Cinema

É Tudo Verdade: ''A Ponte de Bambu'' e ''Santos Dumont: Pré-cineasta?''

Em Pequim e Paris, dois documentários abordam a presença estrangeira da família Martins e de Santos Dumont

27/09/2020 12:47

''A Ponte de Bambu'' (Divulgação)

Créditos da foto: ''A Ponte de Bambu'' (Divulgação)

 
A China está próxima

Uma ponte de bambu, elemento tradicional da arquitetura asiática, pode denotar fragilidade e instabilidade. Na interpretação dos sonhos, pode significar que ainda não se está pronto para fazer a travessia, mas tem-se a oportunidade de crescer a ponto de fazê-la no futuro. Tudo isso ecoa simbolicamente na história contada por Marcelo Machado em A Ponte de Bambu.

O diretor, oriundo da pioneira produtora de videoarte Olhar Eletrônico e mais conhecido ultimamente pelo documentário Tropicália, voltou-se agora para a família Martins, velhos amigos através dos quais conheceu sua mulher, de origem chinesa. Jaime Martins é um adepto fervoroso do socialismo à moda chinesa desde a época da Revolução Cultural. Jornalista e radialista, foi para a China integrando um grupo de "especialistas estrangeiros" em 1962. Lá criou suas duas filhas, que hoje são intérpretes e trabalham na ponte (não de bambu) político-econômica entre o Brasil e a China.

O filme consolida imagens e relatos da longa amizade entre Machado e os Martins, convidando-os a fazerem um balanço dessa experiência inusitada. A vida dos Martins na China atravessou o período de pobreza extrema, a ascensão e decadência do maoísmo, passou pelo massacre da Praça da Paz Celestial e alcançou o sucesso chinês atual com a economia de mercado. Jaime, o único a permanecer ideologicamente fiel ao modelo, não vê contradição entre as duas fases. Ele é um personagem e tanto, coadjuvado de perto pela mulher e as filhas.

As meninas foram criadas nos rigores da Revolução Cultural, obrigadas a se vestir e se comportar como as crianças chinesas. Festas de aniversário e chicletes, por exemplo, eram abominados pelo pai como coisas de burguês. O amor e a admiração pelo país oriental, contudo, nunca arrefeceram. Entre idas e vindas, com Jaime atuando como jornalista da Radio Pequim e correspondente de jornais brasileiros, a família manteve um laço permanente com a vida chinesa.

A Ponte de Bambu reúne um conjunto extraordinário de cenas de arquivo da China em várias épocas e um acervo familiar único no que diz respeito a brasileiros vivendo naquele país. A narrativa, sempre atraente, só se dispersa um pouco perto do final, quando Machado abre o leque para outros filhos de estrangeiros que se reúnem em Pequim para celebrar suas memórias. Mas isso em nada compromete a excelência com que nos é apresentada essa saga familiar absolutamente singular.

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''Santos Dumont: Pré-cineasta?'' (Reprodução)

Ver, voar, volver

Carlos Adriano não esconde que seu primeiro longa se originou da sua própria tese de doutorado sobre Santos Dumont e a pré-história do cinema. A relativa coincidência entre o surgimento do mutoscópio (1894), as primeiras experiências de Santos Dumont com balões dirigíveis (1898) e a construção da Torre Eiffel (1889) – em torno da qual SD fez voo célebre em 1901 – levaram o cineasta a articular uma série de conexões poético-científicas sobre o desejo de ver e voar. Santos Dumont Pré-cineasta?, realizado em 2010, já se tornou um clássico do documentário de invenção brasileiro.

Um dado vital acabou sendo incorporado pelo filme: a morte do pesquisador e animador cinematográfico Bernardo Vorobow (1946-2009), companheiro e produtor dos filmes de Adriano. As imagens de Bernardo, reiteradas ao longo de todo o filme, sublinham os temas da memória, da desaparição e da reaparição, tão intrínsecos à matéria do cinema. Bernardo, às voltas com uma pequena câmera fotográfica digital no Champs de Mars, cria uma interessante dilatação temporal e tecnológica com as buscas dos pioneiros da imagem em movimento, um século atrás.

Como nunca fizera em seus curtas anteriores, Adriano recorre aqui a depoimentos formais para puxar o fio de seu arrazoado. Ismail Xavier, Eduardo Morettin, Henrique Lins de Barros (biógrafo de SD), Ken Jacobs, curadores e historiadores internacionais comentam em paralelo a curiosidade do aviador e a gênese do cinema, bem como o trabalho contemporâneo com materiais de arquivo. O filme de Adriano, aliás, nasceu de um incrível achado arqueológico: centenas de cartões reproduzindo os fotogramas de um filmete da Biograph londrina, rodado para o mutoscópio em 1901. Nele, Santos Dumont aparece mostrando os desenhos e explicando o funcionamento de um balão. Um minuto precioso e desconhecido, que Adriano e Vorobow restauraram e devolveram à forma fílmica. Este é o elemento detonador de toda uma reflexão que nos leva a ver paralelismos formais entre os mecanismos do cinema e da aviação.

Uma inestimável antologia de imagens pioneiras de Marey, Muybridge, Méliès, Dickson, Cohl e outros complementa o prazer intelectual que esse pequeno longa oferece. Arte e pesquisa se unem e se comentam mutuamente num ensaio fertilizado também pelo aspecto afetivo.






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