Cinema

Um confeiteiro e um policial

'O Confeiteiro' e 'Culpa', em cartaz no Brasil, foram os indicados respectivamente por Israel e pela Dinamarca para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro.

28/12/2018 15:31

 

 

O confeiteiro, o fogão, o amante e sua mulher

Assim como, na cozinha de uma confeitaria, é preciso aguardar a massa assar no ponto certo e receber as coberturas atraentes, o espectador de O Confeiteiro deve ter um pouco de paciência até que os ingredientes se misturem adequadamente e o bolo ganhe aquele douradinho irresistível. A receita, podem crer, é confiável.

Esse filme foi o candidato israelense a uma vaga na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro. Não entrou na shortlist, e nem teria cacife para tanto. Mas não deixa de ser uma obra interessante. Coloca em cena dois inimigos históricos, alemães e israelenses, vivendo uma história relativamente ousada de transferência afetiva.



O ponto de partida, enquanto a massa está crua, tem lá seus problemas de roteiro. O israelense Oren (Roy Miller), que trabalha intermitentemente numa empresa de Berlim, inicia um romance com Thomas (Tim Kalkhof), jovem confeiteiro alemão. Oren mantém uma família convencional em Jerusalém, onde, como ele diz, "família é importante". Quando uma tragédia interrompe essa relação, Thomas decide viajar a Israel para conhecer, incógnito, a mulher e o filho de Oren.

Até esse ponto, parece haver mais glacê do que massa. A estrutura elíptica não forneceu material suficiente para aquilatarmos o tamanho daquela paixão. Isso faz falta para compreendermos a fixação do confeiteiro, até porque a pouca expressividade do ator o deixa um pouco aquém do que o personagem poderia transmitir. Algumas coincidências folhetinescas também perturbam a plausibilidade, como um encontro aparentemente casual num mercado e o paralelo entre o café de Thomas em Berlim e o da viúva em Jerusalém. Digamos que assim o diretor-roteirista Ofir Raul Graizer "facilitou" as coisas em demasia para si mesmo.

Mas eis que essa nova aproximação vai criar áreas de ambiguidade, confiança e desconfiança que acabam por nos envolver de maneira crescente. As diferenças de nacionalidades, gastronomias e orientações sexuais, assim como a própria noção de traição, são colocadas em teste à medida que Thomas e Anat (Sarah Adler) aprofundam sua amizade e a ortodoxia judaica se interpõe. 

 

O fetiche tem um papel determinante no projeto silencioso do confeiteiro. Uma das grandes expectativas da história é saber até que ponto – e de que maneira – ele pretende levar esse desejo de fruir da intimidade do amante perdido. O fetiche é uma forma de substituição, mas também pode ser uma vontade de encarnar o próprio substituto para terceiros.

Ainda uma qualidade desse filme modesto e, no fim das contas, intrigante e comovente: toda a dramaturgia passa pela cozinha, os produtos de confeitaria, as listas de compras, as interdições da comida kosher, etc. Ok, isso tudo pode ser um clichê do gênero "filme de culinária", mas devemos admitir que o resultado funciona e agrada. O cineasta Ofir trabalhou com gastronomia e tem um livro de receitas publicado na Alemanha. Passou bem do fogão para a câmera.   



Pelo telefone

Em meio aos telefonemas de rotina que atende na emergência de uma delegacia em Copenhagen, ouvindo vozes de bêbados e drogados, Asger (Jakob Cedergren) recebe pedido de socorro de uma mulher que está sendo sequestrada. O policial precisa agir com inteligência e sensibilidade para tentar salvá-la e proteger seus filhos pequenos, que estão sozinhos em casa. Tudo pelo telefone. Mas, a partir de um dado momento, as coisas mudam radicalmente de figura.

Asger tem um problema de consciência a respeito de um fato pelo qual será julgado no dia seguinte. Cumprir bem essa missão torna-se uma questão de honra pessoal. Daí a razão do título Culpa (no original, O Culpado). Isso é tudo o que sabemos desse homem opaco e irritadiço. Dos outros personagens, só ouvimos as vozes pelo telefone.



Estamos presos com Asger na sala da delegacia, impotentes como ele para agir diretamente. As angústias e as revelações nos chegam em conversas entrecortadas por ruídos de rua e do interior de carros. Culpa vem sendo generosamente elogiado pelo trabalho de som, coisa que a mim não impressionou de maneira especial.

Na verdade, nada me impactou nesse exemplo correto e sóbrio de um cinema de câmara, em que todo o espaço da ação só pode ser imaginado, nunca visto. O rumo razoavelmente surpreendente que toma a história, com sua mensagem moral, não chega para alçá-la além de uma tragédia sem contexto. A meu ver, o filme de estreia de Gustav Möller não justifica a admiração que vem recebendo, nem muito menos uma possível indicação ao Oscar de filme estrangeiro.



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