''A mão que se fecha opaca''

 

03/03/2020 10:39

 

 
Trecho de um poema que de José Ángel Valente “… desde um naufrágio, desde o que destruímos, antes de tudo, em nós mesmos…”.

De fato, destruímos muito em nós mesmos quando conseguimos ver sem reação - e sem indignação! – as imagens dos milhares de refugiados (incluindo crianças e idosos!) na fronteira entre Grécia e Turquia, ou na fronteira entre os Estados Unidos e o México, ou no Mediterrâneo…

Não é possível que esse drama esteja ocorrendo amplamente na Europa. Chamei repetidas vezes a atenção para a frequente violação dos princípios tão lucidamente estabelecidos na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (oficializada em 2000). O primeiro artigo se refere à igual dignidade. O segundo fala do direito à vida… A União Europeia deveria ser, em primeiro lugar, uma união política, social e econômica, dotada de segurança autônoma… mas é apenas uma união monetária. Quem são os decidem reduzir até praticamente o cancelamento da ajuda ao desenvolvimento que tem como fim evitar os fluxos migratórios forçados pela fome e extrema pobreza? E por que o fazem?

Em novembro de 2015, a XV Cúpula de Prêmios Nobel da Paz foi realizada em Barcelona, com a participação de 19 vencedores, nove pessoas e dez instituições. Deste encontro, surgiu a Declaração de Barcelona: Refugiados, o desafio de nossa humanidade, um apelo claro e urgente às medidas necessárias e inestimáveis %u20B%u20Bpara a paz mundial, centradas em quatro desafios que afetam a humanidade como um todo: a ameaça nuclear, a ameaça ao meio ambiente, a insolvência econômica e o fanatismo. Os Prêmios Nobel defenderam o princípio de “desarmamento para o desenvolvimento”, a fim de corrigir as tendências atuais antes que seja tarde demais…

Mais uma vez, as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco no Primeiro Dia Mundial dos Pobres, em novembro de 2017 assumem um valor especial: “o grande pecado da omissão a respeito dos pobres é a indiferença”.

Faço minhas, novamente, algumas palavras de Iñaki Gabilondo: “sabe qual é a coisa mais impressionante sobre esta notícia? É que não é notícia”… Está em nós a capacidade de fazer com que seja notícia… Vamos juntar nossas vozes a manifestos como o do CEAR (Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado), para ajudar os migrantes a receber o tratamento digno que merecem.

Até agora, os cidadãos europeus eram espectadores inertes de tanta incapacidade e incompetência. Mas tenho certeza de que agora “Nós, os povos”… não poderemos continuar olhando nos olhos dessas crianças tristes, angustiadas e perplexas que despertam emoções, e despertam também as consciências, para que, em pouco tempo, um grande clamor popular seja despertado, em favor de uma mudança radical nos comportamentos atuais da União Europeia, dos líderes do mundo – em particular do presidente Donald Trump –, dos grandes grupos financeiro de mídia, de energia e de armamentos, dos bilionários que não se lembram “que as mortalhas não têm bolsos”…

Todos os dias, quando acordamos, devemos pensar no olhar dessas crianças refugiadas e emigrantes nos quais estamos plantando sementes de animosidade e ódio. A cada amanhecer, devemos sentir a ferida dos milhares de seres humanos que morrerão hoje pela fome e pelo desamparo. Homicídio oculto, que a mídia não nos mostra como deveria. Embora não pareça assim, por causa das notícias, tão discriminatórias e desproporcionais, no fundo, todas as vidas valem o mesmo, e todas as mortes valem o mesmo.

“Essa criança faminta dói como um grande espinho”, escreveu Miguel Hernández… e devemos sentir: “vergonha de ter perdido a vergonha”, como afirmou o Papa Francisco no final da oração da Via Sacra de 2018…

Para sair da ansiedade e do naufrágio em que nos encontramos, unamos mãos e vozes para formar um grande clamor, cara a cara e no ciberespaço, derrubando muros e cercas, e construindo pontes.

A acolhida aos refugiados é um direito humano. A ajuda aos mais necessitados é uma obrigação ética essencial. Somente o multilateralismo – “Nós, os povos”, como no começo tão lúcido da Carta das Nações Unidas – será capaz de iluminar os atuais horizontes sombrios, e somente a cooperação internacional poderá nos livrar do naufrágio.

Federico Mayor Zaragoza é doutor em Farmácia pela Universidade Complutense de Madrid, foi ministro de Educação e Ciência da Espanha, entre 1981 e 1982). Também foi diretor-geral da Unesco entre 1987 e 1999. Atualmente, é presidente da Fundação para uma Cultura de Paz

*Publicado originalmente em 'Other News' | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado