Ativistas advertem que a guerra no Iraque é também pela água

 

22/03/2003 00:00

 

 

Florença, Itália - A agressão dos Estados Unidos contra o Iraque não é somente uma guerra para o controle das reservas de petróleo daquele país, mas também para o domínio da água na região do Golfo Pérsico. Este foi o tema politicamente mais atual tratado no primeiro dia do 1° Fórum Alternativo Mundial da Água, em Florença. “O Iraque é o país do Oriente Médio mais rico em água, e quem o controlar terá nas mãos as torneiras de toda a região”, lembrou, ainda na sessão de abertura, Danielle Mitterand, viúva do ex-presidente socialista francês, e fundadora da ONG para a defesa dos direitos humanos France Libertés.

Há mais de sete mil anos, os rios Tigre e Eufrates, cujas nascentes se encontram na Turquia, garantem a irrigação dos campos no grande planalto da Mesopotâmia (que literalmente quer dizer “a terra entre os rios”), onde surgiram as primeiras cidades da história. A água dos dois rios é absolutamente essencial para a economia, e a própria vida, no Iraque e na Síria. “Esta é a razão pela qual Saddam Hussein investiu contra os curdos, no norte do país, para tirar deles o controle dos territórios onde passam os dois rios”, disse Danielle Mitterand. “Da mesma forma, na Turquia, o governo aumentou a repressão contra a população curda, já que pretende usar a água dos rios para seus projetos de desenvolvimento industrial”.

Remzi Kartal, representante do Congresso Nacional curdo, confirmou a avaliação da ativista francesa. “A Turquia está construindo um grande número de barragens, na tentativa de controlar o uso da água. A população curda não somente vem sendo impedida de usar a água, mas também sofre com as deportações forçadas, quando seus territórios tradicionais são inundados”, relatou Kartal.

O líder ambientalista indiano Siddharta, um dos organizadores do Fórum Social Mundial que acontecerá em 2004 na Índia, foi além. “O Iraque possui a água de que Israel e outros países precisam”, disse, lembrando um artigo publicado há poucas semanas no The New York Times por Stephen Pelletiere, que, à época da primeira Guerra do Golfo, em 1991, era o analista sênior da CIA, agência central de inteligência do governo dos EUA, para o Iraque.

Nas décadas de 70 e 80, o Iraque construiu um impressivo sistema de barragens em toda a Mesopotâmia, a maior da quais, batizada “Darbandikhan”, foi erguida em território curdo. Durante a guerra com o Irã, esta barragem foi disputada pelos dois exércitos, que acabaram se enfrentando na cidade de Halabja, onde ambos os lados usaram armas químicas e atingiram milhares de vitimas civis — o massacre é sempre lembrado como um dos crimes do regime de Saddam.

Depois da Guerra do Golfo, houve uma grande discussão internacional a respeito da possível construção de um “Aqueduto da paz” que levaria a água do Tigre e do Eufrates até os países do Golfo Pérsico e, por extensão, até Israel. Segundo Pelletiere, o projeto não saiu no papel devido à intransigência do governo iraquiano. Mas com o país sob controle dos EUA, escreveu o ex-analista da CIA, tudo mudaria, e “poderiam surgir muitas oportunidades lucrativas para a as empresas norte-americanas”.

Nas regiões áridas do planeta, o controle da água é absolutamente estratégico — e pode se transformar em arma poderosa. É o que acontece, hoje, na Palestina e nos territórios ocupados, onde Israel usa literalmente o conta-gotas contra a população árabe. “Israel controla totalmente a água do vale do rio Jordão e utiliza 80% dos recursos hídricos palestinos”, relatou o representante da Autoridade Palestina, Belal Mustafá, em sua intervenção no Fórum de Florença. “Até para cavar poços é necessária a autorização do exército israelense, e a maior parte dos assentamentos dos colonos judeus foram realizados levando em conta a presença de água no subsolo”.

Os números listados por Belal Mustafá impressionam: a disponibilidade média de água per capita é de 260 litros diários para os israelenses e de somente 70 litros para os palestinos. Ou seja, abaixo do patamar mínimo de 80 litros diários, previsto nos acordos de paz de Oslo.

Não é inevitável, no entanto, que as disputas políticas para o controle da água se transformem em guerras, conforme o alarme lançado pela ONU, mais uma vez, no 3° Fórum Mundial da Água de Quioto. “Podemos, e devemos, evitar a comercialização da água”, disse em entrevista exclusiva à Agência Carta Maior um dos protagonistas do Fórum de Florença, o economista Riccardo Petrella. “Daqui a dez anos, se tomarmos as decisões certas e mudarmos a estrutura produtiva e a organização da agricultura nos países ricos, a água não será escassa. Assim, não haverá razões para guerras”.

Petrella contesta as conclusões dos relatórios da ONU, que apontam para o aumento da população mundial como uma das principais razões para a crescente escassez de água no planeta. “Um cidadão alemão consome, em média, 90 vezes mais água que um indiano. Ou seja, os alemães consomem hoje o mesmo que sete bilhões de indianos consumiriam. Se a população indiana dobrasse nos próximos 20 anos, o que não é possível, eles ainda assim representariam apenas 30% do consumo de água da Alemanha”, calcula Petrella. “O problema é o nosso modelo de desenvolvimento. Os países ricos têm apenas 11% da população mundial, mas detêm 86% da renda mundial, e consomem 88% dos recursos naturais. Essa é a nossa diferencia em relação a Quioto”.

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