Os interrogatórios de Assange - Dia 17

 

29/09/2020 13:09

(Jack Taylor/Getty Images)

Créditos da foto: (Jack Taylor/Getty Images)

 
Durante a audiência de evidências médicas nos últimos três dias, o governo britânico foi pego duas vezes diretamente contando mentiras importantes sobre eventos na prisão de Belmarsh, cada mentira comprovada por evidências documentais. O fator comum tem sido os registros médicos mantidos pela Dra. Daly, chefe dos serviços médicos da prisão. Houve também, para dizer do modo mais leve possível, uma aparente deturpação pela Dra. Daly. Pessoalmente, eu sou cauteloso com o tipo de pessoa que impressiona Ross Kemp [um documentarista].

Aqui está uma imagem da Dra. Daly do documentário de Ross Kemp sobre a prisão de Belmarsh:



Esta é a descrição do Sr. Kemp da ala médica em Belmarsh: "A segurança está em outro nível aqui com seis vezes mais pessoal por presidiário do que no resto da prisão."

Durante sua permanência na ala médica ou ala de "saúde", Julian Assange esteve, efetivamente, em confinamento solitário. Três psiquiatras e um médico, com vasta experiência em tratamento de traumas, testemunharam no tribunal que a condição mental e física de Assange se deteriorou enquanto ele ali esteve, por vários meses. Também disseram que ele melhorou depois que deixou a ala de "saúde". Isso diz algo profundo sobre a qualidade da “saúde” que está sendo fornecida. Os mesmos médicos testemunharam que Assange tem uma relação ruim com a Dra. Daly e que não confiaria seus sintomas ou sentimentos a ela, e isso também foi afirmado pelo Conselho de Defesa.

Isso é tudo um pano de fundo essencial para as mentiras. Agora deixe-me passar para as mentiras. Infelizmente, para isso, devo revelar detalhes da condição médica de Julian que eu tinha retido, mas acho que a situação é tão séria que agora devo fazer isso.

Não informei que o Professor Michael Kopelman deu provas de que, entre outros preparativos para o suicídio, Julian Assange havia escondido uma lâmina de barbear em sua cueca dobrada, mas isso foi descoberto em uma busca em sua cela. Como eu reportei, Kopelman foi submetido a um interrogatório extremamente agressivo por James Lewis, que pela manhã tinha focado na noção de que a doença mental de Julian Assange era simplesmente uma simulação, e que Kopelman tinha falhado em detectar isso. A lâmina de barbear foi um fator-chave na intimidação que Lewis despejou sobre Kopelman, e ele o atacou lançando mão desse evento repetidas vezes.

Lewis afirmou que Kopelman "confiava" na história da lâmina de barbear para seu diagnóstico. Ele, então, começou a retratar a história como uma fantasia inventada por Assange para apoiar sua simulação. Lewis perguntou a Kopelman repetidamente por que, se a história era verdadeira, não estava nas notas clínicas da Dra. Daly. Certamente se um prisioneiro, conhecido por ser depressivo, tivesse uma lâmina de barbear encontrada em sua cela, estaria nos registros médicos da prisão. Por que o Prof. Kopelman não notou em seu relatório que não havia provas para a lâmina de barbear nos registros médicos da Dra. Daly? Ele estava escondendo essa informação? Não era muito estranho que este incidente não estivesse nas notas médicas?

Na tentativa de humilhar Kopelman, Lewis disse

"Você diz que não depende da lâmina de barbear para o seu diagnóstico. Mas você depende, sim. Vamos dar uma olhada em seu relatório. Você depende da lâmina de barbear no parágrafo 8. Você a mencionou de novo no parágrafo 11a. Então 11c. Em seguida, parágrafo 14, parágrafo 16, 17b, 18a. Então chegamos à próxima seção e a lâmina de barbear está lá nos parágrafos 27 e 28. Em seguida, novamente no resumo está nos parágrafos 36 e novamente no parágrafo 38. Então me diga, professor, como você pode dizer que não depende da lâmina de barbear [NT para seu diagnóstico]?

[Os números dos parágrafos não são reais, são apenas ilustrativos].

Lewis então passou a convidar Kopelman para mudar seu diagnóstico. Ele perguntou-lhe mais de uma vez se seu diagnóstico seria diferente se não houvesse lâmina de barbear e fosse uma invenção de Assange. Kopelman ficou claramente nervoso com este ataque. Ele concordou que era "muito estranho de fato" que o evento não ser mencionado nas notas médicas se era verdade. A crítica, do advogado da acusação, que ele tinha ingenuamente acreditado em uma óbvia mentira [de Assange] desconcertou Kopelman.

Exceto que era Lewis que não estava dizendo a verdade. Havia realmente uma lâmina de barbear escondida, e o que Assange tinha dito a Kopelman, e o que Kopelman acreditava, era verdade em cada detalhe. Em uma cena diretamente de um drama legal de TV, durante o depoimento de Kopelman, a defesa conseguiu obter a ficha de acusação de delito da prisão de Belmarsh – Assange havia sido acusado pela posse da lâmina de barbear. A ficha é datada de 09:00 em 7 de maio de 2019, e é isso que diz:

“Diretor,

 No dia 05/05/19, aproximadamente às 15:30, eu e o oficial Carroll estávamos realizando uma busca de rotina em 2-1-37, ocupado exclusivamente pelo Sr. Assange A9379AY. Ele foi perguntado antes de começarmos a busca se tudo na cela pertencia a ele, ao que ele respondeu "Ao meu conhecimento sim". Durante o processo desta busca eu levantei um par de cuecas pessoais dele enquanto vasculhava o armário. Quando os levantei, ouvi um objeto de metal cair dentro do armário. Quando investiguei o que era, vi metade de uma lâmina de barbear que estava escondida na cueca pessoal dele. Isso já foi colocado no saco de evidências número M0001094.

Concluo assim o meu relatório.

Assinado

Oficial Locke “

Mais tarde me mostraram uma cópia e tirei uma foto rápida:



Quando na terça-feira Edward Fitzgerald QC mostrou esta ficha de acusação no tribunal, não pareceu ser novidade para a acusação. James Lewis QC entrou em pânico. Muito rapidamente, Lewis saltou de seu lugar e pediu à juíza que fosse registrado que ele nunca tinha dito que não havia lâmina de barbear. Fitzgerald respondeu que não era a impressão que tinha sido dada. Do banco das testemunhas e sob juramento, Kopelman afirmou que não era a impressão que Lewis tinha passado a ele também.

E certamente não foi a impressão que eu tive na galeria pública. Ao afirmar repetidamente que, se a lâmina existisse, estaria nas notas médicas, Lewis tinha, no mínimo, enganado a testemunha sobre uma questão material de fato, que realmente afetou seu depoimento. E Lewis tinha feito isso precisamente para afetá-lo.

Em pânico, Lewis então levou seu jogo ainda mais longe, fazendo a afirmação desesperada de que a acusação de delito contra o Sr. Assange, pela posse da lâmina, tinha sido rejeitada pelo diretor do presídio. Então a acusação definitivamente sabia mais sobre os fatos em torno da lâmina de barbear do que a defesa.

Baraitser, que estava ciente de que este foi uma grande trombada, agarrou-se na mesma tábua de salvação que Lewis estava se agarrando em desespero, e disse que se a acusação tinha sido descartada, então não havia provas de que a lâmina de barbear existia. Fitzgerald apontou tratar-se de um absurdo. A acusação pode ter sido retirada por inúmeras razões. Não havia dúvida sobre a existência da lâmina. Julian tinha atestado isso, assim como dois carcereiros. Barait disse que ela só poderia basear seu ponto de vista na decisão do diretor.

Por mais que Baraitser tente esconder o fato, Lewis atacou Kopelman sobre a existência da lâmina, em seguida deixou claro que sabia muito bem, durante o tempo todo, que havia evidências convincentes de que a lâmina existia. A tentativa de Baraitser de proteger Lewis e a acusação, fingindo que a existência da lâmina depende do resultado da acusação subsequente, quando todas as três pessoas na cela no momento da busca concordaram com sua existência, incluindo Assange, é talvez, até o momento, o mais notável abuso do processo legal da juíza Baraitser.

Após seu depoimento, saí com o professor Kopelman para tomarmos um gin tônica, ele é um velho amigo. Nós não tivemos nenhum contato durante dois anos, precisamente por causa de sua participação no caso de Assange como perito médico. Michael estava muito preocupado que seu desempenho não tinha sido muito bom, na sua sessão de depoimento na manhã, embora tenha podido responder mais claramente à tarde. E sua preocupação com a sessão da manhã era porque tinha ficado desconcertado com a questão da lâmina de barbear. Ele tinha ficado com o claro entendimento de que Lewis tinha dito que não havia nenhuma lâmina nos registros da prisão e ele, consequentemente, tinha sido iludido por Julian. Se tivesse sido iludido, naturalmente seria uma falha profissional e Lewis tinha sido bem sucedido em lhe causar ansiedade enquanto estava no banco das testemunhas.

Eu devo deixar claro que, nem por um momento, acredito que o lado do governo não estava ciente, durante todo o tempo, que o evento da lâmina de barbear era real. Lewis interrogou usando notas preparadas detalhadamente sobre a lâmina e com todas as referências a ela tabuladas no relatório de Kopelman. O fato de que isso foi realizado pela promotoria sem perguntar à gerência da prisão se o incidente era verdade, desafia o bom senso.

Na quinta-feira, Edward Fitzgerald entregou a Baraitser o registro da audiência na prisão onde a acusação pela posse da lâmina foi discutida. Era um longo documento. A decisão do governador estava no parágrafo 19. Baraitser disse a Fitsgerald que não podia aceitar este documento, uma vez que era uma nova evidência. Fitzgerald disse que ela própria tinha perguntado sobre o desfecho da acusação. Ele disse que o documento continha informações muito interessantes. Baraitser disse que a decisão do governador estava no parágrafo 19, que era tudo o que ela havia pedido, e ela se recusaria a levar o resto do documento em consideração. Fitzgerald disse que a defesa pode desejar fazer um pedido de apresentação formal do documento.

Eu não vi este documento. Com base nos pronunciamentos anteriores de Baraitser, estou bastante seguro de que, desta forma, ela está protegendo Lewis.

No parágrafo 19, a decisão do governador provavelmente rejeita as acusações de delito contra Assange pela posse da lâmina, como Lewis disse. Mas os parágrafos anteriores, que Baraitser se recusa a considerar, quase certamente deixam claro que a posse da lâmina de barbear por Assange era indiscutível e muito provavelmente explica sua intenção de usá-la para o suicídio.

Então, para citar o próprio Lewis, por que isso não estaria nas notas médicas da Dra. Daly?

Mesmo com essa história surpreendente, não considerei suficientemente poderosa para justificar a publicação dos alarmantes detalhes pessoais sobre Julian. Mas então aconteceu de novo.

Na manhã de quinta-feira, o Dr. Nigel Blackwood, professor de psiquiatria forense do Kings College de Londres, deu seu depoimento para a acusação. Ele essencialmente minimizou todos os diagnósticos de doença mental de Julian e contestou que ele tivesse doença de Asperger. No decurso desta minimização, ele afirmou que quando Julian foi admitido na ala de saúde em 18 de abril de 2019, não tinha sido por qualquer motivo médico. Tinha sido puramente para isolá-lo de outros prisioneiros por causa de um vídeo, em que Assange foi gravado, divulgado por um prisioneiro.

Fitzgerald perguntou a Blackwood como ele sabia disso, ele disse que a Dra. Daly havia lhe falado para seu relatório. A defesa agora apresentou outro documento da prisão que mostrava que o governo estava mentindo. Era um relatório do pessoal da prisão datado das 14h30 do dia 18 de abril de 2019 e dizia especificamente que Julian estava “muito deprimido” e com impulsos suicidas incontroláveis. O documento sugeria transferi-lo para a ala médica e mencionava um encontro com a Dra. Daly. Julian foi de fato transferido naquele mesmo dia.

Fitzgerald disse a Blackwood que Assange foi claramente transferido para a ala médica por motivos médicos. Seu depoimento estava errado. Blackwood continuou a afirmar que Assange foi transferido apenas por causa do vídeo. As notas médicas da Dra. Daly não diziam que ele foi transferido por motivos médicos. A juíza repreendeu Fitzgerald por usar a palavra "bobagem", embora ela tivesse permitido que Lewis fosse muito mais duro do que isso com as testemunhas de defesa. Fitzgerald perguntou a Blackwood por que Assange seria transferido para a ala médica por causa de um vídeo feito por outro prisioneiro. Blackwood disse que o diretor do presídio achou o vídeo “embaraçoso” e estava preocupado com “danos à reputação” da prisão.

Então, vamos dar uma olhada nisso. A Dra. Daly não colocou nas notas médicas que Assange havia escondido uma lâmina em sua cela para se suicidar. A Dra. Daly não colocou nas notas médicas que, no mesmo dia em que Assange foi transferido para a ala médica, uma reunião da equipe havia dito que ele deveria ser transferido para a ala médica devido a impulsos suicidas incontroláveis. Em seguida, Daly conta a Blackwood uma história claramente implausível sobre as razões para a remoção de Assange para a ala médica, para ajudá-lo a minimizar a condição médica de Assange.

Ou vejamos a história alternativa. A história oficial é que a unidade de saúde - para citar Ross Kemp onde “a segurança é de outro nível” - é usada para confinamento solitário, para manter prisioneiros em isolamento por razões inteiramente não médicas. Na verdade, para evitar "constrangimento", para evitar "danos à reputação", Assange foi mantido em isolamento na "área de saúde" durante meses enquanto, de acordo com quatro médicos, incluindo neste ponto até Blackwood, sua saúde se deteriorou por causa do isolamento. Enquanto estava sob os “cuidados” da Dra. Daly. E essa é a história oficial. O melhor que eles podem dizer é "ele não estava doente, nós o colocamos na ala de ‘saúde’ por razões totalmente ilegítimas como punição". Para evitar “constrangimento” se os prisioneiros tirassem fotos dele.

Vou escrever à juíza Baraitser solicitando uma cópia da transcrição de Lewis no interrogatório do professor Kopelman sobre a lâmina de barbear, com o objetivo de denunciar Lewis ao Conselho da Ordem. Eu me pergunto se o Conselho Geral de Medicina não teria motivos para considerar a prática da Dra. Daly neste caso.

A última testemunha foi a Dra. Sondra Crosby, a médica que tratava de Julian desde seu tempo na Embaixada do Equador. A Dra. Crosby me pareceu uma pessoa maravilhosa e embora suas evidências fossem muito convincentes, novamente não vejo nenhuma razão forte para revelá-las.

No final dos procedimentos de quinta-feira, houve duas declarações de testemunhas lidas muito rapidamente para o registro. Na verdade, isso foi muito importante, mas passou quase despercebido. John Young, do cryptome.org, deu provas de que o site Cryptome publicou os cabos não editados em 1 de setembro de 2011, crucialmente um dia antes de o Wikileaks publicá-los. O site da Cryptome está sediado nos Estados Unidos, mas eles nunca foram abordados pelas autoridades sobre esses cabos não editados de forma alguma, nem solicitados a retirá-los. Os cabos permaneceram online no site.

Da mesma forma, Chris Butler, gerente do Internet Archive, deu evidências de que cabos não editados e outros documentos confidenciais estavam disponíveis na máquina Wayback. Eles nunca foram convidados a derrubá-los, nem ameaçados de serem processados.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli



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