35 anos depois, documentos comprovam morte na ditadura

24/06/2004 00:00

Lenita Silva/Revista Imprensa

Créditos da foto: Lenita Silva/Revista Imprensa

São Paulo – Gilberto da Cruz, Emílio Máttar, Roberto A. Magalhães e Paulo Augusto de Queiroz Rocha. Onde estão esses homens? Hoje, eles são a única pista que a família de Virgílio Gomes da Silva tem para tentar encontrar seu corpo, desaparecido há 35 anos. Virgílio, operário da indústria química e militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso pela ditadura militar em setembro de 1969 e nunca mais visto. Nesta quinta-feira (24), o Grupo Tortura Nunca Mais divulgou em São Paulo documentos encontrados no Arquivo do Estado que comprovam o assassinato de Virgílio por tortura nas dependências da Operação Bandeirantes (o DOI CODI-SP), no dia 29 de setembro de 1969. Roberto A. Magalhães e Paulo Augusto de Queiroz Rocha são os médicos que assinam o laudo do Instituto Médico Legal, datado de 30 de setembro, que atesta a morte do militante. Gilberto da Cruz e Emílio Máttar trabalhavam na época na Divisão de Identificação Civil e Criminal da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública, sendo que o delegado Máttar era o diretor do órgão, que identificou o cadáver desconhecido como sendo o do preso político.

Os documentos divulgados nesta quinta foram encontrados no meio de 180 mil pastas pelo jornalista e escritor Mário Magalhães, durante pesquisas que realizava para o livro que está escrevendo sobre a vida de Carlos Marighella e da ALN. As informações até hoje secretas sobre o destino de Virgílio Gomes da Silva estavam “perdidas” no meio de dossiês que tratavam da atuação dos freis dominicanos durante a ditadura. Sobre tais papéis, um aviso manuscrito com a frase “Os símbolos 30-Z-160-4820, 4821, 4819 e 4918 não podem ser informados”. Na opinião da família, esta é uma prova de que houve uma ordem para o desaparecimento do corpo e o não comunicado da morte de Virgílio aos familiares.

Com o codinome de Jonas, Virgílio foi uma das lideranças na luta contra a ditadura militar no Brasil. Ele coordenou o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, posteriormente trocado por 15 presos políticos, entre eles o Ministro da Casa Civil, José Dirceu. Preso pouco tempo depois do sequestro, Virgílio foi o primeiro brasileiro dado como "desaparecido" no processo da ditadura, depois da edição do AI-5 (Ato Institucional número 5). Esta foi a versão oficial dada pelo Estado. Em 1995, Ilda Martins da Silva, sua esposa, recebeu o atestado de óbito do marido, por morte presumida por desaparecimento. Mas os papéis que comprovavam a morte do preso político existem há 35 anos – e sempre estiveram sob poder do Estado. A descoberta desses documentos vira de ponta cabeça a história oficial contada pelo país sobre o destino de seus desaparecidos políticos.

“Desde que meu pai morreu existe um laudo e nós só ficamos sabendo disso agora. Para mim, ele morreu esta semana, por isso estamos de luto. Minha avó morreu sem saber o destino do meu pai”, disse emocionado Wladimir da Silva, filho mais velho de Virgílio. “Estes documentos me enchem de esperança. Da mesma forma que eles apareceram por acaso, os de outros companheiros podem estar lá. Há uma urgência em se estudar este arquivo. Ao mesmo tempo, já que tudo foi registrado, queremos saber de quem partiu a ordem de ocultar o corpo do meu pai. Queremos rever este atestado de morte presumida. Estamos aqui não para pedir uma indenização, mas o reestabelecimento de uma verdade histórica. Não tenho esperança de que estas pessoas que são citadas nos laudos venham a público fazer este reconhecimento. Nunca vieram. Minha esperança é na Justiça”, explica Wladimir. 

Traumatismo craniano “sem tortura”
O laudo do IML assinado por Roberto A. Magalhães e Paulo Augusto de Queiroz Rocha diz que o “cadáver desconhecido” de Virgílio Gomes da Silva foi encontrado em local baldio no dia 30 de setembro. Realizado o exame externo do corpo, os legistas descreveram a presença de escoriações em todo o rosto, nos braços e nos joelhos, escoriações de forma circular, com sulco de um centímetro de espessura, nos punhos direito e esquerdo, equimoses (manchas escuras causadas por hemorragia sob a pele) no tórax e abdômen, hematomas intensos na mão direita e na polpa escrotal. Já o exame interno mostrou um hematoma intenso e extenso na calota craniana, fratura completa com afundamento do osso frontal, hematomas em toda a superfície do encéfalo, hematoma intenso no tecido subcutâneo e muscular da sétima à décima primeira costelas esquerdas, fratura completa da oitava, nona e décima costelas direitas. A conclusão do laudo é a de que Virgílio morreu em conseqüência de traumatismo crânio-encefálico, causado por um “instrumento contundente”. No entanto, para Magalhães e Rocha, a morte não foi causada por tortura.

Paulo Augusto de Queiroz Rocha também assinou o laudo do mineiro Antônio Carlos Bicalho Lana, outro militante da ALN, assassinado com tiros no tórax, cabeça e ouvido num centro clandestino da repressão, localizado num sítio na zona sul de São Paulo, após ter sido detido pelo DOI-CODI em 1973. Rocha e o outro legista, Harry Shibata, se limitaram a descrever as trajetórias das balas, sem nada falar sobre os sinais evidentes de torturas encontrados no corpo de Antônio Carlos Bicalho Lana.

“Fui preso em 30 de setembro, no mesmo dia em que Virgílio estava sendo necropsiado. Quando estava no pau-de-arara da Operação Bandeirantes, os torturadores me disseram que o sangue na parede atrás de mim era de Virgílio”, conta Manoel Cyrillo de Oliveira Neto, ex-preso político, também militante da ALN. “A tortura não era uma coisa dos porões da ditadura; era praticada na sala de visita do regime. Essa imagem de que tratava-se de uma prática não-oficial precisa mudar”, afirma Neto.

Para a presidente do Grupo Tortura Nunca Mais em São Paulo, a jornalista e ex-presa política Rose Nogueira, a partir da morte de Virgílio, a tortura passou a ser usada como um instrumento de sustentação da ditadura militar no Brasil. Segundo o grupo, somente em São Paulo, foram 400 os mortos e desaparecidos no período. A família de “Jonas” começa agora a luta pela localização dos seus restos mortais. “A polícia disse que ele tinha fugido e estava desaparecido. Com esta documentação, temos esperança de encontrá-lo de alguma forma”, diz Ilda, sua viúva. 

Prisão em família
No mesmo dia em que Virgílio foi preso, a polícia também deteve, num sítio em São Sebastião, no litoral de São Paulo, Ilda e três de seus quatro filhos: Wladimir, na época com 8 anos, Virgílio, com 7, e Maria Isabel, um bebê de quatro meses. Somente o menino Gregório, que tinha dois anos, não foi levado, pois estava em outro local com a avó. Ilda permaneceu presa por nove meses, dos quais quatro, incomunicável, sem saber o que tinham feito com seus filhos. Primeiro, ficou detida na Operação Bandeirantes, depois no Dops paulista e, por último, no presídio Tiradentes. As crianças foram enviadas por dois meses ao Juizado de Menores, onde Maria Isabel sofreu uma desidratação e quase morreu.

“O medo que a gente tinha era de que nos separassem. Houve esta tentativa”, conta Wladimir. “Por isso, a gente dormia um em cima do outro e amarrados ao berço da minha irmã. Já tínhamos sido instruídos sobre esses perigos, por isso, até nós tínhamos nomes falsos. Fui preso como Dorival. Minha mãe era chamada de Penha”, lembra.

Depois de sair da prisão, Ilda fugiu do país com as crianças. Não havia notícias de Virgílio. “Onde trabalhava, as pessoas me demitiam sem dar explicações. Fui muito perseguida”, explica. Eles foram até Foz do Iguaçu, atravessaram a ponte a pé, tomaram o ônibus para Assunção, de lá para Córdoba, na Argentina, e de Córdoba para Santiago. O Chile de Salvador Allende foi a casa da família até 1972, quando Ilda e as crianças foram para Cuba. Lá, ela trabalhou como operária e Wladimir, Virgílio, Gregório e Maria Isabel se formaram em engenharia. “Voltamos para o Brasil somente em 1991, por que tínhamos a obrigação de resolver essa história. Não saímos do nosso país por opção”, afirma Vladimir.

No mesmo dia em que ficaram sabendo da existência dos documentos que comprovam a morte por tortura de Virgílio, Ilda e seus filhos receberam a notícia que tinham ganho o processo que moveram contra o Estado por suas prisões arbitrárias. A esposa de “Jonas” não era militante e nunca foi processada. 

Parentes de Virgílio, defensores de Direitos Humanos, jornalistas, parlamentares e militantes políticos da época da ditadura presentes no ato onde foram divulgados os documentos saíram do evento com uma proposta: solicitar à Prefeitura Municipal de São Paulo um terreno para construir um memorial onde possam ser enterrados todos os que tombaram nesta luta.

“Este fato mostra que o ajuste de contas com a ditadura militar não está encerrado. Está só começando. Muito tem se dito que a ditadura é passado, que o povo brasileiro é povo cordial e assim vamos em frente. Isso é mentira. Ainda há muita coisa a ser sistematizada e levada à população. A esquerda brasileira ainda não levou a cabo, nem no plano ideológico, o combate aos resquícios da ditadura. Esta é uma tarefa urgente”, concluiu o jornalista Pedro Pomar.


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