Cinema

Três homens à deriva

Os filmes 'Arábia', 'Uma Temporada na França' e 'Tropykaos' trazem personagens em conflito com os espaços onde vivem e incapazes de formular uma saída política ou existencial para suas vidas.

05/04/2018 13:44

 

 
A mais importante estreia cinematográfica da semana é o documentário Em Nome da América, resgate do paradoxo e das ambiguidades que cercavam a atuação dos Voluntários da Paz americanos no Nordeste brasileiro dos anos 1960. O filme de Fernando Weller está bem coberto aqui na Carta Maior pelo artigo de Léa Maria Aarão Reis e pela entrevista do diretor a Tatiana Carlotti.

Ocupo-me portanto de três outros lançamentos que trazem personagens em conflito com os espaços onde vivem e incapazes de formular uma saída política ou existencial para suas vidas. 

O trabalhador, um cavalo velho

Arábia
, vencedor do último Festival de Brasília, mostra o périplo do operário Cristiano por diversas ocupações e encontros em cidades mineiras. Não sei se intuitiva ou intencionalmente, algumas cenas do filme o inserem numa certa tradição do cinema operário neorrealista brasileiro. O garoto correndo de bicicleta na abertura evoca o Gianfrancesco Guarnieri de O Grande Momento, enquanto as conversas no alojamento dos operários lembram uma célebre sequência de O Homem que Virou Suco, de João Batista de Andrade. Arábia pode ser visto como a repercussão desse projeto de cinema no século XXI.



A maior alteração, a meu ver, é o distanciamento assumido pela narrativa. O percurso de Cristiano é narrado através de um diário lido a posteriori, enquanto ele está internado depois de um acidente de trabalho. A opção pelo relato em off afasta qualquer sentido de urgência, substituído por uma pátina de rememoração literária. O fato de o diário estar sendo lido por um personagem mais ou menos alheio à história, e que assim permanecerá até o fim, acrescenta mais um grau de separação entre realidade e enunciação. De certa maneira, o filme assim se resfria e se intelectualiza.

Vemos Cristiano passar pela prisão e mudar de emprego para emprego, de cidade para cidade. Ora ele está jogando conversa fora sobre assuntos prosaicos da vida operária, como a falta de conforto no dormir ou a preferência por tipos diferentes de carga; ora está ensaiando um romance com funcionária da tecelagem. São momentos em que o filme atinge uma verdade cênica mais palpável. Mas tudo na vida de Cristiano termina num "quase" melancólico, numa promessa de paraíso nunca cumprida.

O trabalhador não é visto aqui como um ser de classe, a exemplo do que era para o Cinema Novo e seus herdeiros. Ele é um indivíduo à deriva, descrente do sindicato e de toda e qualquer estrutura. Nem mesmo o acidente de trabalho com Cristiano recebe maior atenção ou explicação. Há uma sombra de niilismo nesse retrato da classe operária pós-PT. Uma certa piada que origina o título do filme sinaliza também a metáfora principal sobre o operário diante de uma vida inteira de suor e esforço. O sonho do trabalhador, de se sentir algo mais que um cavalo velho, continua adiado.

O imigrante, um homem à espera

O título de Uma Temporada na França evoca inevitavelmente o clássico livro de poemas Uma Temporada no Inferno de Arthur Rimbaud. O filme conta a história de dois irmãos refugiados da paupérrima e conflagrada República Centro-Africana. Eles fogem de um inferno para outro. Paris é a terra da impiedade burocrática e dos atentados contra imigrantes. Na África, eles eram professores de Francês e de Filosofia. Na França, são carregador de mercado e segurança de loja.



Apesar da tragicidade que atinge Etienne, é na sina do seu irmão Abbas que o filme se concentra. Ele cuida dos dois filhos, cuja mãe morreu na fuga. Tem dificuldade em superar a viuvez para assimilar o namoro com uma florista (Sandrine Bonnaire), ela também descendente de imigrantes. Espera a concessão de um asilo para escapar à deportação.

O diretor Mahamat-Saleh Haroun, nascido no Chade e emigrado para a França em 1982, é um dos mais respeitados cineastas africanos. Um Homem que Grita, Grisgris e Bye Bye Africa são títulos cintilantes em sua filmografia. Nesse novo filme, ele adota um estilo mais seco e naturalista que a média dos seus trabalhos, deixando entrever os genes africanos somente nas cenas em que Abbas se comunica com o fantasma da mulher. De resto, poderia ser um drama aparentado a Eu Sou Daniel Blake, de Ken Loach.

As longas conversas em família nos conectam com as emoções em jogo e provocam uma razoável empatia pelos personagens, apesar do baixo índice de originalidade do argumento.

O poeta, uma vítima do calor

Saltando dos dramas sociais para a fantasia existencialista, chegamos ao baiano TROPYKAOS, de Daniel Lisboa, história de um jovem poeta atormentado pela onda de calor que torra a capital baiana num fevereiro qualquer. Consequências: aumento da criminalidade e da demanda por refrigeração. Mesmo assim, se isso é motivo de praia, festa e alegria para o baiano típico, para Guilherme é fonte e metáfora de todos os males, da crise criativa à cobrança dos amigos e à falta de dinheiro para consertar o ar condicionado. O calorão vem de dentro e de fora, estoura em febre e feridas no seu corpo, abre buracos na sua mente. Até as estátuas suam, e os seres vivos podem entrar em combustão espontânea nessa Salvador sem salvação.



O mal-estar de Guilherme é ricamente expresso na profusão de luzes cegantes, closes e sonoridades opressivas. O ator Gabriel Pardal é um bom trunfo, assim como a presença de Dellani Lima no papel do amigo junkie e de Edgar Navarro em três personagens, um deles que parece saído de um filme do "mago" Alejandro Jodorowski. Daniel Lisboa dialoga com a tradição mais criativa do cinema da Bahia, ao mesmo tempo que apresenta uma proposição nova de leitura do espírito da capital. Se algumas sequências caem na tagarelice baiana, outras se impregnam na memória, como a noite dormida na cabine de banco 24 horas, a entrevista do poeta na rádio e todo o desfecho que literalmente incendeia a apoteose do poeta. TROPYKAOS arde bonito na tela.



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