Cinema

Vidas periféricas

As moças mineiras de 'Baronesa' e o escritor soviético de 'Dovlatov' têm em comum a vida na periferia e um laço oblíquo com Tchekhov

14/06/2018 09:28

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Créditos da foto: Divulgação

 
Tchekhov na periferia de BH

Tchekhov na periferia de Belo Horizonte? Não sei se mais gente viu semelhanças entre Baronesa e a peça As Três Irmãs. No filme de Juliana Antunes, Andréia e Lidiane são duas amigas e vizinhas, quase irmãs, moradoras de uma favela no bairro Juliana. De cabeças bem diferentes mas muito cúmplices, elas de alguma maneira se complementam no dia a dia. Lidiane tem quatro filhos, dos quais parece mais uma irmã que uma mãe. Um pouco mais velha e mais objetiva, Andréia quer se mudar para Baronesa (bairro de Santa Luzia, uma cidade próxima) para fugir de uma guerra de gangues que se anuncia. Já ocupou um lote e planeja construir – ela mesma – sua nova casa.

Não só Baronesa é para Andréia como a ansiada Moscou para as irmãs tchekhovianas, mas todo um repertório de questões femininas abordadas pelas moças mineiras ecoa temas do escritor russo: o amor, o peso e o vazio da vida, a fragilidade humana, o desejo de encontrar um lugar mais feliz. Em vez do filosófico comandante Verchinin, temos "Negão", um astucioso soldado do tráfico, grampeado a uma tornozeleira eletrônica, que flerta com várias moças do local.

Baronesa é tchekhoviano sobretudo na atenção dedicada àquelas almas de mulheres que veem a mocidade ir ficando para trás e se perguntam sobre o futuro. Falam dos parentes que já morreram e dos que estão presos à espera de suas cartas e eventualmente de algo mais, escondido nas entranhas da mulher visitante.



A violência é assunto obsessivo, seja como fator de medo, seja como brincadeira. Em dado momento, um tiroteio interrompe bruscamente uma conversa e chacoalha o delicado amálgama de encenação e flagrante armado com extrema habilidade por Juliana Antunes. Uma câmera sempre fixa, uma luz estudada que às vezes lembra a pintura holandesa – e ali dentro as fatias de vida dessas mulheres, entre a inocência e a inércia, a coragem e a melancolia.

O filme cativa pelo que traz de linguagem oral e de silêncios ressonantes; pelo que capta de intimidade e espontaneidade de suas protagonistas, bem como pela poesia aleatória, por exemplo, do olhar mudo e inquiridor de uma criança ao seu redor. Baronesa é ao mesmo tempo ousado e respeitoso quando se trata de revelar a privacidade das personagens. E sutil na indicação de um fato trágico. Seus méritos já foram reconhecidos com prêmios na Mostra Aurora de Tiradentes e em festivais de Marselha e Valdívia. No último Janela Internacional de Cinema de Recife, o júri do qual participei conferiu-lhe uma menção honrosa.



Junto com Baronesa está sendo exibido o curta Travessia, de Safira Moreira. A partir da escassez de fotos de sua família, Safira construiu um sucinto ensaio sobre o apagamento dos negros na memória fotográfica brasileira. O filme tem parentesco com "Babás", de Consuelo Lins, mas avança além da constatação etnográfica. Ao construir quadros vivos de casais e famílias negras contemporâneas, Safira faz um pequeno manifesto de afirmação e beleza. 

Um escritor marginal na URSS de Brejnev

A relativa liberalização do regime soviético na era Kruschev – cujo início é visto em chave de comédia no filme A Morte de Stalin, também em cartaz no Brasil – não resistiu à chegada de Leonid Brejnev ao poder. Os rigores do realismo socialista voltaram a se impor sobre os artistas e escritores. Dovlatov se passa durante seis dias de novembro de 1971, quando o jornalista e escritor Sergei Dovlatov (1941-1990) tentava em vão estabelecer-se no mundo literário oficial de Leningrado, hoje São Petersburgo.

De ascendência armênio-judaica numa sociedade discriminadora e antissemita,  avesso às demandas dos editores e da União dos Escritores da URSS, Dovlatov não conseguia ter sua prosa publicada. Admirador de Tchekhov, recusava-se a atender às exigências de uma literatura otimista, heróica e deprovida de referências religiosas e "significados ocultos". Divorciado e com uma filha, sobrevivia escrevendo reportagens para um jornal de fábrica e tinha estranhos sonhos em que via Brejnev lhe pedindo conselhos de estratégia em troca de promessas profissionais.



O ator Milan Maric, no papel de Sergei Dovlatov, não sai de cena em nenhum momento. Por ele passa toda uma cena das artes marginais de Leningrado naquele momento. Saraus de poesia, sessões de jazz e muita conversa sobre o mercado negro servem de compensação para as frustrações de escritores, pintores e músicos não aceitos pelo circuito estatal. O grande poeta Joseph Brodsky (Artur Beschastny), por exemplo, ganha a vida dublando poemas na boca de atores de filmes. O também poeta Anton Kuznetsov (não sei se real ou ficcional) dá duro na construção do metrô. "Somos a última geração capaz de salvar a literatura russa", diz alguém a certa altura. Sou capaz de apostar que estava certo.

Na sequência em que Sergei visita uma filmagem, vemos o esforço da arte oficial em incorporar os ícones tradicionais da Rússia aos valores da ideologia dominante. Assim é que Tolstoi, Puschkin e Dostoievsky aparecem recriados com falas de enaltecimento do trabalho em prol do socialismo.

Assim como Afterimage, do polonês Andrzej Wajda, Dovlatov é um filme de crítica ao sistema das artes no período comunista. Mas não faz isso de maneira panfletária nem, como Wajda, melodramática. Apesar da coloração fria das imagens, com predominância de amarelos e brancos, além de uma névoa permanente que parece invadir também os interiores, o tom do filme é mais para a crônica social, com lances de comédia e frequentes desvios para o campo do onírico. Por mais de um momento, lembrei-me da atmosfera um tanto irreal do Oito e Meio de Fellini, com Dovlatov atormentado pelas condições de criação e pelas mulheres que circulavam ao seu redor. 

A cinematografia é um espetáculo à parte. A câmera flutua unindo módulos diferentes de ação em longos e intrincados planos-sequência, com um trabalho de foco e movimentação de atores não menos que excepcional. Nesse trabalho estético desafiador, na manutenção de uma densidade peculiar e nas alusões constantes ao universo das artes, o filme se alinha a uma tradição do cinema russo moderno.

Por fim, é preciso chamar atenção para o fato de que o diretor Aleksei Guerman Jr. é filho do célebre Aleksei Guerman (1938-2013), autor de clássicos como Meu Amigo Ivan Lapchin e É Difícil Ser um Deus, exte exibido na recente Mostra Nouvelle Vague Soviética. Pai e filho comungam a estatura autoral, a veia crítica e muito do estilo de filmar.

Os letreiros finais informam que Dovlatov só pôde ser publicado na URSS após a sua morte. Não menciona, porém, que teve 15 livros editados nos EUA e na Europa depois que emigrou para Nova York em 1979 com a mulher e a filha.

Outros destaques

Vale a pena chamar a atenção, ainda, para outros filmes em cartaz.  Safári, do austríaco Ulrich Seidl, é um ácido e incômodo documentário sobre caçadores europeus na África e seu estranho "amor" pelos animais que matam. Já publicamos um texto sobre ele aqui na Carta Maior.

A surpreendente produção paraibana O Nó do Diabo nos brinda com um eficiente thriller de horror social que se expande de 1821 a 2018 para mostrar que o Brasil nunca saiu da escravidão. Em cinco episódios, escravos, pretos e outros excluídos sociais são vítimas de violência em clima que flerta com o sobrenatural.



Em 97 Era Assim, de Zeca Brito, é um simpático retrato de garotos púberes na Porto Alegre de 1997, com ótimo aproveitamento de tipos e da trilha musical da época. Mais musical ainda é Paraíso Perdido, de Monique Gardenberg, um dos filmes brasileiros mais carismáticos dos últimos tempos, girando em torno de uma família de cantores numa boate brega de São Paulo. O elenco fabuloso tem à frente o Tremendão Erasmo Carlos.



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