Cinema

Um novo cinema vem do Magreb

Da Argélia, 'A Natureza do Tempo' e da Tunísia, 'A Amante' - dois filmes de ficção dos jovens diretores árabes que mostram a fascinante realidade atual dos dois países do norte da África

08/06/2018 11:23

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Créditos da foto: Divulgação

 
O amor, a família - e nela o papel despótico dos pais determinando a ruína da vida dos filhos -, o desemprego massivo entre os jovens, a identidade nacional e pessoal danificada e o atual ambiente de um cotidiano em países imersos no marasmo e na quase catatonia que podem prenunciar grandes tempestades após tempos de austeridade econômica (imposta pelo Fundo Monetário Internacional).

Estes são os temas escolhidos por dois cineastas norte - africanos árabes do Magreb, da Argélia e da Tunísia, nos filmes A Natureza do Tempo (En attendant les hirondelles, de 2017) * e A Amante (Heidi, de 2017).** Exibidos agora simultaneamente no Brasil, o primeiro foi apresentado na seleção oficial de Cannes deste ano e o segundo ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim.

Ambos cativantes, eles merecem ser vistos não apenas pelo nível de arte e invenção cinematográfica, em particular como o do argelino Karim Moussaou, um estreante em longa metragem, mas também pelas pinceladas no pano de fundo escolhido para sustentar os temas das histórias relatadas nas duas produções.

Neste ‘’segundo plano‘’ de fundo, é trazida a realidade social e econômica de hoje nos dois países árabes magrebinos que, por enquanto, ainda não foram vítimas diretas da cobiça dos países líderes ocidentais e da brutal intervenção militar dos aliados da Otan em busca do sequestro de fontes de suas riquezas naturais e de óleo – no caso, o petróleo argelino.

O belo cinema de Moussaou é, sobretudo, contemplativo. Imagens que não são mostradas, mas insinuadas nas conversas entre intérpretes de três histórias que se encadeiam e se interpenetram apenas para servirem de pretexto para o início do drama seguinte. As pontas desses recortes de narrativas se mantêm soltas e não há fim – nem no filme e nem no decorrer da vida - porque tudo recomeçará sempre de alguma outra forma e com outros personagens. Sobre o que ocorrerá com o último elo dessa cadeia humana cinematográfica, o espectador não saberá nunca.

As não-imagens desse cineasta estreante aceito em Cannes – fato raríssimo de acontecer - valem tanto ou mais do que o material meramente filmado e as ações claras dos personagens.

Mas a Argélia, hoje, para Massaou, é ao mesmo tempo o grande tema e o pano de fundo enquadrando a vida de um velho e rico empreiteiro casado com uma francesa que detesta o país e pretende voltar para Paris; a de uma moça dividida entre a obrigação familiar de casar com alguém imposto pelo pai e um namorado por quem é apaixonada; e de um médico neurologista de sucesso atormentado pela culpa com a sua provável (não se sabe se justificada ou não) omissão em um caso de estupro coletivo.

Três histórias repletas de símbolos da alma de uma Argélia ainda hiper sensibilizada (o personagem do adolescente que sofre de transtorno no seu desenvolvimento mental) pelos sofrimentos de um passado próximo vivendo hoje no vácuo de turbulenta descolonização, em um ambiente de mal estar social acentuado nos anos 80, ao entrar nos programas de austeridade do FMI. E com a identidade nacional em permanente crise.

Favelização, pobreza, violência urbana, desemprego para os jovens de todas as classes e, mostrado em uma rápida sequência, a obsessão e o trauma evidenciados no apego indiscutível dos mais velhos às suas terras apropriadas brutalmente pelos pieds noirs no passado.

Heidi é do tunisiano Mohamed Ben Attia. Uma co-produção da Tunísia, França e Bélgica. Quando o seu ator principal, Majd Mastoura, ganhou o Urso de Prata em Berlim (um desempenho memorável no papel-título), Ben Attia comentou no seu discurso: “Durante setenta anos só fizemos dois filmes no meu país. No ano passado fizemos vinte. ’’ 

O seu longa-metragem conta a história do jovem Heidi. Cenário: a Tunísia recém-democrática, empobrecida inclusive pela violenta diminuição do turismo, de três anos para cá, uma indústria que foi uma das principais fontes de renda para a economia do país que vive a tensão do terrorismo e, mais recente, se encontra envolvida com a imigração em massa de refugiados sírios e dos países do sub-Sahara.

No roteiro de Attia, Heidi, de 30 anos, de classe média abastada e cuja vida está sendo traçada a ferro e fogo pela mãe super protetora, é apático e acomodado. Trabalha como vendedor de carros em uma concessionária Peugeot, um emprego cinzento e burocrático. Mas o seu talento é desenhar revistas de quadrinhos.

Dali a dois dias ele se casará com uma moça escolhida pela mãe. Mas, ao ser escalado para uma viagem de trabalho, na antevéspera do formidável acontecimento, ele conhece e se apaixona pela funcionária de um resort na praia – o qual se encontra às moscas. Uma alusão ao atentado sofrido há três anos na praia de Sousse, quando morreram, diante do mar, mais de trinta turistas estrangeiros em férias de verão. Era um dos destinos mais procurados pelos europeus em busca de sol.

A jovem de espírito livre, símbolo da Tunísia cosmopolita e distante das limitações religiosas, transformará a desbotada vida de Heidi em um terremoto.

A Amante é um filme mais ao estilo grande público do que A Natureza do Tempo, do seu companheiro magrebino. É precursor de Dear Son, a mais recente produção de Attia apresentada em Cannes, mês passado, um filme forte adotado com grande entusiasmo pela crítica presente na Croisette. Conta a história de um jovem também de classe média que desaparece de casa na véspera de se apresentar para o seu exame de acesso à universidade. Era um jihadista às escondidas da família e será procurado pelo pai que tudo abandona e parte para tentar encontrá-lo.

Toda atenção para esse cinema atraente que começa a pipocar por aqui vindo de uma região cujo posicionamento geopolítico  pode vir a constituir mais um trágico destino para a Argélia e para a Tunísia. Além de incubadoras de jihadistas são nações que fazem parte do grupo de países/pivôs no entroncamento  Europa/ África/ Ásia e foram berço das controvertidas e (manipuladas) primaveras árabes.

Um terreno fértil para fermentar e produzir um cinema árabe provocante e com narrativas tão sofisticadas como A Amante e, sobretudo, A Natureza do Tempo.

*Trailer de A Natureza do Tempo:


*Trailer de A Amante: 








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