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Argentina: a máfia no poder

Beinstein fala da tragédia argentina. Dos tempos obscuros de agora, das ilusões progressistas; da ilusão de democracia, da penúria e da revolta popular

27/12/2017 20:03

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Créditos da foto: Reprodução

 
É de estarrecer a semelhança cada vez mais escancarada, de todos os lances, apenas com pinceladas de cores locais diferentes, entre o golpe político/jurídico aplicado na Argentina pelo governo Macri e o desmonte impressionante de país,  conduzido pelas mãos do golpista daqui e da sua quadrilha, ao qual assistimos como episódios de uma trágica telenovela que diariamente se aprofunda no Brasil. Desmontando, retalhando e transformando o nosso país num debochado bordel risível lá fora.

A leitura do livro eletrônico de 55 páginas (Ediciones Virtuales WaiWen), intitulado Macri, orígenes de una dictadura mafiosa, lançado na internet neste mês de dezembro pelo autor, o professor argentino Jorge Beinstein, da Universidade Nacional de la Plata e atual titular do Seminário de Doutorado Crise Sistêmica Global, da Universidade Nacional de Buenos Aires, é uma análise de leitura obrigatória para professores, acadêmicos, pesquisadores, intelectuais, cientistas, historiadores e público de modo geral. Num texto absorvente e ágil, ele percorre, em inteligente ordem cronológica decrescente de tempo, desde novembro último, no seu prólogo - na verdade um mini ensaio – até o ano de 1981.

Pesquisador de movimentos econômicos e geopolíticos, Beinstein traça as origens do poder político argentino atual, o qual chama, sem cerimônia e com documentação, de mafioso no estrito sentido do vocábulo. Ele esmiúça o conceito de ditadura mafiosa e ressalta o papel inglório da lumpen burguesia latino-americano e das elites econômicas predadoras do continente, que hoje ‘’navegam à deriva’’, na sucessão de golpes perpretados com o objetivo de defender interesses imediatos, sempre com uma visão de mundo de curto prazo e sem qualquer preocupação em assumir compromissos com as populações submetidas às estruturas de governo que detêm sobre elas um controle ‘’tóxico’’midiático.

‘’Um país’’, diz ele, ‘’governado pelo primogênito de um clã mafioso sobre o qual paira a sombra da ndrangheta não é um fato habitual, comum. Soa estranho e se assemelha a um filme inspirado em El padrino* embora a realidade seja muito mais complexa. (...) Macri é uma espécie de primus inter pares ( não sabemos durante quanto tempo), o número um de uma articulação mafiosa que reúne os reais donos do poder.”

Beinstein fala da tragédia argentina. Dos tempos obscuros de agora, das ilusões progressistas – a serem analisadas de peito aberto -; da ilusão de democracia, da penúria e das revoltas populares (em seu país) e se detém na análise da estrutura governamental que controla a mídia através de pressões fiscais e judiciais. “Um poder autolegitimado na sua brutalidade através de um jornalismo mercenário.”

Poderia estar falando sobre o Brasil. Aqui como lá, os shows/linchamentos dos inimigos de oposição; as reformas cruéis e atabalhoadas, os meios de comunicação plural que vão sendo devorados, e as pressões fiscais e judiciais sobre canais de TV, sobre rádios de grande alcance popular, o fechamento, porque passam a ser inviáveis financeiramente, de portais jornalísticos independentes e de produtoras, e a capacitação da polícia em técnicas de prevenção, dissuasão, planificação e execução de ataques em manifestações populares.

À medida que a intoxicação midiática dos cidadãos decresce aumenta a força bruta como instrumento de convencimento, lembra Beinstein. ‘’Hábitos mafiosos vão se instalando e renasce o terrorismo de estado. ‘’

“Recentemente, correu a informação da viagem do Grupo Falcão da Polícia de Buenos Aires aos territórios ocupados por Israel na Palestina onde receberam treinamento da polícia israelense em técnicas repressivas contra população civil. ’’

Para o ‘’império’’, ele escreve, ‘’a queda da Argentina foi uma vitória de grande importância trabalhada durante muito tempo e à qual foi necessário agregar três manobras decisivas no jogo regional: a submissão do Brasil, o fim do governo chavista na Venezuela e a rendição negociada da insurgência colombiana. ’’

Ele ressalta a situação vigente de retrocesso do nível de liderança global dos Estados Unidos, em termos geopolíticos e econômicos, paradoxalmente aos atuais esforços vigorosos para reconquistar passo a passo o seu quintal latino-americano.

Detalhes gritantes da política argentina atual são revelados em Macri, origens de uma ditadura mafiosa, tais como o das ‘’sugestões’’ solicitadas às embaixadas dos EUA e de Israel para apontar nomes para o novo ministério. A representação de Israel emplacou sua candidata, Patrícia Bullrich, para a Segurança. “A segurança argentina hoje se encontra nas mãos de Israel e do Mossad’’, ele denuncia.

 Enfim, o livro eletrônico do professor Beinstein, excelente leitura para o feriado de fim de ano, reúne uma série de textos que são produto de uma reflexão sobre a prolongada degradação da sociedade argentina.

E ele conclui com a ideia – atenção: e isto não é retórica! -  que bem serve ao brasileiro, irmão siamês dos portenhos neste instante sombrio.

Livrar-se do niilismo fascista, diz, que identifica a vontade de viver com ‘subversão’.

‘’Viver ou submeter-se à barbárie, combater um regime injusto, cruel, ou se resignar a morrer cada dia um pouco mais... milhões de argentinos aprendem através de sua dura experiência que os milagres não são deste mundo e que somente uma luta consequente e tenaz poderá abrir o caminho para a liberdade. ’’

Vale para lá e para cá.

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*No Brasil, filme O Poderoso Chefão



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