Cinema

Vidas em fuga

O excepcional documentário 'Welcome to Chechnya' revela o perigoso trabalho de resgatar pessoas gays de um país que as tortura e mata

16/02/2021 11:45

 

 

Ser LGBTQ na Chechênia é estar sob o risco de prisão, tortura e morte. E não só pelo estado, de orientação islâmica e governado pelo monstruoso Ramzan Kadyrov sob os auspícios do também homofóbico Vladimir Putin. As próprias famílias são instadas a reprimir e até matar os parentes que se desviarem da rota heterossexual. O objetivo é "purificar o sangue da nossa gente", conforme as palavras de Kadyrov.

O documentário Bem-vindo à Chechênia (Welcome to Chechnya) mostra alguns vídeos de agressões públicas e brutais a gays ou pessoas trans. Mas o foco do filme de David France está na organização Russian LGBT Network, um pequeno grupo de ativistas dedicados a retirar as vítimas da Chechênia e levá-las a um abrigo em Moscou e, posteriormente, a outros destinos onde possam estar seguras. No período de dois anos, desde que começaram a perseguição e as prisões em massa, a ONG encaminhou 151 pessoas para o exterior, sendo 44 delas para o Canadá.

É uma operação cheia de riscos, cruzando barreiras alfandegárias e providenciando transporte, acomodação e vistos para os beneficiados. Dois casos ocupam o centro do documentário: o de Maxim Lapunov, torturado pela polícia chechena, que é obrigado a fazer um périplo clandestino pela Europa junto com o namorado e a família inteira, que se viam ameaçados na Chechênia para entregar o destino de Maxim; e o de "Anya" (pseudônimo), moça lésbica chantageada pelo tio a fazer sexo com ela para que o resto da família não soubesse de sua preferência sexual.

David France e sua equipe seguem a movimentação dos ativistas David Isteev e Olga Baranova através de viagens, fronteiras e refúgios, num trabalho excepcional de acompanhamento documental, às vezes com câmeras ocultas. A identidade dos refugiados é protegida com um recurso inovador de disfarce digital que altera a fisionomia das pessoas sem eliminar suas expressões. Isso se mostra fundamental num filme em que as emoções dos personagens em suas relações afetivas e familiares são tão importantes quanto a busca pela segurança.

À margem das histórias de Maxim e "Anya", correm outros exemplos da barbárie homofóbica chechena. O cantor Zelim Bakaev desapareceu em 2017 e hoje é dado como morto em razão de torturas. A ativista Olga Baranova, protagonista do filme, a certa altura tem que também se asilar após sofrer ameaças de morte. A denúncia oferecida pelo corajoso Maxim às autoridades russas não foram aceitas, resultando em mais uma vida em fuga permanente.

Bem-Vindo à Chechênia está na shortlist do Oscar de melhor documentário e é forte candidato à indicação e ao prêmio. Não só pela relevância do tema, mas pela forma hábil e persistente como encara os perigos e desafios da filmagem.

>> Welcome to Chechnya está nas plataformas Now, Google Play, Apple TV, Vivo Play e Youtube OD



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