Cinema

Viagem a Cabo Verde

Um filme como 'Djon África' é exemplar de quando a intelectualidade lusitana se deixa contaminar pelo despojamento africano.

11/10/2018 16:26

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Créditos da foto: (Divulgação)

 

Debruçar-se sobre a herança colonial deu ao cinema português um grande frescor. Um filme como Djon África é exemplar de quando a intelectualidade lusitana se deixa contaminar pelo despojamento africano. Isso se dá progressivamente ao longo do primeiro filme de ficção de Filipa Reis e João Miller Guerra, habituês do documentário. A coprodução com o Brasil envolve o coletivo português Terratreme (A Fábrica de Nada), a produtora pernambucana Desvia e os montadores brasileiros Eduardo Serrano e Ricardo Pretti.

Miguel Moreira, o ator-personagem do premiado doc Li Ké Terra, é agora um filho de cabo-verdianos que nasceu e vive em Portugal. Criado pela avó, que atua como raiz de sua identidade, um dia ele decide viajar ao encontro do pai, que não conhece. Vai para Cabo Verde à procura da localidade de Tarrrafal, onde os portugueses outrora mantiveram um campo de concentração salazarista.

A viagem aos poucos se transforma num road movie randômico, movido pelos encontros fortuitos de Miguel, que no Facebook se assina como "Djon África". Do bairro Brasil, na ilha de Praia, às montanhas ermas de outras ilhas cabo-verdianas, ele vai gradativamente perdendo o rumo e deixando-se levar pelo inesperado. Miguel julga-se mais esperto do que realmente é – e menos interessado no pai do que a princípio parece.

A procura não obceca o rapaz, mas antes o empurra de uma festinha a outra, de um papo furado a outro, até juntar-se a uma espécie de avó substituta, que vai de alguma forma concretizar seu desejo de pertencimento. Da mesma forma que Miguel se dispersa, o filme também abandona quase todo o foco narrativo para se espalhar em experimentações com o tempo e o espaço.

 

Filipa e João dizem ter largado de mão o roteiro de Pedro Pinho em função das dificuldades de manter sob controle as filmagens em Cabo Verde. Contam também ter se inspirado em filmes do mestre senegalês Djibril Diop Mambéty, especialmente A Viagem da Hiena (ToukiBouki), para soltar-se da rigidez planejada. Mas é possível ver também ressonâncias de Antonioni na maneira como Miguel cruza as paragens das ilhas em sua busca existencial.

A simpatia irradiada por Djon África vem dessa profundidade disfarçada de casualidade. E ainda do mergulho que nos oferece nas paisagens, na música, no idioma crioulo popular e no colorido humano de Cabo Verde. Uma experiência bem pouco comum no cinema.  

Para mais informações, leia essa entrevista com os diretores.



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