Cinema

Três grandes filmes para ver em casa

Crianças de guerra em 'Beasts of No Nation', a história do planeta em 'Terra' e um joalheiro em apuros em 'Joias Brutas' fazem bons programas na Netflix para época de quarentena

16/03/2020 15:02

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Infância brutalizada

Esse é para quem tem nervos fortes. As atrocidades que o menino Agu tem que presenciar, aprender e executar como soldado num grupo rebelde africano são uma dura prova para quem assiste a Beasts of No Nation. O filme se baseia no romance homônimo do nigeriano-americano Uzodinma Iweala e herda seu título de um álbum de Fela Kuti. Rodado em Gana, com direção e fotografia do americano Cary Joji Fukunaga, é um tour de force excepcional de produção e realização.

Num país africano não identificado, o pequeno Agu (Abraham Attah, numa atuação não menos que impressionante) vive numa área de proteção enquanto o conflito entre exército e rebeldes se alastra pelo país. O quadro dessa vida em família é pintado com grande simpatia, apesar dos perigos circundantes. Subitamente, a era de inocência de Agu é rompida com a queda do governo, o embargo da ONU e a dispersão das pessoas de sua aldeia. Ele é brutalmente separado dos pais, assiste à execução de vários parentes e consegue fugir sozinho para a selva, ainda vestido com uma camiseta que ironicamente aconselha "Stay cool". Ali é capturado por uma tropa de "freedom fighters" e transformado em criança-soldado.

Se no início do filme, Agu se descreve como "um bom menino, de uma boa família", em breve estará se definindo como "um bom seguidor".



À medida que avançam em combates caóticos e execuções bárbaras, Agu vai passando por um aprendizado de embrutecimento, ainda que preservando sua consciência infantil. É um processo extremamente dramático, pontuado pelo seu relacionamento abusivo com o comandante despótico (Idris Elba) e com um menino enigmaticamente calado. É uma pena que a narração subjetiva de Agu, que tão bem o situa no primeiro ato, se perca um pouco do segundo em diante. Ainda assim, o elo entre nós e o personagem jamais se perde.

O retrato das forças em luta fornecido pelo filme é desumano, à exceção do contingente da ONU. Se o exército local mata indiscriminadamente guerrilheiros e civis, a chamada frente de libertação age com igual desmedida, numa mescla de violência e misticismo tribais, demagogia ideológica e trip alucinógena à base de cocaína injetada no sangue.

Pesquisei e não encontrei nenhuma contestação a essa forma de representar a situação em conflitos africanos. Já o recrutamento de menores de 18 anos para a guerra é questão não somente da África, mas também da Tailândia, Colômbia, Índia e Mianmar. Calcula-se em 250.000 o número de crianças em condição semelhante no mundo. Beasts of No Nation a exemplifica em detalhes lancinantes.



Um caso de vida e morte

O documentário Terra, do especialista Yann Arthus-Bertrand, pretende criar uma narrativa consumível e engajada sobre a história do planeta Terra. Para isso, sai em busca de sinais remanescentes das várias espécies que nos antecederam. Dos líquens e fungos encontrados no platô do Monte Roraima a um campo de desmonte de velhos navios em Bangladesh, Terra narra a evolução das espécies e o progressivo afastamento entre o Homem e a Natureza.

Iguanas marinhas dos Galápagos, beija-flores da Amazônia e plantas carnívoras, entre muitos outros, são personagens de uma história fascinante de mutações, colaboração, sedução e devoração entre diferentes formas de seres vivos. Até que chega o Homem e estabelece outro padrão de comportamento. Aos poucos, a agricultura e a pecuária transformam a relação entre homens e animais de mítica a econômica. A Natureza vira produto e os animais selvagens, refugiados num mundo dominado pela funcionalidade e a servidão. Ora o homem salva, ora massacra.


Terra
A narração, a cargo da atriz Vanessa Paradis, tem a marca da militância ambientalista de Arthus-Bertrand, aqui dirigindo mais uma vez em parceria com o documentarista-aventureiro Michael Pitiot. Mas o que se impõe, juntamente com o discurso verbal, é a eloquência estonteante das imagens. Não apenas as tomadas aéreas, especialidade dos diretores, mas as chocantes cenas de abate sacrificial de búfalos no Nepal, a filmagem de helicópteros tangendo rebanhos na Austrália e de um hipopótamo içado nos ares, ou a apocalíptica paisagem banhada em carbono e enxofre de Norilsk, na Sibéria.

Beleza e denúncia se combinam de maneira harmônica, embaladas por uma faixa sonora extremamente trabalhada de música e ruídos. Ao mesmo tempo que nos faz arregalar os olhos para as espantosas imagens do planeta, TERRA nos indaga até quando fecharemos os olhos para a nossa inexorável autodestruição.


Joalheria em vertigem

A passagem da primeira para a segunda sequência de Joias Brutas (Uncut Gems) já diz um bocado sobre seu pique vertiginoso: de uma mina de pedras preciosas na Etiópia somos jogados para o interior do cólon do joalheiro Howard Ratner durante um exame em Nova York. A colonoscopia é somente um grão de areia nas agruras que ele vai passar nos próximos dias, enquanto tenta levar uma pedra bruta de opala a um leilão para saldar uma dívida com o cunhado mafioso e livrar a pele.

Adam Sandler, o notório comediante, confirma ser ótimo ator dramático, como já havia demonstrado em Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson. O Oscar, no entanto, o esnobou pelo papel desse perdedor nato, propenso a entrar em todas as confusões possíveis, confiando que um milagre o salvará no último minuto. Viciado em apostas, Howard negocia a opala com o astro do basquete Kevin Garnett (fazendo uma versão ficcional dele mesmo) e vive momentos de estresse máximo em várias frentes. Uma delas é com a sua funcionária e amante Julia (estreia da sensual Julia Fox, ex-estilista, ex-modelo Playboy e ex-dominatrix).



O nome de Martin Scorsese na produção executiva parece transbordar para o estilo dos irmãos Benny e Josh Safdie, que dirigem o filme e o escreveram junto com Robert Bernstein. A dialogação intensa e ríspida, com mais "fucking" do que qualquer outra palavra, e a montagem nervosa das ações sugerem um Scorsese ligado em voltagem extrema. O espectador é arrastado pela celeridade do ritmo visual e oral para acompanhar Howard em sua insana jornada multitarefa. A direção é brilhante, assim como quase tudo nesse filme arrebatador. Para mim, foi uma revelação depois do indigesto Bom Comportamento.

E de que fala, no fundo, Joias Brutas? Fala do sistema de pensamento capitalista, que explora os produtores de commodities, visa as "jogadas" para o lucro fácil e se organiza em pequenos grupos de poder, ganância e violência. Howard é o típico gambler, o cara que acredita na sorte e na capacidade de dar a volta no destino. Descendente de judeus russos, Adam Sandler fica à vontade para satirizar a comunidade judaica, tradicional comerciante de joias. O almoço de Pesach em família é uma das cenas mais hilariantes e provocativas.







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