Ato pede que TVE-RJ seja cabeça da nova rede pública

24/07/2007 00:00

RIO DE JANEIRO – Ao passo em que o governo federal começa a definir qual será o modelo de gestão da futura emissora de tevê pública, que deverá se chamar TV Brasil, cresce nos estados a corrida por um lugar de destaque na estrutura a ser implantada. Exemplo dessa disputa foi o ato público que reuniu na noite de segunda-feira (23) mais de 200 pessoas no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para pedir ao governo que faça da TVE Brasil, emissora federal com sede no Rio de Janeiro, a cabeça da futura rede nacional.

Segundo o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, a intenção do governo é construir uma rede de alcance nacional que tenha como base a emissora oriunda da fusão das estruturas da Radiobrás, que hoje opera a TV Nacional em Brasília, e da TVE, que é exibida no canal 2 da tevê aberta no Rio de Janeiro.

Cientes de que a tendência natural do governo federal é situar em Brasília a sede e a cabeça de rede da futura emissora, algumas entidades criaram o Comitê Pró-TV Pública no Rio de Janeiro. No primeiro ato de grande porte realizado pelo comitê, jornalistas, políticos, empresários, estudantes e sindicalistas aprovaram o texto de um manifesto que será encaminhado nos próximos dias ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Participaram da organização do ato em defesa da escolha da TVE como cabeça de rede, além da própria ABI, três sindicatos (dos Jornalistas, das Empresas de Informática do Rio de Janeiro e dos Radialistas) e outras entidades, como o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo e as organizações Viva Rio, Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e Pacs (Política Alternativas para o Cone Sul), entre outras.

Os principais argumentos em defesa da cabeça de rede da TV Brasil no Rio são: o acúmulo de conhecimento existente na TVE após trinta anos de funcionamento, a presença no estado de universidades e centros de pesquisa na área de tecnologia da informação, a possibilidade de o estado se tornar também um pólo de excelência em termos tecnológicos (softwares, etc) com a chegada da tevê digital e, finalmente, a salutar distância do centro do poder em Brasília, que ajudaria na independência do trabalho da futura emissora.

O manifesto que será enviado a Lula afirma que a estrutura já existente no Rio ajudará a futura rede de tevê pública a não repetir velhos erros do passado: “Com a escolha da TVE Brasil como cabeça da TV Pública, o presidente fortalecerá o conceito de uma tevê cidadã e aberta, com um jornalismo e uma produção cultural distantes do conceito de chapa branca que, por décadas, comprometeu a imagem das emissoras estatais no país, limitando seu alcance, influência e compromisso com a pluralidade”, diz o documento.

Sem citar a “rival” Radiobrás, o manifesto sugere ainda que a distância entre a futura sede da TV Brasil e a capital federal poderá ajudar o governo a refutar as acusações de que estaria criando um veículo de propaganda em benefício próprio: “Ao reconhecer o pioneirismo da TVE na mudança do conceito de emissora pública no Brasil do século XXI, o governo federal deixará claro aos céticos e críticos da nova TV que, de fato, o Brasil não está erguendo mais uma estrutura para agir como porta-voz do Palácio do Planalto. Ao contrário, constrói uma rede verdadeiramente pública e independente para colocá-la a serviço da imensa riqueza cultural brasileira”.

Apoio de Cabral, silêncio no Planalto

Até agora, nem Lula nem Franklin Martins emitiram nenhum sinal de apoio ao pleito vindo do Rio de Janeiro. Tampouco se manifestaram de maneira contrária, fato que alimenta as esperanças de alguns defensores da TVE, como o líder da bancada do PT na Assembléia Legislativa do Rio, Gilberto Palmares: “O ministro Franklin está sendo cauteloso, pois sabe que a proposta de criação da tevê pública não é uma coisa pacífica e que as grandes emissoras não estão encarando esse processo com alegria. Mas, minha leitura pessoal, pelas conversas que já tivemos, é de que ele considera correto nosso pleito”, diz o deputado.

Durante o ato, Palmares entregou à jornalista Neise Marçal, representante dos trabalhadores da TVE, uma moção de apoio à vinda da cabeça de rede da TV Brasil para o Rio assinada por 56 dos 70 deputados estaduais fluminenses: “O apoio da Alerj é quase total. Assim que acabar o recesso parlamentar, vamos discutir formas práticas de levar adiante esse apoio”, disse o deputado. Também estiveram presentes ao ato o deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB), o deputado estadual Alessandro Molon (PT) e os vereadores Eliomar Coelho (PSOL) e Aspásia Camargo (PV).

A ansiada presença do governador Sérgio Cabral Filho no ato da ABI não se confirmou. Nem o secretário estadual de Cultura, Luiz Paulo Conde, que havia sido escalado para representar o chefe, apareceu. Apesar da ausência das autoridades do Executivo estadual, os dirigentes do Comitê Pró-TV Pública no Rio de Janeiro garantem já ter conversado com o governador e dizem estar tranqüilos quanto ao apoio do Palácio Guanabara: “O governador está ciente da importância de consolidar o Rio como pólo do audiovisual no país”, diz Palmares.

Em relação ao governo federal, o parlamentar petista acha que, quando for o momento, Lula e Franklin Martins irão também se manifestar favoráveis à vinda da cabeça de rede para a TVE: “Se o governo quer mesmo criar uma emissora que seja controlada pela sociedade civil e se transforme num contraponto ao que é feito nas grandes redes, a cabeça de rede não pode ficar em Brasília. Ela tem que ser no Rio”.

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