Cinema

Uma avenida divide ricos e pobres

Gentrificação do bairro de Chelsea, uma avenida que separa os muito pobres das super elites nova-iorquinas e a educação de luxo globalizada no mundo e no Brasil são os temas inquietantes do documentário Divisão de Classes

13/06/2018 16:47

A avenidas das Elliott Houses de um lado e da Avenues School do outro

Créditos da foto: A avenidas das Elliott Houses de um lado e da Avenues School do outro

 
Marc Levin é um documentarista americano, diretor de filmes para a televisão e morador há 40 anos de West Chelsea, hoje em vias de se tornar um badalado bairro do sul de Manhattan entre a Rua 26 e a Décima Avenida. É a região da célebre High Line, um viaduto de passagem de trens desativado e em ruínas, do começo do século vinte, transformado há seis anos em vistoso parque verde ornamentado com vegetação luxuriante que serpenteia ao longo de vinte e dois quarteirões – e sempre superlotado de turistas fazendo selfies para mandar para casa em Pequim, Paris, Buenos Aires, o mundo.
Um ano atrás, o braço americano da HBO lançou um documentário com roteiro e direção de Marc Levin, Class Divide* (Divisão de Classes), brilhante aula de economia, de simplicidade franciscana, e grande sucesso de audiência.
Com vibrante qualidade cinematográfica, o filme mostra um ambiente onde vivem, lado a lado, seres humanos com mais (muito mais) dinheiro do que outros, aqueles que precisam lutar pela mais básica sobrevivência, e separados apenas por uma linha, uma simples pista de uma larga avenida, um limite mais notável ainda do que o viaduto transformado em parque e em atração turística.
Class Divide examina a disparidade de riqueza e a crescente desigualdade de renda no mundo atual se valendo do microcosmo dos moradores de West Chelsea. Apresenta, do lado dos milionários, os jovens estudantes da Avenues School, escola bilíngue e uma das mais recentes obsessões de sonho de consumo das famílias da superclasse média nova-iorquina e da alta burguesia internacional. Da brasileira inclusive; aquela equivocadamente chamada de ‘’elite’’.
No seu flanco, alunos muito pobres de escolas públicas e paroquiais, gratuitas, habitantes de um grande conjunto residencial onde vivem 2 400 pessoas que despendem 30% da sua renda para alugar ali um apartamento que custa, em média, 436 dólares por mês segundo dados do Censo de Nova York.
 
Em geral, meninos e meninas de famílias negras e de imigrantes latino-americanos, os moradores do conjunto Elliott Houses são vizinhos das crianças matriculadas na Avenues pelo preço de mais de 47 mil dólares por ano em mensalidades.
 
A Avenues School é um dos rostos do mundo das finanças globalizadas, ao estilo das Mercedes, dos Subarus e dos jatos particulares das famílias dos jovens adolescentes que estão sendo preparados para Harvard e congêneres e para atuarem como ‘‘líderes mundiais’’, segundo apregoa a propaganda do estabelecimento.
 
Do outro lado da rua, em Elliott Houses, de vez em quando há violência e até casos de assassinatos e as famílias, ás vezes ficam sem água ou sem luz por interrupção no abastecimento. Uma estratégia utilizada como força de pressão para fazê-las se mandarem para longe dali e dar espaço para novos investimentos, é óbvio.
 
O filme de Levin fala sobre essa brutal desigualdade de renda, sobre a qualidade e o direito à habitação urbana, mostra como se faz a gentrificação acelerada de um bairro de Manhattan, tece reflexões sobre a imigração, a educação de luxo e sobre a história de West Chelsea com imagens de época, preto-branco, preciosas.
 
Fala de esperanças, projetos e sonhos comentados pelos meninos e meninas dos dois lados da rua (e da vida), em entrevistas tocantes que revelam a ansiedade da garotada gravitando em torno do valor que o dinheiro traz para seu presente e para seu futuro. (Um dos entrevistados, Luc Hawkins, aluno da Avenues School, pouco tempo depois de concluído o filme se suicidou.) São estes os temas desenrolados durante os 74 minutos desse documentário extraordinário.
 
Os depoimentos dos adolescentes são cortantes. Mas é Rosa, filha de família de imigrantes da Costa Rica, quem resume a crueldade da divisão de classes quando ela expõe, na sua sabedoria de criança de oito anos, a aversão que sente por dinheiro. “Eu odeio dinheiro. Eu odeio, odeio, odeio, odeio, odeio, odeio dinheiro ... As pessoas brigam por dinheiro, e eu odeio que elas briguem por dinheiro. O dinheiro foi feito pelo diabo, eu acho, porque Deus não disse: 'Oh, você tem que pagar por isso'.
 
Um vizinho de Rosa, Juan, acrescenta: “Não é sua culpa se você nasce pobre, mas será sua culpa se você morrer pobre.”
 
Aluno da Avenues School, Edgar, de 16 anos, comenta: “Acho que qualquer pessoa que frequenta uma escola como esta sente a pressão para conseguir um bom emprego no futuro e alcançar sucesso na vida’’. Ele se refere, é claro, à ideia de sucesso relacionada a ganhar dinheiro. Muito dinheiro.
Brandon, porteiro de edifício próximo do Lincoln Center, cresceu em Elliott. É um exemplo de que as bolsas de estudos (45 alunos entre os 1 240 estudantes da Avenues são bolsistas) oferecidas pela escola é uma ação discutível.  Depois de ganhar, numa loteria, um apartamento luxuoso num bairro de alta classe média e mudar para lá, se viu hostilizado pelos vizinhos quando souberam a sua origem de menino ex-morador de conjunto popular.
 
São desvantagens das tentativas de cruzar a fronteira entre classes.
 
Já Hyisheem, que já tem diploma universitário e se prepara para o mestrado em Serviço Social, define bem a divisão de classes sociais - em Chelsea ou em qualquer outro lugar:
 
“A discriminação não tem origem no racismo. O que acontece é classismo. ‘’Eles’’ não se importam com a cor da sua pele. O problema é que você não possui o mesmo que eles. Eu posso até dizer, no futuro, que sou produto da universidade de Cornell ou de Harvard. O outro, o do lado de lá, vai olhar sempre para mim como um homem vindo do Elliot, de um prédio de moradia popular.’’
 
Hyisheem toca na ferida do preconceito que gera a discriminação. É como aqui, no Brasil. O nosso exemplo emblemático nacional. Quase sempre Luis Inácio Lula da Silva é lembrado como o presidente-operário.
 
Sobre o outro tema de Class Divide, a gentrificação, Levin diz: “Este filme é um microcosmo do que está acontecendo por todo o país e pelo mundo. As principais áreas metropolitanas em toda parte estão se tornando gaiolas douradas e oportunidades de investimentos para a elite global. A mistura humana, ingrediente fundamental para a energia e a magia de uma cidade vibrante está ameaçada. ’’
 
O terceiro tema esmiuçado por Levin trata da educação. Tema delicado. A educação luxuosa das escolas internacionalizadas, com alfabetização no mínimo bilíngue e embalada com uma marca famosa ao modo das butiques caras e dos restaurantes chiques que começam a se instalar em West Chelsea.
 
 Se em Manhattan o cenário promete se avizinhar da quase distopia modelo Hong Kong com o super investimento no Hudson Yards, na mesma região – estão sendo construídos treze edifícios residenciais com sessenta, noventa andares e elevadores exclusivos para o automóvel de cada feliz (?) morador ser alçado até a porta do apartamento – no Brasil a moda importada das escolas globalizadas como a Avenues, seguindo o calendário americano, com aulas de meditação, e física, química e matemática lecionadas em inglês, além das rigorosas entrevistas com os pais dos candidatos a alunos já tem longas filas de espera.
 
“Não é de estranhar que este comércio de colégios de elite esteja crescendo por aqui,” diz um especialista do mercado da educação de luxo. “A crise econômica, afinal, é concentradora de renda.”
 
São Paulo (na Cidade Jardim e no Jardim Paulista), Ribeirão Preto, Rio de Janeiro (na Barra da Tijuca e em Botafogo) e  Salvador são as primeiras praças brasileiras a receber alunos dessas escolas que vão aprender a perpetuar a centralização do poder econômico sem sair do país.
 
As Avenues, do americano Alan Greenberg, além do Brasil, tem prontos os projetos para novos campi em Londres, China, Cidade do México, Vale do Silício e Dubai. A Eleva pertence ao homem mais rico do Brasil, o carioca Jorge Paulo Lemann, grupo Venture Capital, dono da Fundação Educar, financiador do bloco de direita  Vem Prá Rua e um dos apoiadores principais do golpe contra a presidente Dilma Rousseff em 2016. E a Concept, do grupo SEB - Sistema Educacional Brasileiro S.A. - cujo lema é ‘’além da lousa, carteira e giz”. Seus acionistas pertencem ao bloco de empresários que venderam suas universidades para fundos de investimento, se capitalizaram e agora investem pesado na educação básica.
 
Resumindo: os investimentos são de cerca de 50 milhões de dólares (cada escola), as mensalidades, em média, custarão entre 8 e 10 mil reais e algumas podem receber perto de dois mil alunos.
 
Há filas de espera para as que abrem as portas a partir de agosto próximo.
 
Trata-se de um comércio, como se vê, que está chegando para mexer a fundo com a cabeça das novas gerações das ‘’elites’’ do futuro. Elas vão aprender, nas aulas, a controlar impulsos, e, além de meditação, a domesticar o cérebro e a se concentrar, conforme anunciam os mantras da propaganda desses negócios que se propõem a criar ‘’lideranças e pessoas extraordinárias.’’
 
Mas convém prestar atenção na citação final do filme Class Divide, de Plutarco: "Um desequilíbrio entre ricos e pobres é a doença mais antiga e fatal de todas as repúblicas. ’’
 
A menina Rosa, de oito anos, uma das entrevistadas da Elliott Houses sabe disso. Ela ‘’odeia’’ dinheiro.

*Filme completo legendado em inglês no youtube.



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