Cinema

Tiros em Columbine

Achei perturbador e genial. Estou falando do documentário Tiros em Columbine, que deu a seu realizador, Michael Moore, o Oscar de melhor documentário este ano

16/06/2003 00:00

 

Achei perturbador e genial. Estou falando do documentário Tiros em Columbine, que deu a seu realizador, Michael Moore, o Oscar de melhor documentário este ano.

Mesmo ciente dos truques sensacionalistas dos quais o filme se utiliza para reforçar a idéia de que os americanos, sob a gerência de Bush, viraram definitivamente a escória do mundo, não há como negar sua eficiência e utilidade. Tiros em Columbine trata da cultura do medo e do quanto ela é capaz de fazer uma lavagem cerebral na sociedade. O título do documentário refere-se ao episódio ocorrido numa escola do Colorado, quando dois adolescentes pegaram as armas dos pais e mataram 14 colegas e um professor, suicidando-se em seguida. Não foi a primeira nem a última vez que estudantes abriram fogo em sala de aula, mas este foi o mote para Michael Moore tentar desvendar as razões de isso acontecer mais nos Estados Unidos do que em outros países, mesmo que as nações tenham um histórico de violência parecido. Ele conclui que a diferença está na maneira de se capitalizar esta violência. Nos Estados Unidos, ela é um dos mais bem-sucedidos produtos de consumo.

Já disseram que o filme tem cenas manipuladas e que Michael Moore constrange seus entrevistados. Que seja, mas um documentário como este é mil vezes mais necessário, urgente e impactante do que um filmeco com a Jennifer Lopez. Gostemos ou não, Tiros em Columbine precisa ser visto. Não é programa para sábado à noite, é tema de casa.

Quem é a favor do desarmamento da população vai se sentir justificado. Já quem acredita que o cidadão não deve confiar na polícia e tem o dever de ter uma arma em casa para defender sua família, vai pensar um pouco mais a respeito. Talvez lembre do empresário carioca que, semana passada, matou a mulher, as duas filhas e a si mesmo com um revólver que tinha na gaveta para defender-se de marginais. Se não houvesse uma arma ao alcance da mão, talvez ele não fosse tão impetuoso, ou então teria pulado da janela e feito a gentileza de morrer sozinho. Uma arma carregada em casa é uma facilidade, uma tentação, uma solução rápida para pessoas que estão no limite da dor. Aqui no Brasil não temos o livre acesso a pistolas e rifles como há nos Estados Unidos, mas a cultura do medo é infinitamente maior: sabe-se lá como seriam nossas vidas se pudéssemos comprar munição como quem compra balas de goma.

Eu assisti ao documentário num cinema com 300 poltronas. Duzentas e noventa e cinco estavam vazias. Ocupe uma delas. Assista ao filme, odeie-o ou adore-o, fique com raiva de mim por recomendá-lo ou me agradeça, critique Michael Moore ou reverencie-o, somos livres para emitir qualquer opinião, mas não deixe de ir ao cinema antes de fechar a questão.





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