Cinema

Uma estrela no céu do Capitólio

Documentário mostra a campanha da congressista Alexandria Ocasio-Cortez, um fenômeno político que chega para estimular o debate da eleição de 2020 nos Estados Unidos

17/10/2019 13:20

(Reprodução/Netflix)

Créditos da foto: (Reprodução/Netflix)

 
O documentário Virando a mesa do poder (Knock down the house)* mostra que o Brasil de hoje, mais uma vez, é um pastiche do ‘’irmão’’ americano do norte. Mas qual a relação da trajetória da atual e brilhante jovem política de origem porto-riquenha, a surpreendente Alexandria Ocasio-Cortez, de 29 anos – personagem principal do filme - com a manobra de marketing tupiniquim comprada pelos meios de comunicação corporativos daqui, vendendo a figura da jovem deputada Tabata Amaral, infiltrada no PDT (logo o partido fundado por Leonel Brizola!) como a menina prodígio emblemática da nova política de Brasília?

Numa visão panorâmica, o doc de Rachel Lears, que foi a maior audiência do Festival de Cinema de Sundance, este ano, narra alguns lances das campanhas de 2018 de quatro candidatas que pretenderam derrotar políticos subsidiados por poderosos grupos de empresários na batalha para ingressar – ou se reeleger - no Congresso dos EUA, na sua Câmara de Representantes.

Menos elite na política foi um slogan importante de todas elas, militantes ou não, todas progressistas: Cori Bush, do Missouri, Paula Jean Swearingen, de West Virgínia, a ativista democrata Amy Vilela, de Nevada, e Alexandria que disputou – e levou – a cadeira de congressista representando o 14* distrito de Nova Iorque, parte do bairro de trabalhadores do Queens e a outra do Bronx.

Apenas com doações de moradores desses dois locais populares, e batendo de porta em porta, Alexandria derrotou o democrata corporativo Joe Crowley (por 57 contra 42%) que a ocupava o lugar há 15 anos, financiado honorário pelas doações de grandes empresas.

Suas outras três companheiras, também sustentadas por doações individuais, não chegaram ao Capitólio, mas deixaram plantadas as sementes de suas campanhas.

Em especial, Amy Vilela, de Nevada. Ela esteve no Brasil há dois meses, em diversos encontros, debates e conferências quando e prega pelo atendimento gratuito universal e de qualidade para todos os cidadãos.

Sua jovem filha, no passado, morreu por falta de atendimento adequado oferecido por seguros/saúde. Vilela é outra protagonista que deixa forte impressão no filme de Lears.

Mas Virando a mesa do poder tem Ocasio-Cortez como a grande estrela. Ela esbanja carisma, sedução pessoal, discreto bom gosto. Mas também maturidade sincera, não ensaiada e comedimento no discurso que se pretende objetivo, surpreendentemente sem retórica; que flui, espontâneo, da sua inteligência intuitiva.

A-O-C, como ela é conhecida hoje nos Estados Unidos, faz parte do grupo Democratic Socialists of America (DAS), a mesma facção liderada por Bernie Sanders. Ela se autodefine socialista democrata e, depois da eleição, logo se transformou num fenômeno de massa. Hoje, é uma celebridade maior até que Barack Obama e só perde em popularidade para Trump que a odeia. Compreende-se.

A filha de faxineira precisou interromper os estudos universitários - Relações Internacionais – para ajudar no sustento da família quando o pai morreu, e trabalhou até dois anos atrás como garçonete, no balcão de um bar de Nova Iorque.

Alexandria se perfila no grupo político batizado pelos meios de comunicação de ‘’mais cores, mais minorias, mais mulheres. ’’ Agrupamento semelhante ao daqui, ao qual pertenceu a combativa e saudosa socióloga Marielle Franco.

Ocazio-Cortez agita o debate político para 2020 em seu país. Incomoda porque cutuca o sistema. Sacode o establishment porque é um modelo a seguir. Recentemente, botou sobre a mesa do poder uma proposta que pode não dar em nada neste momento de aparente força republicana, mas no futuro, quem sabe. Ela propõe taxar em até 70% rendimentos superiores a 10 milhões de dólares – aqui, o encantado imposto sobre as grandes fortunas que nunca chegou a ser discutido.

Esta proposta de Alexandria foi vivamente elogiada, em público, por Paul Krugman.

Numa entrevista em Sundance, a diretora Rachel Lears, que acompanhou as trajetórias de Alexandria e suas colegas, declarou-se entusiasmada com seu trabalho. ‘’ Elas fizeram campanha com a idéia de transparência e autenticidade. São firmes porque são naturais. Não escondem dúvidas nem incertezas. ”

Num outro extremo da figura da deputada Tabata, um produto de uma educação financiada, em Harvard, para ela e para companheiros de bancada por Jorge Paulo Lemann, um dos empresários mais ricos do Brasil, se posiciona A-O-C.

Colado na porta do seu gabinete, no Capitólio, há um post it que demonstra a proximidade que a congressista mais jovem dos EUA mantém com seus eleitores.

‘’Continue lutando; nós acreditamos no que você faz,” ele diz.

*Netflix






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