Cinema

Um homem em risco e uma família em luto

Dois documentários disponíveis no Netflix apelam a quem quer ficar longe da folia e ver histórias fortes

01/03/2019 17:05

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Por dentro do risco Assange

Em matéria de relacionamento entre documentarista e documentado, Risk é um "case" e tanto. Laura Poitras começou a filmar Julian Assange em 2010, quando o Wikileaks, já aos quatro anos de idade, virava adulto com a publicação de centenas de documentos sigilosos sobre as ações bélicas dos EUA no Iraque e Afeganistão. Era então declarado como ameaça à segurança nacional.

O acesso não foi fácil, mas depois tornou-se amplo e quase total. Laura gravou telefonemas graves de Assange para autoridades americanas e conversas reservadas dele com sua equipe. Registrou de perto toda a sua preparação para buscar asilo na embaixada do Equador em Londres, onde está até hoje, incluindo a participação da mãe na tarefa de disfarçá-lo fisicamente. Captou muito do cotidiano de Assange no asilo diplomático. Acompanhou o apoio do Wikileaks ao soldado que vazou o famoso vídeo do ataque de helicóptero a civis em Bagdá e a Edward Snowden em sua arriscada fuga de Hong Kong para Moscou. Nesse ponto, aliás, RISK se cruza com o oscarizado Citizen Four, que Laura rodou simultaneamente e lhe valeu o qualificativo de "documentarista anti-EUA" colado pelo FBI.

Assistir a Risk é acompanhar a aventura de uma filmagem na clandestinidade com todos os imprevistos imagináveis. Imprevistos não só de natureza política e policial, mas também no que diz respeito à personalidade controvertida de Julian Assange. Na convivência, Laura descobriu, para além do corajoso arauto da liberdade de informação, um homem megalomaníaco ("tenho complexo de Deus"), autoritário, esnobe e muitas vezes cínico. A acusação de assédio sexual contra duas mulheres, motivo do temido pedido de extradição para a Suécia, e principalmente suas reações ao caso, dão margem a revelar um lado bem pouco elogiável do herói dos vazamentos. Numa sequência particularmente desconcertante, Assange se deixa entrevistar por Lady Gaga em tom de pura farra de celebridades.



Àquela altura, o vínculo de confiança entre Laura e Julian começava a se romper. A imagem dele perante ela havia mudado consideravelmente desde o início dos trabalhos. Ela condenava, por exemplo, alguns métodos que não protegiam a identidade de terceiros. Ele, por sua vez, começava a perceber o filme como uma ameaça a sua liberdade. Os atritos iam sendo incorporados ao filme através do "diário de produção" de Laura. Num dado momento, ela se pergunta: "Por que ele confia em mim se não gosta de mim?". Para complicar um pouco mais, Laura admite que teve um affair com um assistente de Assange que viria a ser igualmente acusado de violar mulheres.  

As desavenças que levaram a um rompimento final certamente não estão divulgadas em toda a sua extensão. Risk termina como um libelo que azedou por dentro. Narrado como um thriller de suspense, com música tensa e ritmo inquietante, mergulha o espectador nos bastidores de um dos grandes episódios da História recente. Como convém às novas formas de circulação da informação sigilosa, o filme inclui nos créditos finais os softwares de encriptação utilizados. Tanto Julian Assange quanto Laura Poitras dependem desses segredos para desvelar outros, aqueles que não devem ser guardados.  

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Mataram meu irmão

Strong Island
, um dos indicados ao Oscar de documentário no ano passado, é um filme que levanta questões não somente em relação ao apartheid racial ainda ativo nos EUA, como também em relação a si mesmo.

No centro está a família do diretor Yance Ford. Através de depoimentos diretos dele, da irmã e da mãe, além de alguns amigos, relembra-se a morte do querido irmão mais velho, William, assassinado no interior de uma oficina de automóveis em Long Island, 1992. Em princípio, trata-se de um simples fait divers. Um acidente de carro envolvendo William e um empregado da oficina, um acordo informal para conserto do automóvel e uma sucessão de desentedimentos desembocaram na fatídica noite do crime.

A indignação de Yance e seus familiares, marinada ao longo de 25 anos, dirige-se à impunidade do assassino, um homem branco que, segundo eles, nunca foi tratado como sequer um possível culpado. A inevitável racialização do fato se justifica pelo histórico de discrepâncias jurídicas no tratamento entre negros e brancos. No caso da família Ford, os testemunhos acusam de descaso as autoridades policiais e judiciárias, assim como os jurados (todos brancos) que, numa primeira instância, acataram o argumento de legítima defesa e vetaram a abertura de um processo.

Esse retrato de uma família abalada por uma dor duradoura e inconsolável comoveu os votantes da Academia e é capaz de tocar a qualquer espectador. Para um cinema agora balizado pela correção política, Strong Island oferece uma dupla vantagem: é obra de um negro transgênero. Só bem depois da morte do irmão, Yance Ford assumiu-se como queer e mudou oficialmente de gênero. Ressalte-se ainda que o tópico LGBT é apenas subsidiário num filme centrado, isto sim, num caso de crime e impunidade.  

São dignas de nota as semelhanças com o brasileiro Mataram meu Irmão, de Cristiano Burlan, em que pese a diferença quanto aos graus de estruturação das duas famílias. Ao investigar os ecos da morte do seu irmão Rafael em 2001, numa disputa em torno de veículo roubado, Cristiano Burlan não se furta a expor a dor de sua família, valendo-se de um veículo, o cinema, que talvez o tenha retirado de um destino semelhante. Afinal, seu pai e sua mãe morreram tragicamente, um irmão estava preso em Cuiabá quando da realização do filme e outro já havia passado pela prisão.

Antes de passar aos aspectos mais discutíveis de Strong Island, que envolvem spoilers, quero comentar algumas escolhas formais que incrementam a sua eficácia como meditação sobre a injustiça, o amor fraternal e o pertencimento familiar. Yance Ford evita qualquer dispersão, concentrando seu foco num pequeno grupo de personagens e em fotos de família manipuladas sobre uma mesa. As entrevistas, muito frontais e intensas, convocam o espectador diretamente – como, aliás, o próprio diretor faz questão de frisar em dois momentos. A emoção das pessoas nunca dispensa uma sobriedade altaneira que evidencia a elegância dos Ford. Alguns relatos são ilustrados por vinhetas de reconstituição à moda de Errol Morris em A Tênue Linha da Morte, mas ainda mais sutis.  

A partir daqui, o texto adianta elementos que são apresentados de forma gradual e devem ser lidos por quem já viu o filme.

Embora Yance Ford registre dois telefonemas investigativos seus sobre o tratamento jurídico do caso, Strong Island não é propriamente um documentário de investigação. É antes um desabafo sobre os reflexos emocionais da perda de um jovem de 25 anos e os traumas de um longo silêncio que se seguiu no interior da família.

Ainda assim, o filme sai em busca de uma reconstituição oral do que teria acontecido com o jovem William Ford, caracterizado em dado momento por um amigo como alguém que gostava de “sair pra arrumar confusão”. A partir de certo ponto, Yance começa a trazer fatos que pintam o irmão ora como um herói (ao testemunhar um assalto, ele correu atrás do assaltante e o dominou), ora como um “durão” capaz de reações violentas.

Só na metade do filme Yance revela um fato crucial que guardara em segredo até do resto da família. Ele soube que, um mês antes de sua morte, William fora à oficina com a mãe para retirar o carro e tivera um atrito sério no local, quando cometeu atos de violência material. Em nenhum momento Yance interpela a mãe sobre esse episódio, o que constitui uma lacuna inexplicável porque uma suposta ofensa a ela, na ocasião, teria agravado a rivalidade entre William e seu futuro assassino.

Da mesma forma, nada se pode inferir do que ocorreu de fato um mês depois no interior da oficina, quando William lá esteve para ameaçá-la de fechamento logo que entrasse para a polícia no mês seguinte. Restou a palavra do assassino como única versão.

As dúvidas que ficam sobre a especificidade do caso são fruto, em boa parte, de uma possível manipulação do filme quanto aos saberes envolvidos. Nada que desabone a sinceridade das lágrimas e a justeza dos argumentos dos Ford quanto à perpetuação de uma ordem que desfavorece sistematicamente os negros. Nem o rigor formal e a densidade dramática do filme. Mas a gravidade da questão chama à responsabilidade cada decisão de roteiro e cada omissão de palavra.

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