Cinema

Um fantasma no porão da casa dos ricos

Palma de Ouro em Cannes, o filme 'Parasita' é forte crítica à crescente desigualdade de classes, mescla comédia com humor negro à maneira oriental e aponta a assombração que espreita as chamadas elites no porão da sua casa

18/11/2019 14:12

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Há dois anos Okja, do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, de 50 anos, escandalizou o Festival de Cinema de Cannes e alvoroçou a crítica europeia não por causa do seu conteúdo – uma alegoria do mundo capitalista no qual uma garota combate a gananciosa corporação que se apropria do seu animal de estimação, o porco gigante Okja, para com ele produzir lucros ainda maiores -, mas porque a campeã de streaming Netflix (100 milhões de assinantes no mundo), produtora do filme, avisou que ele estava destinado exclusivamente a essa plataforma e não seria exibido nas telonas.

Filme curioso, porém superestimado pela crítica, Okja concorreu à Palma de Ouro e ainda hoje é um dos filmes mais acessados da Netflix. Na época, em meio à ruidosa polêmica criada pelos puristas da arte cinematográfica sobre a legitimidade da exibição de filmes apenas em salas de cinema, ele acabou apresentado em meia dúzia de telas francesas (sessões gratuitas) e de grandes cidades americanas.

A partir deste episódio, o Festival de Cannes determinou que todos os filmes em disputa pela Palma de Ouro devem, obrigatoriamente, ter exibição garantida nos cinemas. É justo.

Um ano depois, Parasita, o filme de Joon-ho que veio em seguida a Okja, ganhou a Palma de Cannes, em maio passado, e reforça, junto a muitos da crítica européia, a convicção de que o cineasta é um dos cinco melhores em atividade. Conviver nessa lista com Scorsese e com Ken Loach não é pouco.

O coreano também é autor do excelente O Hospedeiro e do dilacerante Mother – A Busca pela Verdade. Ele vem a ser um dos líderes da excepcional safra cinematográfica exibida no Brasil, este ano, com produções brasileiras de alta qualidade – Bacurau, A vida invisível de Eurídice Gusmão, Azougue Nazaré, documentários políticos exemplares, - alguns latinos americanos sofisticados e surpresas admiráveis como Coringa. Além de um novo Woody Allen e, sobretudo, o filme-testamento (ou filme-síntese) de Martin Scorsese, O irlandês.

O resumo do argumento de Parasite na visão pessoal de Joon Ho é este, abaixo, quando ele define os dois núcleos do seu filme, um misto de comédia, humor negro à oriental, de horror em todos os sentidos e, mais que tudo, de forte crítica social.

“Os Kim são uma família de classe pobre que vive num buraco, numa favela de Seul de um bairro miserável, com apenas a perspectiva de sobreviver. O pai falhou nos negócios, a mãe sonhava ser atleta, nunca conseguiu, e os filhos tentaram entrar para a universidade diversas vezes sem sucesso. Todos são desempregados e fazem bicos para se manterem vivos. Em contraste, a família do Senhor Park que trabalha como CEO de uma empresa de tecnologia. Ele tem uma bela esposa, uma linda filha estudante, e um filho pequeno obcecado pela saga dos indígenas americanos. São a família ideal da elite urbana moderna,” ele descreve. ‘’O título é irônico. Há pessoas que acreditam que podem viver com as outras coexistindo com elas, mas isso não funciona; então elas são empurradas para uma relação parasitária. ’’

O confronto entre as classes dos pobres - abaixo deles ainda há que pensar na classe dos miseráveis -, e a dos ricos – pode ser violenta, diz o filme. A crescente desigualdade que ocorre nos quatro cantos do mundo mostra que as populações pobres estão perdendo a paciência com seus carrascos. Como no filme coreano.



O tema da história escrita por Joon Ho e por Jin Won Han, que foi o seu assistente em Okja, tratam do que acontece quando as duas famílias se aproximam. A história insinua que uma classe pode ser vista parasitando a outra e se alimentando mutuamente de modo perverso, mesmo se o cheiro dos pobres incomoda os ricos.

Em Parasite é mais que evidente a influência bem assimilada e a admiração do coreano por dois mestres do cinema clássico japonês - Hou Hsiao-hsien (autor da obra-prima Flowers of Shangay) e Shohei Imamura. O filme é um espetáculo refinado de intrincados símbolos, brilhantes alusões e de alegorias. A menção a insetos (seres humanos assemelhados a baratas), a insistência na descrição dos porões de um submundo que se pretende ignorar, as águas de esgoto que transbordam e inundam vielas da favela de Seul (capital/ colônia americana da Coréia do Sul e templo do ultracapitalismo vigente) são momentos especiais de Parasita.

Assim como a sequência impressionante da família miserável, sob a chuva torrencial e em grande plano, fugindo pelas ruas da cidade e descendo vários níveis (de status), ladeiras e viadutos abaixo levando-a ao seu esgoto/morada.

Com o belo e terrível Parasita – e apesar do anticlímax formal que deixa a desejar, porém com o recado final certeiro de que os hospedeiros mudam de posição de tempos em tempos e, quem sabe, por tempo indefinido – o diretor diz, em uma das suas inúmeras entrevistas deste ano, que quis retratar a contínua polarização e a cada vez mais aguda desigualdade da sociedade.

Estamos vivendo uma época em que o capitalismo é a ordem reinante e não temos alternativa. Isso no mundo inteiro. Na sociedade capitalista de hoje existem castas que são invisíveis aos olhos. E nós tratamos as hierarquias de classe como uma relíquia do passado, mas na realidade elas ainda existem e não podem ser ultrapassadas”, ele observa.

Bong Joon-ho faz cinema culto. É um verdadeiro intelectual. Estudou Sociologia, o pai é designer gráfico e o avô materno, Park Taewon, um autor coreano famoso. Seu irmão é professor de literatura inglesa na Universidade Nacional de Seul e a irmã, designer de moda. Mesmo que possa ser exagerado considerá-lo um dos cinco melhores cineastas em atividade, sem dúvida ele é um dos autores de cinema mais importantes da nossa época.

Pena que seu filme esteja sendo mal exibido no Brasil e apenas, pelo menos até agora, para plateias do topo da hierarquia.



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