Abertura de arquivos é cobrada em homenagem a Marighella

05/11/2004 00:00

São Paulo – Na tarde desta quinta-feira (4), a Alameda Casa Branca, na região central de São Paulo, ficou vermelha. Na altura do número 815, centenas de pessoas pararam para relembrar a história do líder comunista Carlos Marighella. Em 1969, neste mesmo dia 4, Marighella foi assassinado numa emboscada organizada pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo, sob o comando do delegado Sergio Paranhos Fleury. Passados 35 anos, um memorial em sua homenagem foi recolocado no local onde o revolucionário tombou. A placa, fixada numa pedra trabalhada pelo arquiteto mineiro Marcelo Ferraz, foi inaugurada em 1999, quando um decreto do então prefeito Celso Pitta, por ocasião dos 30 anos da morte de Marighella, autorizou sua colocação na Alameda Casa Branca. Oito meses depois, foi retirada para restauração. Voltou agora, num ato que contou com a presença de familiares, historiadores, sindicalistas, estudantes, deputados, parentes de vítimas do regime militar, ex-presos políticos e do professor Antônio Cândido, que reinaugurou a placa declarando fidelidade constante ao militante morto pela ditadura militar.

Organizada pelo Espaço Cultural Carlos Marighella e pelos mandatos do vereador Carlos Giannazi (PT) e do deputado federal Ivan Valente (PT-SP), a homenagem simbólica a um dos maiores militantes pela justiça social no Brasil, fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN), se propôs a fazer um resgate histórico do período e reafirmar o compromisso com lutas que ainda se mostram tão urgente no país. 

“Num momento de festival do neoliberalismo, do senso comum e do pensamento único, é oportuno resgatar a história do trabalho contra o capital e os passos dos que lutaram pelo socialismo e pagaram por isso com sua própria vida”, explica Ivan Valente (clique aqui para ler o artigo escrito pelo deputado sobre os 35 anos da morte de Marighella). “È preciso ter ideologia. Marighella foi um homem que sempre quis ser retratado como um comunista. Ele não se deixou levar pelo conformismo e manteve acesa a chama da revolução socialista no país. Fez uma luta de resistência. Este reconhecimento é fruto da sua trajetória e de seu compromisso com os de baixo e com o combate à desigualdade social. Marighella é um herói nacional”, acredita o deputado.

Um herói ainda não reconhecido pela maioria da população brasileira – diversos moradores da Alameda Casa Branca foram contra a inauguração do memorial naquela rua – e que, portanto, está longe de figurar nos nossos livros de história. “Infelizmente, a historiografia moderna ainda marginaliza nomes como o de Carlos Marighella, de Frei Tito, de Carlos Lacerda. Enquanto isso, temos em São Paulo o elevado Costa e Silva e o viaduto 31 de março. Onde já se viu a cidade homenagear o golpe de 64?”, questiona Carlos Giannazi. Para mudar esta lógica, o vereador e também historiador pretende aprovar na Câmara Municipal um projeto de lei que recupere a memória de personagens que lutaram contra o autoritarismo, retirando de locais públicos de São Paulo o nome dos generais golpistas do regime militar.

Durante o ato, também foi apresentada a idéia de Joel de Andrade Teixeira, do Fórum Permanente de Ex-presos e Perseguidos Políticos, de mudança do nome da Alameda Casa Branca para Avenida Carlos Marighella. A viúva do comunista, no entanto, teme que a mudança de nome da rua acabe levando à perda do registro histórico. “Prefiro que coloquem o nome de Marighella em outro lugar, como fizeram em um acampamento no interior, perto de Campinas. Gostaria que ficasse na história que Marighella foi assassinado na Alameda Casa Branca”, disse Clara Sharf.

Mas ela reforça a importância do memorial ter voltado para o local onde seu companheiro foi assassinado, apesar da resistência de alguns paulistanos. “Há que haver uma compreensão do papel histórico dessas pedras, que são colocadas pelo mundo. São pedras que marcam a história das cidades. Marighella, que era baiano, deu sua vida duas vezes por São Paulo. Aqui ele foi preso no tempo de Getúlio Vargas e torturado porque lutava pelas mesmas causas que temos hoje: liberdade, justiça, trabalho, igualdade. Por isso é importante o memorial ter voltado pra cá. Isso gera discussão, reflexão. Hoje conversei com uma moradora que disse que tinha ficado triste quando a pedra foi retirada em 99, e que hoje ficou feliz com a sua volta”, disse Clara.

Testemunha
A jornalista Rose Nogueira, hoje presidente do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, foi presa pelos militares – e ficou nove meses detida – no mesmo dia em que Carlos Marighella foi assassinado. Ela também era militante da ALN. Emocionada, Rose relatou à Agência Carta Maior o que ouviu naquele dia 4 de novembro dentro do DOPS.

“Eu estava lá quando a turma do Fleury saiu para matar Marighella. Eles disseram: “hoje é o último dia dele; hoje a gente pega ele”. Mais tarde, os investigadores voltaram comemorando a morte de Marighella. “Matamos o chefe”, disseram. Foi quando todos os presos começaram a bater nas grades, a fazer muito barulho. Foi uma gritaria ensurdecedora que durou toda a noite. Só acreditamos que Marighella estava mesmo morto quando a fotógrafa do Jornal da Tarde, que tinha conseguido fotografá-lo morto – e que, por isso, também foi presa – chegou ao Dops. Até pararam um jogo do São Paulo contra o Santos para dar a notícia. Se estou viva é porque Marighella também está”, afirma Rose.

Para a jornalista, o que aconteceu com Carlos Marighella só demonstra a necessidade da abertura dos arquivos do Estado brasileiro, pelo que o Grupo Tortura Nunca Mais vem batalhando. “Os arquivos não são propriedade de uma instituição; são patrimônio histórico e cultural do povo brasileiro. Temos direito de saber o que aconteceu durante a ditadura militar e também na Guerra do Paraguai, no Estado Novo, em Canudos, em Contestado. Este país foi feito de lutas. É preciso reescrever a história do Brasil e isso tudo está lá”, aponta.

Para Ivan Valente, o momento político do país – com a revelação de fotos do jornalista Vladimir Herzog preso no DOI-CODI e com os aniversários de morte de Santo Dias e Carlos Marighella – é fundamental para que a sociedade pressione o governo Lula pela abertura dos arquivos. “É agora que isso precisa acontecer. Há um temor de se causar uma reação nos meios militares que provoque instabilidade. Mas não podemos mais protelar este momento. Isso pode ser feito sem atitudes violentas ou constrangimentos. Não se trata de revanchismo. Esta é uma maneira de inibir torturadores e totalitários que acham que fizeram o golpe em nome do povo brasileiro”, afirma o deputado petista.

A homenagem a Carlos Marighella foi encerrada com a tradicional canção “A Internacional”, de Pierre Degeyter, executada pelo grupo Teatro União e Olho Vivo. E com o pedido da Maria Marighella, neta do revolucionário, que veio para São Paulo para homenagear o avô. “Marighella levou palavras de ideal a todo o país e está vivo em cada livro, em cada filme e em atos como este, para que o Brasil seja cada vez mais livre, mais justo e humano. Sejamos revolucionários de coração”, encerrou.


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