1981: um encontro marcante com Dom Pedro Casaldáliga

 

05/08/2020 13:01

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
São Félix não possuía porto de atracação. A mesma tábua foi posta para que os passageiros deixassem o barco, apenas nós e um monte de coisas, carga de mantimentos para a cidade que foi sendo assim retirada. Uma rua longa de casas de comércio, pequenos galpões e mesmo moradias margeava o rio. Não era uma cidade muito pequena. Talvez umas dez travessas saíam dessa principal beira-rio adentrando ao povoado 4 ou 5 quadras adentro. Não que fosse necessário algum transporte para percorrer a cidade, mas, como sempre, carros, embora desta feita muito poucos em comparação com São Miguel, andavam por suas ruas de terra amarela. Não era fácil chegar de carro em São Félix.

Saímos em busca de Dom Pedro imediatamente. A tarde já caia e não tínhamos onde dormir. Por algumas indicações, encontramos facilmente sua casa um pouco afastada do rio, mas ainda dentro da cidade. Todos o conheciam. Batemos na porta da casa pintada de amarelo, simples. Ele não estava. Uma senhora gordinha com sua blusa florida e vestido surrado azul gentilmente nos atendeu. Dom Pedro estava fora. Sem muito perguntar nos apontou a direção do centro Comunitário. Tínhamos onde dormir.

O alojamento era grande, dois amplos quartos mais elevados sobre o nível do chão serviam para hospedar homens e mulheres em separado. Uma grande varanda à frente unia tudo, inclusive os banheiros feminino e masculino, com três chuveiros cada. À frente havia um pequeno campo de futebol e do outro lado uma casinha que servia de refeitório, onde almoçaríamos e jantaríamos por todo o tempo que lá ficássemos. A chuva molhava tudo. Como estava vazio, nos alojamos em um dos quartos, os dois juntos subvertendo a separação sexual, tomando duas camas de baixo (embora usássemos apenas uma) dentre cerca de 5 beliches dispostos em filas. Não que não aparecesse ninguém ou que ficasse desocupado todo esse espaço. Nós é que estávamos viajando pelo lugar fora da época normal. Neste tempo de chuvas, inverno na região, apenas paulistas desavisados como nós tentariam andar por lá. Jantamos o típico: arroz, abóbora e carne de panela, feitos por outra senhora simpática, mas de poucas palavras, não sei se por desconfiança ou costume.

Não acordamos muito cedo naquela manhã. Não havia muita coisa para fazer a não ser tomar café com biscoitos no horário previsto. O alojamento serve às pessoas que visitam Dom Pedro ou vêm ao lugar para pesquisar sobre os índios ou sobre os conflitos sociais que assolam uma região de fronteira agrícola naquela parte do Mato Grosso e se instalaram ali, às portas da floreta amazônica; ou antropólogos que vinham estudar remanescentes de tribos indígenas em vias de extinção já aglomeradas, em frente, do outro lado do rio, na reserva indígena criada na ilha do Bananal, também expulsas de seus habitats originais pelo dito ‘progresso’ trazido pelos novos fazendeiros em migração do Paraná; também abrigava missionários, às vezes perdidos em sua busca de si mesmos, que não vinham pregar nada, mas com uma intenção superior de trazer algum alento, remédios, medicina, a todo esse grupo que vive embrenhado em pequenas clareiras da floresta ou em novas aldeias na Ilha do Bananal sem qualquer recurso. Alguns desses diferentes tipos passaram por lá rapidamente durante os 10 dias que permanecemos em São Félix.

Nós estávamos ali por motivos mais vagos. Eu como estudante do primeiro ano de economia queria conhecer tudo isso, olhar para essas coisas procurando, de uma forma ingênua, me envolver com o mundo desses embrenhados na floresta, vivendo do básico e para o básico, mas constantemente ameaçados em sua tênue e frágil hipótese de vida que nada tinha do romantismo de Thoreau. Eu queria conhecer o trabalho de Dom Pedro, passar e olhar para os lugares em que seis anos antes havia ocorrido a mais famosa guerrilha de estudantes sulistas que, como eu, acreditavam na possibilidade de um outro mundo. O fato é que Dom Pedro representava para mim alguém que está metido nessa realidade concreta e por isso deve ser escutado em silêncio. Eu com meus 19 anos de idade não sabia exatamente o que encontraria, mas queria escutar alguém de dentro, alguém que já há muito encara de frente e com a mão na massa as questões sociais e econômicas em que todos nós estamos de uma forma ou de outra metidos.

Nessa manhã nos avisaram que chegaria Dom Pedro do interior, de uma de suas viagens a esses recônditos mais distantes só alcançáveis por estradas de chão de difícil acesso a qualquer veículo. Por isso caminhamos em direção à sua casa pelas ruas enlameadas de São Félix do Araguaia, de sandálias havaianas e com a calça jeans dobrada na barra para evitar que se sujasse toda, desviando das poças de água que se formavam pelas chuvas. Havia chovido como naquela época do ano acontece constantemente, com pequenos períodos de trégua, mas com um céu quase que permanentemente nublado. Ao contrário do que se poderia imaginar, não estava quente devido à barreira de nuvens grossas que impediam que o sol abrasante amazônico nos torrasse.

A casa de Dom Pedro era simples, de frente para a rua e estava com as janelas e portas abertas desta vez, demonstrando que ele estava em casa. Sua casa em nada se diferenciava das vizinhas inclusive na cor amarela e nas portas de janelas de madeira simples sem qualquer trabalho, com fechamento de tramela. Era uma casinha de três cômodos com uma mesa de madeira rústica no centro da sala. De lá se podia ver à esquerda o quarto de Dom Pedro com uma rede pendurada por sobre a cama. À frente com o olhar atravessando a porta diretamente ligada à sala estava a cozinha com um tradicional fogão à lenha de cimento vermelho. A senhora já lhe havia anunciado que estávamos ali em sua procura. Fomos convidados a nos sentar à mesa à espera de Dom Pedro. Alguns minutos no silêncio dos zumbidos das moscas adentra à sala aquele senhor de estatura média, extremamente magro de cabelos lisos brilhantes de tão brancos, óculos quadrados de aro dourado, revelando talvez algo em torno dos 50 anos, muito ativo e simpático.

Talvez fosse perceptível que éramos estudantes com um monte de dúvidas e uma baita vontade de conhecer e de procurar entender. Perguntou-me ainda em pé o que eu e minha linda companheira viéramos fazer por essas bandas. Um sentimento de vazio e pequenez me invadiu como se eu não soubesse o que dizer, como se nada houvesse de importante no fato de eu estar ali. Sentia-me vazio e pequeno diante da enormidade de questões e problemas reais que aquele homem encarava diariamente. O que poderia um simples e incauto estudante de São Paulo querer daquele senhor calejado e extremamente seguro de seu papel no mundo, um menino de 19 anos, filho de uma burguesia falida de industriais paulistas? Balbuciei algumas explicações talvez desconexas, mas tentando refletir minha sede de saber, talvez de saber o que ainda queria conhecer. Ele, ainda em uma simpatia prática e áspera, sem muito dizer, mas com sagaz percepção da situação, rumou a outro cômodo no fundo da casa. Voltou com dois livros nas mãos e me disse: “leia esses livros e depois conversamos”. E ainda completou com uma simpatia resoluta: “hoje haverá missa às 18 horas e eu quero que vocês compareçam”.

Saí daquele encontro meio desconcertado, mas ao mesmo tempo feliz. De fato, o que eu poderia conversar com aquele homem? Não havia o que falar, eu apenas poderia escutá-lo, mas sem saber ao certo o que se deve perguntar ou até mesmo perceber qual a importância das coisas que ele poderia me dizer. Seria talvez de fato uma completa perda de tempo para ambos. Só somos capazes de compreender aquilo que minimamente nos faz sentido a partir do que sabemos. Teria muito pouca produtividade nossa conversa e, ele apenas perderia seu tempo. Na mesma hora que retorno ao alojamento, pus-me sentado em uma cadeira na varanda a devorar rapidamente os livros “Os camponeses e a política no Brasil” e “Expropriação e violência”, ambos do sociólogo José de Souza Martins que havia estado em São Félix para trabalhar aqueles temas.

Às 18 horas estávamos na igreja. Pequena, com seu altar amarelado da terra, humilde. Sentamo-nos tímida e silenciosamente no banco de madeira simples, sem encosto, meio ao fundo. Eu não tinha qualquer afinidade com a vida religiosa institucional católica, pelo menos aquela que conhecia da classe média paulistana que costuma repetir frases teoricamente bíblicas sem se importar muito com o significado, mecanicamente, todos os domingos, e que entram da mesma forma que saem das missas como se essa ação não passasse de um lapso de tempo em busca de garantir algo no além que não se sabe muito o que é, mas que lhes conforta para continuar agindo no mundo real, da mesma forma, semana a semana.

A igreja de Dom Pedro estava cheia de trabalhadores e trabalhadoras rurais de mãos grossas, talvez umas 30 pessoas. Não haviam colocado a melhor roupa para missa como fazem nas cidades do sul, ou talvez não tivessem roupa melhor, mas claramente isso não tinha qualquer relevância. Parecia um encontro que tomava parte do cotidiano comunitário das pessoas, em um lugar que elas pareciam ir com um fim concreto específico. Após os prolegômenos normais de qualquer missa, iniciou-se o encontro real. Dom Pedro ainda à frente nos apresentou ao público, explicando melhor do que eu conseguira o que estávamos fazendo na região. Pediu que nós nos apresentássemos em pé. Isso trouxe a todos e a nós mesmos um sentimento de confiança mútua, muito importante para aquele tipo de relações em um ambiente tão hostil politicamente como era o Araguaia apesar do fim da guerrilha, mas latente de conflitos de terra. A partir daí iniciou-se a verdadeira missa, como uma assembleia real em que eram discutidos abertamente por todos os problemas da comunidade; grupos se deslocavam à frente, um após outro levantando questões que eram debatidas por todos, problemas da comunidade, dos agricultores, das terras griladas, de expulsões, das condições das estradas, a relação com os índios. Problemas não faltavam. Talvez essa fosse a verdadeira função daquele local, essa ligação com a comunidade.

À noite já caia e a chuva mais uma vez dava uma trégua. Raramente chovia mais do que uma pancada, mas era o suficiente para garantir que as ruas de terra nunca secassem. Não é à toa que carros não chegavam mais à cidade. Era impossível o acesso e as estradas já estavam fechadas, em alguns pontos, tomadas pelas águas. Até havíamos pensado em visitar junto com Dom Pedro alguma das aldeias com as quais ele trabalha, mas já nos haviam avisado que ninguém sairia de São Félix para o interior até que a estação de chuvas cessasse. Voltar para casa com aqueles pensamentos e com a forte sensação de que havíamos participado de algo interessante e inusitado. Não dava para ver as estrelas. A noite estava fresca.

Sentei-me logo cedo na varanda diante do campinho de futebol para ler os livros recomendados. Devorei os dois livros em dois dias. Um deles descrevia minuciosamente a forma de expansão da fronteira agrícola no Brasil, o processo que se repete pela expulsão dos pequenos agricultores posseiros para uma nova fronteira pela chegada dos fazendeiros nas terras já abertas por esses posseiros. Por sua vez, esses pequenos agricultores expulsos eram obrigados a seguir com suas famílias ocupando terras indígenas, abrindo uma nova roça de subsistência. O mecanismo do conflito estava posto, fazendeiros contra posseiros e estes contra índios. Uns empurrando os outros para dar lugar finalmente às grandes fazendas de gado que mais tarde viriam a ser de sojicultores, já com a zona de conflito jogada mais adentro na floresta amazônica. Também narrava a forma da abertura ou derrubada da floresta das novas fazendas dado que os antigos posseiros não derrubavam mais do que uma clareira no meio da mata para usar como conseguissem com seu próprio trabalho e de sua família. Já os fazendeiros que vinham em seguida tinham que derrubar grandes extensões de mata e por isso contratavam os chamados gatos que se responsabilizavam pela atividade de arregimentar trabalhadores, quase em regime de escravidão, para passarem uma semana, às vezes muito mais, derrubando a mata no meio do nada, dormindo em barracas de lona nos acampamentos. Essa era a história que se repetia e que eu veria na região, descrita em “Expropriação e Violência”.

O segundo livro tratava das lutas sociais no campo no Brasil. Contava a história dos movimentos, das revoltas camponesas que pouco são tratadas como luta pelo direito à terra e muito mais como messianismo e bandidagem. Abordava a lógica das revoltas de camponeses com o Cangaço e o papel de Antônio Conselheiro em Canudos. Levanta os principais movimentos históricos brasileiros como verdadeiras tentativas de revolução ou luta pela terra até então. A ocupação não havia, desde sua origem, seguido um sistema em que os expulsos haviam simplesmente se deslocado para a floresta adentro. Em outros momentos, haviam se organizado em guerras importantes, mesmo que no final fossem derrotados. Talvez fossem essas histórias que os novos guerrilheiros do Araguaia tinham em mente. Buscar de alguma forma a organização desses grupos de posseiros deslocados para uma nova revolta.

Não havia mais muito a falar com Dom Pedro. Havia de certa forma compreendido o que ele fazia nessa região, sua luta pela terra para os pequenos agricultores e a questão central dos conflitos. Mal sabia eu naquela época que nada mudaria em tantos anos após essa passagem. Ao contrário, aquela região se tornaria um centro produtor de soja para exportação, tantos anos depois dessa minha pequena passagem e o conflito apenas mergulharia na floresta virgem e nas reservas indígenas mais distantes. Dom Pedro apenas me perguntou quando, após a leitura, retornei à sua casa para almoçar: “entendeu”? “Agora converse com as pessoas que encontrar, que, mais do que entender, você verá”. Meus pensamentos não parariam durante toda a viagem e nunca mais me abandonariam em meus estudos. Talvez por isso tudo é que fico irritado quando escuto grandes ecologistas paulistas defendendo a floresta Amazônica sem qualquer conhecimento do enorme problema social que representa, buscando defender apenas os bichos e árvores que lá vivem sem tomar em consideração as dezenas de famílias que brigam por um pedaço de terra suficiente para trabalhar e retirar seu sustento de seu próprio trabalho jogadas contra os índios, num processo destrutivo em todos os sentidos.

Rubens Sawaya é Professor e Coordenador do Programa de Pós-graduação em Economia Política da PUC-SP e Membro da coordenação da ABED – São Paulo



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