'A Igreja deve dar um basta aos preconceitos contra os gays'

A declaração foi do cardeal brasileiro Cláudio Hummes, que é um caro amigo e o primeiro aliado do Papa Francisco.

18/10/2015 00:00

wikimedia commons

Créditos da foto: wikimedia commons

Últimos instantes do Conclave, 13 de março de 2013. Ao lado do argentino Jorge Mario Bergoglio, estava o brasileiro Cláudio Hummes: “Não tinha preparado nada. A frase “não se esqueça dos pobres” ao novo Papa me veio espontaneamente. O efeito provocado, obviamente não o esperava. Alguns minutos depois, Bergoglio comunicava que o seu novo nome seria Francisco, recordando São Francisco de Assis, o homem dos pobres, da paz, do cuidado, da criação. Creio que toda a assembleia ficou surpresa e feliz por esta escolha, que depois se demonstrou um farol do pontificado”, responde do Brasil o ex-prefeito da Congregação para o Clero, que em menos de dois meses estará em Roma para o Jubileu. Hummes é um caro amigo e o primeiro aliado de Bergoglio. O brasileiro foi arcebispo de São Paulo, o argentino de Buenos Aires: os cardeais sul-americanos mais admirados no Vaticano. Ambos papáveis em 2005. No segundo Conclave, Bergoglio foi eleito.
 
A entrevista é de Carlo Tecce, publicada por il Fatto Quotidiano, 18-10-2015. A tradução é de IHU On-Line.
 
Eis a entrevista.
 
A fumaça branca está longe. Agora acontece o Sínodo sobre a Família e Bergoglio se confronta com os conservadores. Além da carta, há os protestos. Há alguns que querem obstaculizar Francisco?
 
A Igreja é uma comunhão, não uma massa uniforme. Mais. Ela se constitui uma unidade na diversidade.  Certamente, a diversidade não pode resultar numa divisão. Isto seria destrutivo. Mas uma adequada diversidade enriquece a Igreja. Podemos compará-la com uma estrada sinodal. Trata-se de caminhar juntos, para o futuro, com todas as nossas legítimas diferenças, mas sempre na unidade de fé, esperança e amor, para o Pai nos céus, por meio de Jesus Cristo. A diferença de visões e de experiências, no momento do debate sinodal, ajuda a aprofundar as coisas. Mas no fim deve prevalecer a comunhão presidida  pelo Papa, que é o Pastor de toda a Igreja. Todos somos corresponsáveis pela Igreja, mas o Papa é o que foi querido por Jesus como aquele que guia.
 
Voltará a estação dos corvos como nos últimos meses de Ratzinger?
 
Não acredito. Para mim, aquele clima em que aconteceu o Vatileaks, não existe mais. O caso desta carta não significa um retorno daquele clima.
 
Outra notícia recente: para o padre gay Charamsa, a Igreja é homofóbica.
 
Sem entrar no caso citado, não diria que a Igreja é homofóbica. Quando o papa Francisco, no caso do homossexual que busca a Deus, disse “quem sou eu para julgar?”, deu um sinal: a Igreja deve vencer uma atitude preconceituosa neste tema e, sobretudo, deve respeitar estas pessoas.
 
O que a Igreja pode fazer para acolher os divorciados recasados e os casais homossexuais e por que muitos recusam qualquer abertura?
 
Não se trará de negar a indissolubilidade do vínculo matrimonial, mas de buscar um caminho penitencial para os divorciados recasados. Digo: buscar.
 
Existe uma tal possibilidade?
 
É o que a Igreja, no momento, está procurando. Se existe, não se deve refutá-la. Além disso, a Igreja propõe que os casais divorciados apelem ao tribunal eclesiástico para verificar se o casamento foi válido ou não.
 
Quais são os desafios para o pontificado de Bergoglio?
 
Para o pontífice, a relação entre ambiente e desenvolvimento é um ponto fundamental. Este é, seguramente, um dos desafios mais difíceis não somente para a Igreja, mas para a humanidade. A questão não se reduz a um argumento ecologista, mas se apresenta como uma tarefa social, que diz respeito sobretudo à transformação do atual sistema econômico-produtivo-financeiro global. Trata-se de colocar a pessoa humana no centro, e não o dinheiro e o lucro a qualquer custo, inclusive de vidas humanas. O atual sistema devasta o planeta e sacrifica milhões de pessoas.
 
Outro desafio do Papa é reformar a Igreja no sentido de transformá-la numa Igreja missionária, “em saída”, que demole os muros e constrói pontes para andar ao encontro de todos, mas prioritariamente “nas periferias” humanas e sociais e ali anuncia Jesus Cristo e pratica a misericórdia. A misericórdia fará a diferença numa sociedade egoísta, individualista, fascinada pelo dinheiro.
 
Uma misericórdia baseada na justiça social, que defende e promove os direitos de todos aos bens materiais, culturais e espirituais da humanidade. O Papa tem falado dos três ‘t” (terra, teto e trabalho): são direitos dos pobres.
 
O Papa convocou um Jubileu extraordinário. O próximo será em dez anos. Bergoglio ficará até o fim do pontificado ou também poderá renunciar?
 
Espero e rezo a Deus para que o nosso amado Papa tenha um longo pontificado. Todo o resto são especulações. Em geral, considero que a renúncia de um Papa sempre é possível. Mas não vejo o Papa preocupado com o seu futuro.



Conteúdo Relacionado