Cinema

Um Papa: Francisco

'Dois Papas', grande sucesso cinematográfico do fim do ano e candidato ao Globo de Ouro é também tema de polêmicas

02/01/2020 16:34

 

 
Há mais de ano Carta Maior vasculha o catálogo da Netflix, encontra e publica resenhas apontando filmes interessantes, em geral independentes e de fundo político que não são mostrados nos cinemas ou tiveram uma carreira instantânea nas telonas. Com o feriado prolongado de fim de ano e o boom cinematográfico de Dois Papas, que estreou nas salas de cinema e quase ao mesmo tempo entrou no catálogo de Natal do streaming, analistas políticos, jornalistas em geral, críticos profissionais e cinéfilos se manifestam sobre o filme de Fernando Meirelles, abrem uma boa polêmica a propósito de detalhes importantes do roteiro e descobrem belas produções - como o grupo de filmes candidatos a Melhor Filme Estrangeiro do Oscar deste ano - no acervo ativo da plataforma.

Segundo comentou Martin Scorsese há poucos dias, no influente The Hollywood Reporter, estamos no limiar de um processo de ''revolução'' com a produção e a forma de exibir filmes no streaming.

Dois Papas*
, um ótimo exemplo.

O filme foi concebido para ser um perfil do Papa Francisco. Mas como o livro do autor do roteiro, o neo-zelandês Anthony McCarten, é intitulado O Papa, decidiu-se que Bento XVI deveria ser incluído no conteúdo como protagonista - mais que coadjuvante - para funcionar como espécie de contrapeso dramático à figura de Bergoglio. Proporcionou então um dinamismo à narrativa e resultou em outro filme.

Assim, os cinéfilos acorrem a ver o filme pela sua excelente qualidade cinematográfica que transforma uma longa conversa, uma dura discussão ideológico/religiosa entre duas pessoas com idéias simetricamente opostas, num filme sedutor, ágil, leve, com pontuações divertidas, um filme afetuoso, de montagem exemplar e comentado com uma excepcional trilha musical de Bryce Dessner mais do que inusitada, onde até algumas notas do histórico jazz de Jack Teagarden (!) estão presentes. Sem falar dos Beatles, de Mercedes Sosa e do Abba convivendo com Bella Ciao e Clair de Lune.

Os de fé católica compram em massa o ingresso para assistir na tela grande ou ver em casa a encenação dramática da atuação do atual líder da Igreja, o Papa Francisco, aquele que vem reformando estruturas viciadas do Vaticano, lutando contra a corrupção interna e contra a desigualdade crescente no mundo; e adversário encarniçado e corajoso dos sacerdotes pedófilos principais responsáveis pela desvitalização atual da fé católica e sua teologia.

Todos aplaudem as performances poderosas de dois gigantes da dramaturgia britânica: o ator Anthony Hopkins, na pele do Papa alemão Joseph Ratzinger ou Bento XVI na sua última fase como Bispo de Roma antes de renunciar ao papado, e de Jonathan Pryce encarnando de modo magistral, sobretudo com a expressão do olhar e o meio-sorriso permanente do ex-cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio.

Voltando à polêmica causada pelo tema da delicada conversa abordada, e que se torna ainda mais difícil com a inclusão de Joseph Ratzinger na história: critica-se o silêncio do filme, mesmo que com algumas sequências pinceladas sobre o escândalo do vatileaks, documentos vazados pelo mordomo do Papa, Paolo Gabriele. Silêncio sobre o passado notório do Papa alemão que encobriu casos de abusos sexuais de sacerdotes pedófilos; muitos nos Estados Unidos.

Sobre sua adesão à Juventude Nazista quando rapaz. Sobre sua ação
que sufocou a pregação da Teologia da Libertação e censurou e puniu Leonardo Boff e seu irmão na luta deles contra a acomodação da cúpula da Igreja em meados dos anos 80 - e o mesmo com o teólogo peruano Gustavo Gutierrez que os inspirou.

Por outro lado, lá estão as sequências reencenadas em preto branco com a atuação do Papa Francisco na Buenos Aires no tempo da feroz ditadura militar argentina. Os encontros com a figura que, se insinua claramente, é a do famigerado Almirante Massera. A imagem do seu lugar tenente, o assassino de codinome o anjo da morte que drogava mulheres e homens e os jogavam, de mãos atadas, de helicópteros, no mar alto.

Encontros que tinham por objetivo pedir mercê aos colegas jesuítas em perigo e aos quais, mostra o filme, ele teria exposto, por ingenuidade, e ''motivos técnicos'' à sanha dos militares.

Meirelles afirmou, em entrevista, que os diálogos do filme, ainda que se tratem de ficção, estão baseados na realidade. E que não se estendeu sobre o passado de Bento XVI porque o filme se desviaria de seu propósito e se transformaria numa espécie de ''tratado'' sobre a Igreja.

E o que é ficção e realidade em Dois Papas, "inspirado em fatos reais"? A BBC Mundo decifrou algumas partes do filme.

Não há registro da ida de Bergoglio à Itália para encontrar Bento XVI em Castel Guandolfo. Os dois se encontraram no local quando ambos já eram pontífices. Também não teria havido conversas entre ambos sobre crise da fé, e sobre escutar a voz de Deus. Ou o piquenique com pizza e refrigerante, na Capela das Lágrimas admiravelmente reencenada, ainda que se saiba que, na realidade, o papa emérito é fanático por Fanta.

Ou a formidável sequência dos dois Papas assistindo ao jogo final da Copa do Mundo de futebol entre os times da Argentina e da Alemanha. Ficção, como outras - afinal, são os nossos sonhos - desejadas e bem-vindas porque são modelos de conciliação e aceitação do Outro.

Porém, pena que Ratzinger tenha passado por um processo de humanização tão profundo e seja tratado por Anthony Hopkins como um velhinho simpático.

Pena também que alguns dos mais recentes manifestos de Francisco não tenham chegado a tempo para - talvez - serem inseridos no filme. Como a sua fala, '' a globalização da indiferença '' sobre as desigualdades no mundo: '' Se ninguém se sente responsável, e quando ninguém é culpado todos são culpados.''

Mas está lá a voz do papa argentino no filme de Meirelles: ''Os bancos devoram tudo... e tantos morrem de fome...''

Já a Encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da Casa Comum, de 2015, dirigida a toda a humanidade, recebeu grande rejeição dos grupos radicais de direita que se apresentam como piedosos.

Esses grupos - de direita e sobretudo os extremistas de extrema direita - devem também ser ''humanizados''?

Que a polêmica sobre Dois Papas prossiga.



*Em cartaz nos cinemas e disponível na Netflix





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