Ato em São Paulo lembra morte e lutas do operário Santo Dias

03/11/2004 00:00

São Paulo – Quando as greves dos metalúrgicos do ABC Paulista ganharam força no final da década de 70 e reacenderam a esperança da classe operária por dias mais justos, o Brasil lutava por democracia, mas também já carregava as bandeiras da reforma agrária, do fim do desemprego e de condições de vida digna para todos. À frente dos metalúrgicos, um dos tantos líderes que o período fez nascer: Santo Dias da Silva, assassinado por um policial militar no dia 30 de outubro de 1979, às 14 horas, em frente à fábrica Sylvania, região sul da capital paulista, quando pedia calma a grevistas e PMs, que ameaçavam entrar em confronto. Duas décadas depois, a luta daquela classe operária, que ganhou a nação, pode comemorar certas conquistas. Mas está longe de ser encerrada, diante de causas que até hoje permanecem. Reafirmar o compromisso com a luta por mudanças foi o objetivo do ato que lembrou, na última sexta-feira (29), os 25 anos da morte de Santo Dias.

O operário era uma liderança reconhecida nas lutas sociais da época: militante cristão, chefe da Pastoral Operária do Estado de São Paulo e integrante da Oposição Sindical dos Metalúrgicos, que organizou as greves do período, pois a direção do sindicato, presidido por Joaquim dos Santos Andrade, apoiava os militares e não a base da categoria. Santo Dias foi morto aos 37 anos de idade, atingido pelas costas pelo policial Herculano Leonel, condenado pela Justiça Militar, mas absolvido anos depois. Cerca de 30 mil pessoas saíram às ruas do centro de São Paulo para acompanhar o cortejo fúnebre e protestar contra a violência da ditadura militar. Nesta sexta, centenas de pessoas refizeram o itinerário da Igreja da Consolação até a Sé em homenagem a Santo Dias.

“Nós o levamos até a Catedral da Sé no meio daquela multidão. Se espalhou então pelo país o entusiasmo para que o operário pudesse se manifestar e ser ouvido por todos”, lembra D. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo e fundador do Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo. “Levei um choque ao ver que o homem que tinha nomeado chefe da Pastoral Operária no Estado havia sido assassinado pelo regime militar, que deve desaparecer e nunca mais aparecer no Brasil”, disse D.Paulo no ato, pedindo a abertura dos arquivos da ditadura.

O deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), que foi o advogado de acusação no processo contra Herculano Leonel, também defendeu a divulgação dos registros do regime militar. “Temos que contar a verdade dos desaparecidos e mortos, das câmaras de tortura, que recuperar a nossa história. Esta é a próxima luta que precisamos travar para que cheguemos à democracia no Brasil”, afirmou.

O combate à violência policial e à violação por parte do Estado dos direitos humanos da população e a garantia do acesso dos mais pobres à defesa contra a violência policial são os principais objetivos do Centro Santo Dias. Uma pesquisa realizada pela entidade sobre a atuação do Tribunal de Justiça Militar revelou que mais de 95% dos militares acusados pela morte de civis eram absolvidos. O estudo funcionou como fundamento para o projeto de lei que, aprovado na Câmara, levou para a Justiça comum o julgamento de casos de homicídios dolosos. “Não conseguimos a transferência de todos os crimes militares para a justiça comum, mas esperamos que este passo seja seguido por outros. Não foi um passo pequeno. Só assim conseguimos condenar o responsável pelo massacre do Carandiru e pelos crimes na Favela Naval”, explica Hélio Bicudo, vice-prefeito de São Paulo e presidente do Centro Santo Dias de Direitos Humanos.

Passado e presente
Nesta quinta-feira (4), a família de Santo Dias presta mais uma homenagem ao operário. Sua filha, Luciana Dias, lança, ao lado da jornalista Jô Azevedo e da fotógrafa Nair Benedicto, um livro onde conta a história do pai que perdeu quando tinha apenas 12 anos. Para Ana Dias, viúva de Santo, a obra de Luciana é uma forma a filha continuar a luta do pai e de tantos trabalhadores que batalharam ao seu lado. Emocionada, Ana, que se casou com o sindicalista em 1965, participou do ato na última sexta no plenário 1o de maio da Câmara Municipal de São Paulo. “Há 25 anos todo mundo chorava. Hoje estamos tristes, mas felizes de ver que tem tanta gente ainda acreditando na luta de Santo, que a família de Santo Dias não está sozinha. Foi bom ver que essa luta vai continuar”, disse Ana, que em dezembro recebe da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de São Paulo o Prêmio Santo Dias. 

No mesmo dia do lançamento do livro Santo Dias: Quando o passado se transforma em história, mais de 3.700 documentos que compõem o acervo da família serão doados ao Centro de Estudos, Documentação e Memória da Universidade Estadual de São Paulo (Cedem-Unesp). É a primeira vez que o Cedem recebe a documentação completa de um operário. Parte dela estará aberta à consulta pública. “Assim Santo Dias vai continuar a nos dar força para termos um Brasil mais democrático. Que ele seja para nós um modelo de incentivo na luta pela prosperidade da nossa terra”, alerta D.Paulo.

Referência de valores na esquerda católica do Brasil, Santo Dias, na opinião da Pastoral Operária Nacional, hoje certamente estaria denunciando a política econômica do governo, que continua aumentando a concentração de renda e a injustiça social. “Santo seria contra a Alca [Área de Livre Comércio das Américas], contra a submissão do governo brasileiro ao capital internacional, estaria defendendo nossa soberania, pediria uma auditoria da dívida externa, estaria engajado na luta contra o desemprego e pela redução da jornada de trabalho”, discursou Paulo César Pedrini.

Do campo, a homenagem ao trabalhador urbano veio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que se sente herdeiro da luta que Santo representa. Segundo João Pedro Stédile, membro da Coordenação Nacional do MST, o movimento operário contra a ditadura militar deu forças para que o movimento camponês, que estava oprimido no campo, ressuscitasse. “Foi a luta operária que produziu o MST, a CUT, o PT e o presidente Lula. Esta que não é uma luta de vantagem pessoal, mas do povo, de classe. Vivemos uma crise política, econômica e ideológica. Que Santo Dias nos inspire a sair desse refluxo e a entrar numa verdadeira luta de massas e a conquistar o que nem sempre as urnas nos dão”, conclui Stédile.

O lançamento de Santo Dias: Quando o passado se transforma em história (Editora Cortez) acontece nesta quinta-feira (4), às 19h30, no auditório do Cedem – Praça da Sé, 108, em São Paulo.





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