Cinema

Um roteirista palestino e a primeira diretora do mundo

A divertida comédia 'Tel Aviv em Chamas' e o frenético documentário 'Alice Guy-Blaché: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo' se aventuram nos cinemas

29/10/2020 11:20

 

 
Um sarro entre judeus e palestinos

Não é comum ver filmes que tematizam o consumo cultural repartido entre israelenses e palestinos. Por isso Tel Aviv em Chamas me chegou como uma relativa novidade. A divertida comédia tem lugar nos bastidores de uma série homônima produzida por palestinos em Ramallah, mas adorada nos dois lados da Cisjordânia. Na trama, uma espiã árabe é encarregada de seduzir e roubar segredos de um general israelense para trazê-los ao amante, um galante líder da resistência palestina. Na equipe de produção trabalha o simplório Salam, sobrinho do produtor, como assistente e coach de pronúncia do hebraico. O papel é de Kais Nashef, que faz um tipo assemelhado a Roberto Benigni.

Durante uma de suas passagens diárias pela barreira de segurança entre Jerusalém e Ramallah, Salam é retido pelo oficial Assi (Yaniv Biton), um fã de "Tel Aviv em Chamas". Tomando Salam como roteirista da série, Assi o chantageia para mudar o curso do enredo, fazendo a heroína se passar para o lado de Israel e se casar com o general Yahuda.

A ação da série (não do filme) transcorre em 1967, às vésperas da Guerra dos Seis Dias. Não há clima de violência, mas de pura sátira da vaidade israelense e do orgulho palestino. Salam precisa influenciar no sentido de tornar o general inimigo mais romântico, mas não a ponto de fazê-lo parecer bonzinho demais. Consegue sugerir cenas e mudanças, mas, desajeitado, tem que pedir ajuda até à mãe e a garçons para escrever os diálogos. O produtor, por sua vez, necessita compatibilizar as demandas de público e patrocinadores com a mensagem pró-árabe e ainda anular acusações de antissemitismo.

Apesar da pegada light, o filme do palestino-israelense Sameh Zoabi (corroteirista de O Ídolo) não deixa de tirar um sarro com os dois lados, assim como da dinâmica de criação de uma série das mais novelescas. Além disso, deixa patentes as agruras dos palestinos na ocupação e as delicadas negociações de convivência com os israelenses.



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Uma pioneira afogada em informações


Alice Guy-Blaché foi a primeira mulher a dirigir um filme no mundo, em 1896. Dividiu com Georges Méliès o pioneirismo em sincronização de som, colorização, uso de elenco interracial e de efeitos especiais. Realizou mais de 1.000 filmes e, mesmo assim, foi esquecida durante décadas pela história do cinema. Redescoberta a partir dos anos 1970, ainda precisa que um filme como Alice Guy-Blaché: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo insista em afirmar o seu valor.

Não falta ênfase ao documentário de Pamela B. Green, mas o desejo de passar o máximo de informação possível prejudica o resultado. São infindáveis nomes, datas e dados numa velocidade frenética que torna a absorção impossível. Além disso, o fetiche da pesquisa, exposto em detalhes, acaba atraindo tanta atenção para o processo do filme quanto para seu objeto. Um dos muitos entrevistados recomenda, a certa altura: “Mostrem como eram maravilhosos os filmes de Alice e lhe terão prestado um belo serviço”. Infelizmente, Pamela não seguiu esse conselho. São poucos e curtíssimos os flashes de filmes, engolfados na avalanche de outras informações.

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