Cinema

Uma saída indecente

Rever o brilhante documentário inglês que volta ao destaque no catálogo de programação da TV ganha nova dimensão com o segundo referendum que pode ocorrer na Grã-Bretanha ainda este ano. Para quem não conhece o filme, um programa imperdível

10/09/2019 14:21

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
Brexit, the uncivil war é um documentário (excelente) produzido pelo HBO* e lançado no Brasil há sete meses. De lá para cá rolou na programação do canal sem tanto destaque, mas agora voltou à grade, com a recente tentativa de golpe parlamentar do primeiro ministro da Inglaterra Boris Johnson (sim, golpe em Westminister), ator estreante do elenco dos bufões políticos que ascenderam à governança de seus países com a ajuda de bandidos digitais.

‘’Para mudar uma sociedade é preciso destruí-la antes’’ é o conceito central dos políticos bufões e dos marginais digitais, seus guias.

Para quem viu Brexit em fevereiro passado, recomendamos vivamente revê-lo. Com a complexa operação do brexit (contração de british/exit) ainda aberta graças à rapidez e a habilidade do líder trabalhista Jeremy Corbyn neutralizando a sórdida manobra do ex-ministro das Relações Exteriores de Theresa May que quase conseguiu, semana passada, fechar o parlamento durante um mês e meio para colocar um ponto final, ele sozinho, na novela da saída da Grã-Bretanha da União Européia, sem qualquer acordo, este filme de Toby Haynes ganha uma dimensão atualizada e mais séria.

Vê-se que o choque de mudar o curso da história com truques digitais; fake news, slogans mentirosos, robôs, invasão agressiva da privacidade – como ocorreu no Brasil, ano passado – é o eixo de uma ilusória ‘’nova política’’ trombeteada pelos que pretendem ‘’mexer na matriz da política’’ de diversos países ocidentais, e acabam forjando sociedades caóticas, desgovernadas e fora de seu próprio controle – deles, ‘’mitos’’, e do povo.

A ‘’nova política’’ manipula ‘’pessoas que são poços de ressentimentos acumulados com o tempo”, diz o coordenador do Vote Leave, no filme.

Brexit faz parte do pacote de documentários sobre o mesmo tema, porém analisado sob diferentes aspectos e lançados há pouco tempo: The great hack (Privacidade hackeada), The brink (À beira) e Driblando a democracia (Dribbler La democratie: comment Trump a gagné).

O melhor deles, na perspectiva de qualidade cinematográfica é este, de Toby Haynes. O filme conta com o roteiro fulgurante de outro jovem artista, o dramaturgo James Graham, começando a despontar na cena londrina e conhecido pelos trabalhos de cunho político. Na época (2016) ele profetizou: O brexit vai ser um desastre.”

A produção é uma parceria do HBO com o Chanel 4, BBC Studio e José Productions e em 92 minutos procura esclarecer o que significa o processo de saída do Reino Unido da União Européia. Para quem segue os acontecimentos mais de perto, o filme entrega detalhes de bastidores da campanha coordenada com mão de ferro pelo ousado marqueteiro, Dominic Cummings, a Vote Leave.

‘’Mudar tudo isto que está aí’’, era um dos mantras de Cummings.

Bastante familiar aos cidadãos brasileiros.

O protagonista é interpretado pelo ator Benedict Cumberbatch com uma dose de tal energia que carrega com ele o espectador. Mesmo que o personagem seja desagradável, no limite do repulsivo; e inteligente e culto, leitor de Sócrates, Mao Tse Tung, Tolstoi, Kipling e Sun Tsu, ao contrário do americano Steve Bannon, comandante da campanha de Trump, entediante, sombrio e sem quase nada a declarar.

‘’Cummings é o anti-herói, ’’ diz Graham. ‘’É um transgressor, imprevisível, surpreendente, e é o agente da mudança. Tomou decisões que afetaram uma nação,” ele frisa, sobre o manipulador de redes sociais que levou 52% dos britânicos a votarem pela saída. Quarenta e oito por cento se opuseram.

Já Haynes diz ter deixado claro que sua intenção foi tornar a história do brexit “dinâmica, visualmente interessante e convincente. ’’ Conseguiu.

Cummings é irmão siamês de Steve Bannon e parceiro, como o americano, da famigerada Cambridge Analítica, a empresa que, mesmo expulsa da Inglaterra e desativada, através de um braço seu no Canadá, interveio na campanha do brexit testando um programa novo, um software combinação de face book, twitter, prospecção de voto e cadastro eleitoral dos britânicos.

 Cummings compara uma campanha eleitoral a uma loja start up. Mas, como no caso da Vote Leave, foram as suas operações que dividiram os cidadãos de uma sociedade em tribos selvagens e usaram eleitores, ‘’ verdadeiros poços de ressentimentos acumulados com o tempo, ‘’ como ele explica.

Semelhança com o que ocorreu com o Brasil, em outubro do ano passado?

Atualmente, os políticos que se opõem ao brexit (trabalhistas, liberais e parte dos conservadores) querem um novo referendo. Os defensores desejam sair sem acordo sobre como fazer essa complexa operação.

E o documentário é a ante-sala do que ocorrerá até o fim do ano na Grã-Bretanha. Mostra a montagem das máquinas de propaganda utilizadas para difundir medo, ódio, fake news e fazer o jogo pesado da extrema direita: dividir para conquistar populações, como ocorre em diversos países, Brasil entre eles.

O brexit foi o primeiro
sinal de que as políticas iam começar a se transformar, no planeta.

Depois, veio Trump, aliás, com o mesmo grande doador de campanha do Vote Leave – Robert Mercer, que aparece no doc. Um dos maximilionários do mundo, é o mesmo que declara o seu sonho para o resto de sua vida: não precisar nunca mais falar com um ser humano; gostaria de só ter contato com computadores.

Na abertura do filme, Cummings/ Cumberbatch vai logo avisando: ‘’ Todo mundo sabe quem ganhou, no brexit, mas nem todos sabem como foi que ganhou. Junho de 2016. ‘’

Imagine se o documentário Brexit, the uncivil war tivesse contado tudo que se passou nos bastidores da campanha do Vote Leave, ‘’ um lento gotejamento de medo e de ódio ‘’, como está lá, no filme de Haynes/Graham.

Um dos voluntários da campanha Vote Leave, Shahmir Sanni, personagem do documentário, afirmou em entrevista ao The Guardian, que ‘’o filme não é uma representação verdadeira do que aconteceu em algumas áreas decisivas. Mas o brexit foi conquistado por meio de atividades ilegais. Isso é um fato ”, disse.

Cummings? Hoje é assessor especial do Primeiro-Ministro Boris Johnson.

*Filme versão original e legendado em português disponível em HBO GO. Não confundir com Brexit, o filme, apenas uma peça de propaganda



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