Cinema

Uma casa para o cinema humanista

Dois textos complementares sobre o último filme de Robert Guédiguian, o cronista francês das relações solidárias

12/07/2018 09:39

Uma casa à beira-mar

Créditos da foto: Uma casa à beira-mar

 
A fraternidade é vermelha

por Carlos Alberto Mattos

Robert Guédiguian nos delicia mais uma vez com o seu cinema humanista em UMA CASA À BEIRA-MAR. O ponto de partida do filme não podia ser mais lugar-comum: três irmãos afastados se reúnem para cuidar do pai, vitimado por um derrame, e colocam em cena suas diferenças. Mas Guédiguian transcende o chavão ao transformar essas diferenças não em conflitos banais, mas em acertos afetivos e exercícios de compreensão recíproca.

O encontro se dá na casa do pai, uma bela mansão avarandada numa pequena enseada próxima de Marselha, cidade natal de onde o diretor raramente se arreda. A chamada Calanque Méjean existe tal como a vemos no filme, com sua ponte ferroviária sobre arcos elevados, o restaurante Le Mange-Tout e o azulíssimo Mediterrâneo em frente. Guédiguian se "apossa" do lugar para ali instalar sua "família".



A noção de família é muito cara a esse cineasta. Ele trabalha invariavelmente com a mulher, a atriz Ariane Ascaride, e os atores Gérard Meylan e Jean-Pierre Darroussin. Eles são os três irmãos de UMA CASA À BEIRA-MAR. Angèle é uma atriz de sucesso no teatro, traumatizada pela morte da filha naquele local e conformada com o envelhecimento. Joseph (Darroussin) é um ex-operário e sindicalista que se refugiou na amargura e em laivos de preconceito. Armand (Meylan) é o esteio da coesão familiar, o que ficou para cuidar do pai e do pequeno restaurante que serve aos pobres.

Nos poucos dias em que se passa a ação, haverá eventos amorosos com alguns deles e um acontecimento trágico com um casal de idosos que mora próximo. Guédiguian volta a usar seu talento de roteirista (aqui junto com Serge Valletti) para associar a consciência esquerdista com o estudo da afetividade em pequenos grupos humanos. Os irmãos, apesar dos rumos distintos de suas vidas e percepções do mundo, se inspiram no exemplo de responsabilidade social do pai. E vão colocá-lo em prática quando a questão dos refugiados se apresenta e se sobrepõe a suas querelas pessoais.

É possível que esse último desdobramento soe um pouco sentimental, muito embora se integre de maneira orgânica no roteiro. O que prevalece é a habitual ternura com que o diretor trata seus personagens, sem transformá-los em modelos de bom comportamento. De resto, é a forma simples de narrar, o humor caloroso, os diálogos enredantes e a incrível capacidade de passar o sentimento de um lugar.

Só mesmo Guédiguian para se dar ao luxo de fazer um flashback dos irmãos mais jovens usando uma sequência do seu terceiro longa, Ki lo Sa, filmado em 1985 com os mesmos atores naquele mesmo portinho de Calanque Méjean. Mais que construir uma obra, ele vem esculpindo através dos anos um elogio ao cinema da fraternidade e da integridade.

Luz no fim do túnel?

por Léa Maria Aarão Reis

O filme de Robert Guédiguian, que estreia hoje, é uma janela de ar fresco oxigenando o ambiente tóxico no qual estamos mergulhados. Trata-se de um dos melhores cartazes do ano - embora o calendário ainda registre julho -, o desse francês de 65 anos, filho de mãe alemã e de pai armênio portuário nas docas de Marselha. A partir de hoje ele está em exibição em cadeia nacional nos nossos cinemas. Uma casa à beira-mar (La Villa) é o vigésimo filme de um dos diretores mais interessantes do atual cinema francês.



Ele é o autor, dentre outras produções, da histórica comédia Marius e Jeanette, do vigoroso A cidade está tranquila, e do contundente As neves do Kilimandjaro além do poético Uma viagem à Armênia e da sua bela homenagem ao presidente francês socialista, O último Mitterrand. Obra substancial.

Com La Villa o cineasta (e coautor deste roteiro enxuto, em companhia de Serge Valletti) mostra a possibilidade, apesar de tênue, de haver ainda reconciliação e resgate das potências humanas que permanecem, segundo ele e seus filmes, vivas em todos nós embora ora em franca mutação. Perdão, solidariedade, respeito, afeto, delicadeza, desprendimento.

Os diálogos-chave de Guédiguian, ex-militante do Partido Comunista Francês na juventude e hoje filiado ao partido France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, têm as entonações ancoradas em perspectivas sociais. Um deles é travado entre os protagonistas, um de dois irmãos e a irmã Angèle, vivida pela mulher e musa do diretor, a premiada atriz Ariane  Ascaride.

De volta à pequena cidade na beira do mar, vizinha de Marselha onde vivera quando jovem, com a família, Angèle se surpreende com as casas vazias e as ruas desertas do paraíso da sua infância. Seu retorno se dá para acompanhar o pai moribundo - símbolo de um mundo que pouco a pouco se apaga.

O irmão Joseph explica: ‘’O dinheiro, Angèle, passou por este lugar. Isto aqui, antes, você sabe, era um tesouro. Ofereceram fortunas aos moradores e todos foram vendendo, uns depois dos outros, essas suas casas lindas.’’

‘’Mas nem tudo está perdido,’’ se contrapõe o próprio cineasta marselhês durante uma entrevista recente ao jornal HuffPost.  ‘’Será que somos nós os responsáveis pela mudança ruim que resultou neste mundo de agora? É uma pergunta que provoca e atormenta a minha geração.’’

Desta vez, como em quase toda a obra de Guédiguian, a narrativa se passa na sua região de origem.  Às vezes, na amada cidade de Marselha. Ou nas suas periferias, como no bairro proletário l’Estaque, onde a família armênia viveu, e preservado até hoje com cuidado e de  modo inesperado graças ao empenho e militância do cineasta.

Nas pequenas cidadezinhas próximas de Marselha, todas defronte do mar, na Côte d’Azur. Como neste cenário de La Villa, a Enseada (Calanque) de Méjean, belo porto de pescadores. ‘’Meu pequeno teatro,’’ brinca o cineasta.

Guédiguian aprofunda seus laços humanistas a cada filme. Uma casa à beira-mar é o mais refinado da carreira iniciada em 1980.



Uma espécie de parábola sobre relações solidárias, valores humanistas e sobre a beleza que pode guiar e alimentar nossas vidas. Talvez ingênuo?  La Villa não é um filme tristonho nem é mera fantasia. Ao contrário. Inserido nele está o teatro da dura realidade, um dos grandes temas do nosso tempo: os refugiados, e, em especial, as crianças que vagam desorientadas, quando conseguem se salvar do mar da burguesa Côte d’Azur.

Os pequenos sobreviventes, replicantes dos irmãos protagonistas - dois meninos e uma menina - oferecem a palavra final ao filme. Eles imitam, brincando, o eco dos nomes de Angèle, Armand e Joseph que cuidarão deles e irão protegê-los. E que também passarão.



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