 
Na guerra, onde está a piedade? Não é possível estender a mão àquele que acaba de ter os braços amputados. Na guerra, então, onde está a piedade? Ora, a compaixão, o sofrer conjunto – a com-paixão – está em não permitir que a dor se prolongue, em conceder que a morte venha logo, que já não haja choro e ranger de dentes. (Caro leitor, cara leitora: vocês já haviam pensado na guilhotina como um instrumento de piedade? Pois vejam o que a razão que não está a serviço da humanidade, mas apenas ao dispor de uns poucos, pode criar: a morte clínica, cirúrgica; a morte sem ódio; a morte piedosa como o ápice da indiferença – e da caridade.)
 
O Dr. Talzani discordaria de nós. (Mas quem é o Dr. Talzani?) Mark, o fotógrafo que o diretor Danis Tanovic faz sobreviver ao naufrágio, vai parar nas macas do Dr. Talzani, o médico curdo que trata dos feridos de guerra. Mark não era um soldado, sua arma era distinta, uma câmera, mas agora o voyeur, aquele que só observa, aquele que não participa, está sentindo a dor dos soldados alvejados. Cabe ao Dr. Talzani decidir quem vive e quem morre. Cabe ao Dr. Talzani decidir quem sobrevive. Não há remédios para todos. Não há macas disponíveis para todos os que choram. Há, no entanto, tiras de papel, tiras amarelas e azuis. Mark sabe que se a tira azul for posta sobre seu peito, ele será levado para o cadafalso das montanhas e receberá um tiro de misericórdia do Dr. Talzani, o médico cujo processo de cura implica calar a doença de uma vez por todas.
 
Caro leitor, cara leitora, será que conseguimos não julgar o Dr. Talzani? Nós o tomamos como um monstro, não? Certamente não quereríamos estar em seu lugar. Quem gostaria de ser um médico que, para curar, primeiramente precisa eliminar os bacilos humanos indesejáveis? E não há divisão do trabalho: o Dr. Talzani trata os doentes que ainda podem sobreviver, é bem verdade, mas não sem antes eliminar os que suplicam por uma morte rápida.
 
Antes de ser alvejado pelos estilhaços de uma bomba, Mark, o fotógrafo dos escombros, havia perguntado ao Dr. Talzani se ele sentia remorsos pelo que fazia, se ele conseguia dormir, se ele se arrependia por tudo aquilo.
 
− Se eu me arrependo por abreviar de uma só vez a dor lancinante dos soldados? (O Dr. Talzani traga o cigarro de palha com calma antes de prosseguir.) Não, eu não me vejo como um carrasco. Eu simplesmente tomo o lugar da morte impessoal. Eu recolho os escombros da guerra e arrefeço suas brasas. Você pode me culpar, a humanidade ainda não aprendeu a viver sem o bode expiatório. Mas sou eu que lhe estendo a mão para você não chorar mais. (Uma tira amarela é posta sobre o peito de Mark – ele ainda pode mover as pernas e os braços, as concussões foram superficiais; o polegar do Dr. Talzani aponta para cima, Mark pode sobreviver; seu corpo, ao menos por ora, não se confundirá com os escombros.)
 
Mark volta do Curdistão. Agora, estamos em Londres. Não há guerra na city londrina – ao menos declaradamente. O capitalismo veste os soldados com fardas civis. Os batalhões são arregimentados pelos vagões de metrô. Na guerra do capital, as mulheres também lutam. Mas Mark não consegue sair do Curdistão – como se sua memória houvesse sido capturada por uma de suas fotos, como se o instante estancado se voltasse continuamente sobre e contra si mesmo. Mark, que não tem feridas no corpo, passa a definhar por conta do fardo que não pôde carregar em meio à guerra.
 
 
Elena, a apaixonada namorada espanhola de Mark, liga para o avô. “Meu nome é Joaquim Morales: eu sou um estudioso da alma humana”. Joaquim descobrirá de que fardo Mark não consegue se livrar. E Joaquim tem propriedade para caminhar entre os escombros: Elena, sua neta, havia se distanciado do avô pelo fato de o ancestral ter trabalhado como terapeuta dos assassinos de Francisco Franco, o ditador que soterrou a República Espanhola com as munições de ninguém menos que Adolf Hitler. “Como você pôde fazer isso? Como?! Todos aqueles monstros, aqueles assassinos que dizimaram cidades inteiras, aqueles torturadores e estuprados! Como você pôde tratá-los?!” É chegado o momento de Joaquim Morales ensinar para Elena a ética da triagem, a moralidade clínica do Dr. Talzani:
 
− Elena, meu bem, eu de fato tratei aqueles que você chama de “monstros”. E você me julga por isso. Então, vejamos: se os “monstros” – os vitoriosos de Franco, jamais nos esqueçamos disso! – fossem deixados à própria sorte, você acha que eles relegariam suas metralhadoras e voltariam a pegar o metrô de Madri para mais um dia no escritório? Sim, eu os purifiquei, eu os tratei! E, com isso, salvei a vida de centenas de milhares de pessoas! Esses “monstros”, os vitoriosos, tiveram em suas mãos o poder do Deus de Noé, o poder do dilúvio, o poder de dizimar centenas de milhares de pessoas. E, quando você já matou uma pessoa, é difícil matar a seguinte? Após torturar um sentenciado, será que não fica mais fácil afogar o próximo? Eles precisavam voltar à vida, eles tinham que sair da Casa dos Mortos, eles precisavam fugir do subsolo dos assassinados, e eu fui o barqueiro que os conduziu de volta à normalidade, de volta à humanidade. Foi assim que salvei a vida daqueles e daquelas que cedo ou tarde iriam cair diante deles. Pronto, aqui está. Faça disso o que você quiser, minha querida Elena, mas saiba: você já não é uma menina, e o mundo é bem mais complexo do que esse joguinho de gato e rato ao qual você relegou seu avô.
 
Imbuído da triagem do Dr. Talzani, Joaquim Morales, o sobrevivente, faz com que Mark revele por que continua a definhar, ainda que seu corpo pareça incólume. “David e eu estávamos lá, no Curdistão. A esposa de David está grávida, meu Deus, David era o meu melhor amigo, eles vão chamar o filho de Mark, o bebê vai ter o meu nome, meu Deus! Nós estávamos no Curdistão. Súbito, uma mina, uma bomba! Logo, um grito! Quando dei por mim, ouvi o desespero de David – o que restou de suas pernas já não estava lá. O que você faz quando se sente impotente? O que você faz quando não pode estender a mão? Eu o carreguei, pus nas costas o que restava do meu amigo, David implorava, ‘eu não quero morrer, eu vou ser pai, me leva de volta!’ Chegamos a um despenhadeiro, eu preciso prosseguir, lá embaixo havia um rio. O que você faz quando se sente impotente? O que você faz quando não pode estender a mão? Pulei no rio com o que restava de David. Não havia nada para nos apoiarmos, a não ser a vontade dos náufragos de sobreviver. Eu tentei chegar à outra margem, mas David começou a ficar pesado, cada vez mais pesado, nós não conseguiríamos juntos... Eu tive que soltá-lo”.
 
Joaquim Morales se levanta. Elena faz menção de acompanhá-lo, mas o avô gesticula sutilmente para a neta permanecer ao lado de Mark. Joaquim Morales sabe que, a partir de agora, Mark voltará a respirar; ele sabe que não é possível selar a paz entre os escombros. É preciso relegá-los. É preciso haver uma lápide. Eis a piedade do carrasco – seu tiro de misericórdia.
 
 



Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z: www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.



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