Cinema

Três filmes, três homens

Rápidos comentários sobre o drama trabalhista 'Em Guerra', o documentário pessoal 'Meu Nome é Daniel' e o ''tango triste'' 'Greta'

18/10/2019 12:06

''Em Guerra'' (Divulgação)

Créditos da foto: ''Em Guerra'' (Divulgação)

 
Força e fraqueza operárias
 
Alguns filmes me arrebatam pela maneira como me arrastam para dentro dos "acontecimentos" por meio da encenação. Por falta de melhor termo, a gente tende a compará-los com documentários. Ultimamente fui arrebatado dessa forma pelo inglês Eu, Daniel Blake, pelo francês 120 Batimentos por Minuto e pelo português A Fábrica de Nada. Algo semelhante volta a ocorrer com Em Guerra, que, aliás, guarda alguns pontos em comum com o último citado.
 
Como no filme lusitano, estamos em meio a operários de uma fábrica em vias de fechar e demitir todo mundo em troca de indenização. Mas, enquanto os trabalhadores portugueses resistem e assumem o controle numa experiência de autogestão, os franceses tentam preservar seus empregos numa escalada de pressões e enfrentamentos com as forças patronais e estatais. É um contexto em que direitos trabalhistas são pisoteados para dar lugar aos conceitos de competitividade e rentabilidade industriais.
 
O diretor Stéphane Brizé (dos igualmente admiráveis Mademoiselle Chambon e O Valor de um Homem) volta a acionar seu ator predileto, Vincent Lindon, no papel de Laurent, um líder esquentado e perseverante na luta dos 1.100 empregados contra o fechamento da fábrica Perrin pela sua incorporadora alemã. O elenco, parcialmente amador, vive discussões intensas e refregas corporais com veracidade e fluência excepcionais. A câmera de Eric Dumont amplia a sensação de realidade tendo quase sempre corpos obliterando parte da imagem no primeiro plano – recurso, aliás, usado um tanto além da medida.
 
História ficcional inspirada em fatos, Em Guerra antecipou com virulência um estado de coisas que levou a França à controvertida revolta dos coletes amarelos no ano passado. Na trama, as sucessivas traições e manipulações dos patrões provoca não apenas a fúria dos trabalhadores, mas também a divisão entre eles, com o consequente enfraquecimento. Longe de idealizar a classe operária, o filme expõe suas fragilidades e, no desfecho surpreendente, a volatilidade da ideia do herói.
 

 
Além da terapia
 
Cinema e terapia conversam todo o tempo em Meu Nome é Daniel. Na infância de Daniel Gonçalves, a família o filmava em VHS para acompanhar sua evolução na luta contra um distúrbio neurológico não identificado. Daniel tinha um sério descompasso motor, movimentos involuntários e dificuldade extrema para andar e cumprir as rotinas mais comuns. Depois de cruzar a faixa dos 30 anos e atingir uma quase completa idependência, já iniciado na prática cinematográfica, ele decidiu fazer um documentário sobre a retomada da busca do seu diagnóstico.


 
Dirigido, corroteirizado e narrado em primeira pessoa por Daniel, o longa oscila entre as filmagens do passado e as do presente. A simples alternância já dá uma ideia do processo, se não de cura, de minoração da deficiência mediante pequenas vitórias ao longo do tempo. O próprio filme é uma façanha, coadjuvada por Roberto Berliner (TV Zero), que já foi parceiro de cegas (A Pessoa é para o que Nasce), cadeirante (Herbert de Perto) e anões (Pindorama: A Verdadeira História dos Sete Anões).
 
De maneira muito natural e desencanada, Daniel analisa as imagens de sua infância, relembra seus dilemas no convívio com a família e os colegas, sua hesitante iniciação amorosa, a paixão pelo alpinismo e sua introdução no cinema através do trabalho de edição. Não faltam humor, lucidez e simpatia nesse autorretrato. Com a vantagem de não fazer do filme mais uma ode à superação.
Daniel reservou para os últimos minutos um grande salto na tomada de consciência da sua identidade. Pena que sua transformação em performer ficou apenas rascunhada, dando a impressão de ser apenas uma excentricidade momentânea.
 

 
 
Greta não ri
 
Greta Garbo, quem diria, é quem mais sorri em Greta. O raríssimo sorriso vem perto do fim do filme, numa imagem de teste da atriz em Hollywood. Afora isso, o longa de estreia de Armando Praça se fecha numa atmosfera depressiva, um tango triste e claustrofóbico tocado em meio a notícias de uma Fortaleza mergulhada em violência. Até as ousadas cenas de sexo são lúgubres, como se servissem apenas para tirar um peso das costas de quem transa.
 
Livremente inspirado na veneranda peça Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá, o longa gira em torno de Pedro (Marco Nanini), enfermeiro homossexual idoso que vacila entre a busca de companhia e o desejo de ficar só. "I want to be alone" é seu bordão, como no célebre desabafo da Garbo. Ao mesmo tempo, tenta cuidar de uma amiga de longa data, a transexual Daniela (Denise Weinberg), acometida de doença fatal.


 
O hospital é um misto de mundo cão e antro de libidinagem, onde médicos e pacientes fazem o que querem com os corpos uns dos outros. Quando Pedro liberta um preso ferido e o leva para casa, um novo capítulo se inicia em sua vida.

Tudo se escora na atuação de Nanini, premiada no Cine Ceará, onde Greta ganhou também como melhor filme. O ator impõe o peso de sua presença e mantém o personagem contido em limites estreitos, sem jamais ceder ao espetacular. Sua Greta Garbo fetichizada é um poço de carência precariamente dissimulada.
 
Mas há outros destaques, como a performance de Denise Weinberg (apesar de sua escalação ter sido questionada para o papel de uma trans) e a fotografia de Ivo Lopes Araújo, sempre cheia de detalhes surpreendentes de luz e texturas. Visual e climaticamente, repete-se o tom cearense-fassbinderiano já presente em Inferninho
 
Por outro lado, tive dificuldades em assimilar o ritmo estendido demais da montagem de Karen Harley, as pausas alongadas nos diálogos e as várias incongruências na relação – física e emocional – entre Pedro e Jean (Démick Lopes), o assassino amante. Tal como seu personagem, Greta oscila entre o atrevimento da exposição corporal e a prostração de um punhado de almas sem rumo.   
 


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