Cinema

William, o herói e a ideologia da desigualdade

O filme 'O menino que descobriu o vento' descerra mazelas da África e comprova, mesmo a contragosto, que a meritocracia reforça a desigualdade social

10/03/2019 17:02

 

 
A história do filme O menino que descobriu o vento é verídica. O menino vem do Malawi, se chama William Kamkwamba e hoje é um jovem de 32 anos. Deixou a pobreza da sua aldeia perdida na miséria da África Oriental* para estudar, após inventar, aos 14 anos de idade, um sistema de captação de energia eólica possibilitando bombear água para irrigar a terra e permitir o seu cultivo em tempos de seca e de fome como ele próprio viveu, na infância, junto da família.

Com peças de um ferro velho, um quadro de bicicleta, roldanas, cabos de plástico, fios e baterias ele montou um moinho de vento e transformou energia eólica em energia útil.

Hoje, William é engenheiro ambientalista formado pela afamada universidade americana de Dartmouth, em New Hampshire, e personagem do livro The boy who harnessed the wind, do jornalista novaiorquino Bryan Mealer no qual o filme, de 2018, foi baseado.

O garoto ficou famoso internacionalmente quando sua extraordinária invenção foi notícia de capa do Wall Street Journal narrando as modestas pesquisas que ele fazia nos livros velhos da biblioteca paupérrima da sua aldeia, e também a formidável inteligência intuitiva e determinação estimuladas com a ajuda, mesmo que às vezes a contragosto, de agentes da educação do seu país e do pai progressista que se dividia entre crenças e valores religiosos dos ancestrais e a África moderna.

William não tinha o direito de frequentar a biblioteca do colégio porque tinha sido expulso da escola: os pais não possuíam os 80 dólares da anuidade escolar obrigatória que permitiriam sua presença nas aulas. O menino se escondia dentro da biblioteca para estudar contando com a cumplicidade da professora/gerente do local, e cuidadosamente se mantinha sentado distante da janela para não ser visto.

Protagonista desta cinebiografia produzida pela BBC em aliança com a Netflix, William hoje é uma das grandes estrelas do streaming. Há uma semana a produtora incluiu o filme no seu catálogo e ele é um grande sucesso, com milhares de acessos.

O ator Chiwetel Ejiofor (do filme Doze anos de escravidão) estreia na direção com esse filme apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema de Berlim deste ano. Ele faz também o pai de William, por sua vez interpretado por um garoto do Quênia estreando como ator, e que se sai bem: Maxwell Simba.

Pode-se dizer que O menino que descobriu o vento é um filme político mesmo que num viés mais frouxo do diretor inglês filho de pais nigerianos.

Bem sucedido, é filme de profissional mesmo sendo uma cinebiografia, aquele gênero de filme que celebra, obrigatoriamente, a trajetória clássica do herói e dourando a pílula de sua trajetória. Não é piegas e vem impulsionado por um ritmo que não perde a mão. Mantém-se na medida certa para mostrar detalhes necessários, para prender a atenção e solicita a reflexão do espectador para temas urgentes, flagelos que assolam o continente africano e sobre os quais as agências de notícias (americanas, europeias) se calam ou distorcem conforme os interesses econômicos e políticos da hora.

No seu pano de fundo é registrada, por exemplo, mesmo que pelas bordas, a apropriação das corporações estrangeiras (europeias, americanas e chinesas) explorando sem trégua as riquezas do continente e das antigas colônias (ex-colônias?) e deixando para trás, depois do estupro, miséria, fome, morte e terrorismo. (No caso da presente história, a devastação ambiental para o cultivo do tabaco no Malawi.)

O filme fala também sobre a farsa de democracia encenada para populações despreparadas e manipuladas por líderes títeres da especulação econômica local. A propósito, uma observação do ‘’pai’’ de William se referindo aos discursos vazios dos candidatos em comício de campanha eleitoral chegando à sua região: “A democracia que nos trazem é como a mandioca que vem de fora. Logo apodrece.”

Mostra sistemas de educação pública que simplesmente não existem ou estão presentes, mas patrocinados por instituições e agremiações também de fora, religiosas e políticas.

O que incomoda no filme de Ejiofor é o viés tóxico apelando para o torpe conceito da meritocracia - conceito sinuoso e caro aos liberais, neoliberais e aos conservadores que aplaudem situações cosméticas e divulgam vitórias individuais com o objetivo de manter o estado das coisas, ou seja, a desigualdade estratificada.

Não fosse pela assistência e apoio com que contou, na sua escola, na biblioteca, na divulgação de seu extraordinário feito em primeira página de um grande jornal americano, William Kamkwamba certamente ainda estaria lá, na sua aldeia, lutando com a terra até hoje - ou engrossando as fileiras de milhares de refugiados que fogem da fome, das secas ou das inundações inclementes da África.

Ejiofor, o diretor, se cala e não explicita no seu filme que legitimizar a meritocracia é legitimizar a desigualdade e lutar contra a mobilidade social. Um tiro, no entanto, que atingiu o próprio pé. Seu filme, de algum modo, reforça o contrário.

*Quarto país mais pobre do mundo segundo o FMI no ano passado.

Trailer:



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