Cinema

Velhos resíduos e um vago futuro

Dois filmes são fontes de reflexão para a situação em particular precária das duas extremidades das populações humanas: a dos idosos e a das crianças

05/10/2020 18:38

Pão Amargo (Reprodução)

Créditos da foto: Pão Amargo (Reprodução)

 
Dois filmes documentários exibidos na semana passada no Festival É tudo Verdade nos chamaram atenção especial. Ambos tratam dos graves problemas que investem com força sobre as duas pontas da sociedade humana mais atingidas nos tempos sombrios que o mundo atravessa, e agora expostos e agravados pela pandemia da covid-19. Numa ponta, as populações de crianças com um futuro incerto à frente é bem desenhado em Pão amargo (Bitter bread), o tocante documentário do iraquiano Abbas Fahdel. Um retrato da vida dos filhos das famílias do um milhão e meio de refugiados sírios acampados em tendas no outrora bucólico Vale do Bekaa, no Líbano.

Fugidos da guerra terceirizada no país vizinho (num mundo, como apontou o Papa Francisco na sua encíclica de Assis deste ano, ''feito de pedaços de guerras'') essas famílias precisam alugar suas tendas e pagar uma taxa por elas ao governo libanês. As crianças devem ajudar para amealhar o soldo do dia de trabalho, quatro dólares, cultivando os campos férteis e históricos de Bekaa de onde saíram levas maciças de imigrantes libaneses, no passado, buscando uma vida melhor no Brasil. Elas garantem, do jeito que podem, o que comer além de pão.

Na outra extremidade, um filme chileno, meio doc meio ficção, da diretora Maite Alberdi, O espião (The mole agent) , apresenta a solidão em que vivem idosos de classe média numa casa/abrigo para velhas e velhos em algum local do país, semelhante a tantos outros, nos quatro cantos do mundo. Depósitos de agentes improdutivos, que já deram o que podiam oferecer e que portanto não têm mais utilidade para o sistema do capital nem serventia para muitas famílias mais abonadas. Exceto quando se trata de heranças ainda não partilhadas. Dinheiro.

Sobre a saúde e sobrevivência desse segmento da população idosa, indivíduos mais vulneráveis pela própria existência e menos protegidos, a preocupação é mais imediata. Foi grande, e até hoje é escamoteado, o número de mortes de idosos em suas próprias casas, durante os meses de pico da covid-19, a maioria de brasileiros das classes mais pobres. Não há números exatos nem pesquisas sérias sobre o assunto até hoje, no Brasil, e menos ainda registros em cartórios que sejam confiáveis apontando para mortes de pessoas em suas residências a partir de 70/80 anos por coronavírus.

O espião não trata do assunto nem poderia fazê- lo. Foi produzido em 2019 e sua origem se deu por acaso. A diretora Alberdi fazia pesquisas num escritório especializado em investigações particulares para um determinado filme e soube da história de uma cliente da empresa que desejava contratar serviços de espionagem dentro de uma residência para velhos onde se encontrava internada sua mãe.

No filme, Sergio, o protagonista, é contratado pela agência para morar, durante um par de meses, espionando a tal ''casa de repouso'' ou 'lar para idosos' como eufemìsticamente são nomeadas as instituições de abrigo para os mais velhos. Sejam privadas, como a apresentada no filme, ou estatais.

O documentário, cru, sem trilha musical pontuando as situações cotidianas, não escorre com a manipulação de altos e baixos, de picos dramáticos. O tema recorrente é a lamentação dos internos, sutil ou explícita, cotidiana, porque estão ali deixados pelas famílias que não os visitam. A solidão é o grande tema. E os personagens são de carne, osso e sangue. Esplêndidos.

 O espião é uma bela experiência para reflexão. Como observou um espectador, ao ver o filme ''esqueça a aposentadoria recheada de amigos no banco da praça''.

A realidade brasileira de hoje é esta: cerca de quatro milhões de adultos e um milhão de crianças podem ficar na pobreza com a morte de idosos que sustentam suas famílias (Dados do Ipea). Para milhares de famílias brasileiras, a dor da morte de pais ou avós pelo coronavírus vem acompanhada do medo de não ter dinheiro para comer nos próximos meses.

'O Espião' (Reprodução)

Nessas famílias, e isto não é de se estranhar porque se sabe disto há tempos, a única fonte de renda familiar, em milhões de casas do país, provém dos rendimentos dos idosos: do BPC, o Benefício de Prestação Continuada, da aposentadoria ou do trabalho dos mais velhos. (Dados da CUT Brasil, agosto último, levantados pela repórter Rosely Rocha).

Já o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apresenta estes dados: 12,9 milhões (18%) do total de domicílios brasileiros têm como única fonte de renda os ganhos dos idosos. Caso continuem em risco acelerado como se encontravam há quatro meses, as mortes dos mais velhos privarão suas famílias do valor médio da aposentadoria - R$ 1.348,07. (Boletim Estatístico da Previdência Social do Ministério da Economia).

E o mais impressionante: há dois anos, dos 71,3 milhões de domicílios brasileiros 33,9% deles tinham ao menos um idoso residindo. Nesses domicílios moravam 62,5 milhões de pessoas.

Voltando às fontes de reflexão via filmes documentários que nos informam: as crianças de Pão amargo que vivem e trabalham no campo 03 do acampamento de um milhão e meio de sírios no Vale do Bekaa estão lá já há seis anos. Como ocorre nas favelas das periferias de centros urbanos brasileiros, o acampamento se estende ao longo de um grande esgoto a céu aberto e à margem de uma autoestrada bem pavimentada pela qual trafegam carros luzentes. Há tempos uma menina morreu atropelada por um deles, que passam pelas pistas em alta velocidade.

Já os velhos de classe média chilena, e em especial as mulheres idosas de O espião, caso ainda não tenham partido, devem continuar lá, na sua ''casa de repouso'' à espera de uma pequena visita de fim de semana de algum parente piedoso.

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