“Você tem de saber que tem pais e que eles não te abandonaram”

16/05/2011 00:00

Rafael Yohai/Página/12

Créditos da foto: Rafael Yohai/Página/12
Paula Logares tem uma recordação antiga das praias de Mar del Plata, de ter estado uma ou duas vezes ali. Nestas praias aparece uma cena, a imagem de pessoas batendo palmas. Acredita que, certa vez, perguntou a quem supunha serem seus pais o que essas pessoas estavam fazendo. E que, neste momento, lhe explicaram que os aplausos eram porque um menino tinha se perdido e a família estava tentando localizá-lo. “Não me lembro bem – diz Paula agora, milhares de anos depois -, mas acredito que neste momento, eu mesma forjei uma pequena perda, creio que foi assim”.

Houve outras duas vezes nas quais tentou perder-se como se intuísse algo de sua história e de um pai que era subcomissário da brigada de San Justo e, ainda sob a ditadura, aparecia com automóveis da Mercedes Benz porque estava contratado pela empresa. Uma vez ocorreu no pátio, quando ficou olhando para uma porta pequena convencida de que ela poderia levá-la a algum lugar. A outra vez aconteceu perto do Obelisco.
Quem fazia o papel de sua mãe entrou em um hotel, ela ficou atrás e imaginou o que aconteceria se não a seguisse. E fez isso. Não a seguiu. Caminhou alguns metros na direção contrária até que, de repente, sentiu que sua apropriadora a agarrava nos braços.

“Parece-me interessante marcar o fato de que eu não estava tão cômoda ali, desde a perspectiva de uma criança”, diz Paula. “Eu os chamava de papai e mamãe, mas era como se isso não fosse natural, como se eu estivesse de alguma maneira alienada, vivendo uma situação sem vivê-la e, mesmo sim, podia ver os papeis de cada um, algo que não é habitual para uma criança”.

Paula foi sequestrada aos 23 meses de idade, no dia 18 de maio de 1978, no Uruguai, quando um bando a levou com sua mãe, Monica Grinspon, e seu pai, Claudio Logares. Era um feriado e eles estavam descendo de um ônibus e subindo em outro a caminho do parque Rodó. Paula passou os seis anos seguintes com seus apropriadores: Raquel Teresa Mendiondo e Rubén Lavallén, subcomissário de San Justo. Sua avó, Elsa Pavón, percorreu uma longa jornada todos esses anos para encontra-la. Ela a viu uma vez, quando Paula completou seis anos, mas quando quis voltar a vê-la os Lavallén tinham deixado a casa.

As duas contaram a história nas audiências sobre o plano sistemático de roubo de bebês. Elsa falou durante três horas. A sala inteira chorou, os advogados e três dos quatro juízes do Tribunal Oral Federal 6, mal conseguiam disfarçar a emoção. A mulher falou dessa lógica sinistra do “está aqui” e “não está aqui” que reproduzem as voltas de um carrossel. E enquanto o fazia e revivia cada aparição e desaparição, disse o que respondeu quando estava a ponto de encontrá-la: “E se me disserem finalmente que não é ela, não importa: no outro dia, coloco meus sapatos e começo outra vez”.

A reconstrução de Paula
Paula está convencida de que Lavallén conheceu seus pais porque eles passaram pelo centro clandestino da Brigada de San Justo. Os Lavallén a registraram como filha biológica com dois anos menos de idade, como se tivesse nascido mais tarde.

Uma vez, contou, escutou na televisão uma espécie de jogo no qual diziam: socorro e ajuda. “Lembro que fomos (com os Lavallén) brincar na rua, íamos caminhando e quando ele me agarrava eu começava a gritar socorro e ajuda. Era uma brincadeira, mas hoje olho para ela de modo distinto: creio que há brincadeiras e brincadeiras e ninguém sai brincando assim, pedindo socorro e ajuda na rua, sem mais nem menos”.

Dizem que os Lavallén não puderam mudar-lhe o nome, pois quando Paula chegou à casa deles, Paula o repetia constantemente. “Do nome eu não me lembro tanto”, diz Paula, “mas lembro de um jogo que se repetia. Uma dia ela, Raquel, estava com uma vizinha no apartamento e me disseram: “Hoje vamos brincar de te chamar por outro nome”. Nestes momentos, eu me recostava na cama, dava voltas e quando queriam repetir o jogo eu me cansava e ia brincar em outra parte”.

Anos mais tarde, já na casa de sua avó, Paula perguntou se ela tinha ainda sua roupa de bebê. Tinham se passado poucos dias desde a sua recuperação e Paula estava testando-a. Diante de uma imagem das Madres (Mães da Praça de Maio) na televisão, havia dito a sua avó que essas mulheres eram loucas e os filhos terroristas. Agora pedia a roupa. Elsa deu a roupa a ela. Paula disse que, certa vez, fez o mesmo pedido a sua apropriadora. Na primeira vez, a mulher disse que não tinha a roupa porque tinha a doado para crianças pobres. Na segunda vez, disse o mesmo, mas perguntou se ela era egoísta. Na terceira, a chamou de egoísta e lhe deu uma bofetada.

Paula não se lembra. “Lembro que ele batia nela, em geral no banheiro, algumas vezes na minha frente. E lembro também que ela me bateu uma vez. Eu sempre pensei que fosse a única; eu atire um prato de porcelana no chão, tinha cerca de oito anos; só lembro que a olhei e ela não voltou a me bater”.

A busca
Elsa procurou e procurou. Seu sogro disse para ela uma vez: “Já se olhou no espelho, Elsa?”. Ou: “Já viu em que estado está?”. Ele sugeriu que ela abandonasse a busca, que sua neta já estava com outra família. “O que você vai fazer? Vai tirá-la mais uma vez de seus pais?”. Elsa respondeu dizendo o que dizia sempre: que ia continuar e que aqueles não eram seus pais.

Com o tempo, as Avós conseguiram fotos dos Lavallén por meio de uma vizinha que escutou uma discussão. Elsa viu Paula na porta da casa, mas quando tentou voltar encontrou uma placa de “aluga-se” com o apartamento vazio. Dois anos depois, com a abertura democrática e os murais das Avós nas ruas, alguém apresentou outra informação. Paula estava agora a quatro quadras de Chacarita. Elsa viajou todos os dias, desde Banfield, para comprar verduras na frente da casa. Na primeira vez que a viu, teve um choque porque sua neta tinha um uniforme de pré-escola quando já deveria ter um de aluna do ensino primário. Elsa não sabia da mudança de data de nascimento nem do que os psicólogos definiram mais tarde como stress de guerra: desde o sequestro, Paula tinha começado a apresentar atrasos de crescimento.

Um dia a seguiu e descobriu a escola onde estava estudando. Num outro dia pediu a seu marido que se aproximasse da menina para perguntar-lhe nome e sobrenome para a denúncia. Quando seu marido ficou na frente da menina teve a impressão de que ela esteve a ponto de chama-lo de avô. “Minha vó me contou isso depois, mas eu tenho presente outra cena”, disse Paula, “tenho a lembrança de gente que me olhava e que um dia houve alguém que me chamou a atenção e então me lembro que mantive o olhar, era a hora de saída da escola e eu caminhava para o micro-ônibus. Eu olho, sustento o olhar, mas não de forma desafiadora, e sim para ver o que estava acontecendo”.

Paula soube depois que esse era o seu avô. E que neste dia ele ficou preocupado porque não sabia se ela havia percebido algum detalhe de forma instintiva, sobre o qual pudesse contar algo em casa.

Logo após as buscas, chegou a vez a denúncia. Houve juízes que fizeram todo o possível para retardar o encontro. Não ordenaram investigações, não permitiram exames por meio dos quais, apesar da diferença de idade entre as duas Paulas, poderia se saber sua real identidade. Quando o dado finalmente apareceu, houve quem não quisesse entregar a menina até que se resolvesse a questão de fundo da causa. Paula finalmente conheceu sua avó em dezembro de 1987. Ela foi a primeira neta restituída via exame de DNA.

O juiz Andrés D’Alessio, da Câmara de Cassação, apresentou-as: “O lugar era como um castelo com poltronas enormes e uma mesa. Lembro que me apresentaram a minha avó e eu dava voltas ao redor da mesa porque não queria entrar em contato com ela. Ela sentou-se em me mostrou algumas fotos de quando eu era pequena, uma no colo de meus pais e outra eu bebê. O que aconteceu neste momento foi que eu me reconheci em uma destas fotos, dei-me conta de que era eu, porque era uma foto igual às primeiras que fizeram de mim na outra casa. Eu olhei e neste momento não disse nada. E não disse nada por muito tempo”.

Paula tinha oito anos. “Isso explica o meu ceticismo, eu estava lidando com tudo isso um pouco assim, desconfiada. Logo, não sei muito bem como, passei a chorar e a ter sono, e isso não era natural. Queria dormir, como se precisasse descansar, mas não me animava porque não estava seguro onde fazê-lo. Havia uma assistente social, Lembro que me deu um anel e me disse para dormir tranquila: “Durma com o anel e quando acordar você me devolve”. Eu lhe disse que não e pedi o outro anel, que ela tinha na mão, porque imaginava que se ela não tinha me oferecido aquele anel era porque tinha mais valor”.

Tradução: Katarina Peixoto

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