Cinema

Todos lo saben. Todos sabiam

'Todos já sabem', filme de um dos melhores cineastas iranianos, pode ser visto como curioso dossiê sobre situações conhecidas de todos, porém murmuradas, porque não são comprovadas, até o momento em que os eventos se precipitam e a verdade surge. Como agora ocorre, no Brasil

16/06/2019 12:10

 

 
Alguns críticos brasileiros especializados em escrever sobre cinema torceram o nariz para o mais recente filme do premiado roteirista e diretor iraniano Asghar Farhadi, de 46 anos, que estreou nos cinemas, no verão passado. Todos já sabem, rodado num lugarejo da Catalunha, falado em idioma espanhol e produzido por Pedro Almodóvar, abriu o Festival de Cannes de 2018. Detentor de prêmios poderosos – duas vezes Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, um Urso de Ouro, de Berlim, o Cesar francês e o David Donatello, da Itália -, guardados na bagagem, o seu trabalho de agora foi recebido como um filme menor do diretor.

Injusto. Todos lo saben, com seu elenco estelar (Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín) está disponível no catálogo da Netflix. Vem se reunir aos outros trabalhos de Farhadi, artista de reconhecimento internacional, todos excelentes e todos sobre a questão do desaparecimento.

Um deles, produzido na França, intitulado O passado; e os anteriores: A separação, O apartamento e À procura de Elly, com tramas bem amarradas, transcorrem no seu país de origem.

‘’Como os anteriores, é um estudo de personagens, ‘’ disse Fahradi no ano passado, em Cannes. ‘’ Gosto de olhar gente, de constatar como as pessoas possuem segredos e podem surpreender. Temas como desaparecimento, o passado, as relações mal resolvidas estão no centro de tudo o que faço.”



Farhadi vem da Universidade de Teerã onde estudou Teatro. Escreveu para o Cahiers de Cinéma e é autor de um livro sobre roteiros – Seven screenplays. Trata-se de um intelectual.

E se é um diretor seguro, com domínio virtuose da câmera, dos atores e sobretudo da montagem, é um roteirista ainda melhor. O ritmo da sucessão de sequências do prólogo de Todos já sabem é um mural fascinante. Sem pestanejar e com irrecusável volúpia, o espectador participa dos preparativos para a festa de casamento do filme, na praça da aldeia, e, em seguida, mergulha na festança que se prolonga noite adentro, com os seus moradores. Só falta dançar na poltrona; ou no sofá.

O iraniano dispõe na tela, como num tabuleiro de xadrez, a sua extensa galeria de personagens, com os respectivos perfis, os quais serão manejados com desenvoltura.

Este é o início do thriller (?) engenhoso que apenas perde um pouco do brilho nos momentos que antecedem diretamente o belo final em aberto. Então, com inteligência, Fahradi entrega o seu enredo no colo do espectador. O final, quem o faz é você.

Em Todos já sabem a narrativa é esta: quando sua irmã se casa, Laura (Penélope Cruz) vem da Argentina, onde vive, e retorna à sua cidadezinha, uma aldeia catalã, para acompanhar a cerimônia em companhia da filha adolescente e do filho pequeno. Por motivos de trabalho, o marido de Buenos Aires (Ricardo Darín) não pode acompanhá-la.

Chegando lá, Laura reencontra a extensa e ruidosa família, o pai fazendeiro, patriarcal e autoritário, a mãe discreta, os amigos e o ex-namorado da adolescência, Paco (Javier Bardem), filho de um peão, ex-empregado da família e a quem ela não via há tempos.

Durante a festa de casamento, um evento violento ocorre – um desaparecimento; um aparente sequestro - e a família começa a se questionar se porventura o culpado pelo acontecimento criminoso não é um do grupo familiar ou amigos.



Na busca por solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado – e sobre o presente envergonhado – de muitos dos grupos. A brigalhada explode em família e Paco, numa discussão, sintomaticamente é xingado pelo patriarca casa-grande. “O que você está fazendo nesta casa? Você, filho de peão?’’

Mas o mais interessante e oportuno dizer, é que Todos já sabem – ou todos já sabiam – narra, com uma finura que pode passar despercebida, um daqueles momentos da existência nos quais, como Millor Fernandes dizia, ‘’as coisas se precipitam.’’

A nudez do rei é revelada. O segredo de Polichinelo, a fofoca, os murmúrios e as especulações vêem a luz. É quando as provas – ah, as provas... - são apresentadas.

O whodunit da narrativa do filme (assim como ocorre neste momento, na nossa realidade) passa a não ter tanta importância. O filme genuinamente de suspense é que é aferido em seu sucesso pelo que o desenrolar consegue sustentar. No fim dele, o mistério está destrinchado.

Ora, aqui, esse mistério não importa tanto assim porque afinal ele não era – ele não é – um mistério. Pois se ‘’todos’’ - ou quase todos - já sabiam do que vinha ocorrendo; ou tinha ocorrido. Os bem informados, os de boa fé, os criteriosos, os críticos. Os que não abraçavam teorias de conspirações nem engrossavam a manada do bloco do pensamento único.

Sugerimos assistir – ou rever com um olhar atualizado - Todos losaben. Atualmente, passados quatro meses de sua estréia nos cinemas, agora com-provas irrefutáveis.

Asghar Fahradi põe em dúvida: a família (ou o país?) nunca mais será a mesma – ou não.

Esmaece a imagem, num inesperado fade out, com a matriarca que começará a falar. Na outra ponta, a força da juventude vem na pergunta da filha adolescente feita ao pai, para a qual ele não tem resposta.



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