Cinema

Uma aventura na Belle Époque

A animação 'Dilili em Paris' é um fascinante passeio pela Belle Époque com mensagem feminista e antirracista

12/02/2020 08:21

 

 
Michel Ocelot, o septuagenário mestre da animação francesa, responsável pelos clássicos da série Kirikou e por As Aventuras de Azur e Asmar, tirou da cartola mais um filme encantador. DILILI EM PARIS (Dilili à Paris) é uma homenagem à Paris da Belle Époque, mas sempre atravessada por seus temas prediletos: a interação racial, a igualdade de gêneros e as aventuras libertárias.

Dilili é uma menina mestiça de pele negra, de ascendência francesa e da Nova Caledônia (arquipélago da Oceania). Apresenta-se numa "atração africana" em Paris, mas foi criada e educada por franceses ricos. Quando ela trava amizade com um jovem entregador, segue com ele para conhecer melhor a cidade. Paris está sendo ameaçada por uma quadrilha ultramisógina que assalta joalherias e sequestra meninas para sustar o empoderamento das mulheres, mantendo-as numa grotesca forma de escravidão.

Está armado o cenário para a aventura. Dilili e seu amigo vão recorrer aos artistas e cientistas da época para libertar as prisioneiras. Assim desfila pela tela um verdadeiro catálogo de gênios como Renoir, Monet, Degas, Rodin, Camille Claudel, Colette, Sarah Bernhardt, Marcel Proust, Gustave Eiffel, Louis Pasteur, Marie Curie, o jovem Picasso. Lá estão Toulouse-Lautrec desenhando o can-can no Moulin Rouge e Erik Satie tocando suas Gnossiennes. Woody Allen fez isso com menos graça em Meia-noite em Paris.

No clímax da empreitada de resgate pelos ares, quem tem papel preponderante é Santos-Dumont, que chega a falar algumas frases em português. Eis que o "pai da aviação" acaba entrando para o rol dos heróis protofeministas.



Para apreciar devidamente DILILI EM PARIS, é preciso sintonizar-se com sua proposta anacrônica na superfície. Apesar dos perigos representados pelos "Mestres do Mal" e das manifestações de racismo, a Paris de fins do século XIX é evocada de maneira romântica, segundo cânones consagrados pela mítica da cidade-luz. Uma bolha de beleza, brilho e gentileza numa Europa ainda isenta dos horrores das guerras do século XX. O culto à elegância se expressava por uma frase como a proferida por uma cantora no filme: "Arriscar a vida não é desculpa para estar mal vestida".

Mais bem vestidas ainda estão as imagens construídas por Ocelot e sua equipe para essa Paris ora fulgurante, ora estranhamente vazia. Fotografias de logradouros e prédios foram "lavadas" dos elementos contemporâneos e adicionadas com os detalhes de época, como se pode ver neste curto vídeo. Sobre esses cenários de fundo movimentam-se personagens, veículos e todo o resto em marionetes 2D ou 3D, como nos posters de Mucha.

Resulta um passeio fascinante pela estética e as maneiras daquele período, pontuado por referências às artes e às ciências. Nada mais distante do padrão de animações americanas, onde a ação e a velocidade predominam.







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