Autores defendem “consultoria” de Cláudio Guerra à Comissão da Verdade

22/05/2012 00:00

Nestor Cozetti

Créditos da foto: Nestor Cozetti
Rio de Janeiro - Marcelo Netto e Rogério Medeiros, autores do livro “Memórias de uma Guerra Suja”, defenderam na segunda-feira (21), durante o lançamento da obra no Rio de Janeiro, que o ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra seja chamado a prestar depoimento o mais rápido possível na recém-instalada Comissão da Verdade. Mais do que o simples depoimento, os autores sugerem que Guerra preste uma verdadeira “assessoria” à comissão, participando de diligências e servindo como “consultor” em relação a locais, circunstâncias e pessoas envolvidas no desaparecimento de militantes de esquerda durante a ditadura militar de 1964-85. Ainda segundo os autores, o assassino confesso de mais de 40 pessoas e hoje pastor evangélico, personagem principal do livro,está completamente à disposição do governo federal, só esperando a convocação para depor.

“Ele é uma pessoa que pode ajudar muito mais esse país. Ele tem muita informação. Se chegar, por exemplo, e mostrar para ele muita coisa de São Paulo, foto e tal, ele provavelmente vai lembrar de coisas, ele vai... Eu, se fosse a Comissão da Verdade, eu botava o Cláudio lá dentro e saía andando com ele pelo Brasil, entendeu? Porque ele é um grande investigador”, disse Marcelo Netto, antes de ser interrompido por seu colega Rogério Medeiros. “Marcelo, Marcelo...Tem uns outros ‘Cláudios Guerras’ que ele conhece”, afirmou o coautor do livro. “É, veja bem, ele poderia abordar outros... e convencer... Aliás, é uma coisa que ele fala...ele fala muito... ‘Olha, eu posso convencer muita gente’. Eu acho que ele vai convencer mesmo”, retomou Marcelo, citando possibilidades, “por exemplo, tem um cara em São Paulo, que foi da equipe do Fleury, que ele fala que é uma coisa bem sensata e ele acha que consegue convencer. Em Minas também, no Rio...”.

Ao serem mencionadas possíveis novas testemunhas, Rogério interrompeu mais uma vez, e enumerou-as. “Tem dois, em Minas tem dois. São Paulo tem dois, na Bahia tem um, no Paraná tem um, só na área em que ele transitava. Tem outros ‘Cláudio Guerra’”, disse. “E às vezes, às vezes, ele me dá a entender que ele conversa muito com essas pessoas, para ir consultar...entendeu? Às vezes eu fico achando que não, às vezes eu fico achando que sim... Então, eu não sei, eu acho que ele pode ajudar ainda muito. Eu acho que a Comissão da Verdade tem que pegar esse cara rápido”, completou Marcelo.

Refúgio
Marcelo e Rogério afirmaram que mantêm contato constante com Guerra, e que o matador reitera que só falará em público após depor na Comissão da Verdade, caso essa possibilidade se concretize. Rogério disse que não sabe exatamente aonde Guerra reside, apesar das insistências do ex-policial. Segundo Rogério, ele recusou tal informação porque teria que depois servir de guia para toda a imprensa do país, e “já está muito velho para mentir”. Então, segundo ele, “melhor não saber”. Quando precisa se encontrar com Guerra, o encontro é marcado em alguma região do Espírito Santo.

À Carta Maior, Marcelo confirmou saber de uma suposta tentativa de atentado contra Cláudio Guerra na quarta-feira passada. De acordo com ele, Guerra e os moradores da simples casa de dois andares em que ele vive, possivelmente um lar para idosos, ouviram vozes e três tiros nas cercanias do terreno. Guerra teria relatado que os tiros seriam uma isca para ele botar a cabeça para fora da janela e, possivelmente, ser alvejado, mas permaneceu dentro de casa. Não há a confirmação de queixa à polícia sobre o episódio.

Intenções
Se os autores concordam na necessidade de uma participação ampla de Guerra na Comissão da Verdade, divergem sobre as reais intenções do assassino ao revelar sua história secreta para o país. “Eu e Rogério temos posições diferentes. O Rogério é muito cético com relação ao Guerra, talvez tenha dúvida da fé dele. Eu sou absolutamente materialista, nunca acreditei em Deus, não acredito em nada de religião, e no entanto nesses meses todos, anos de conversa, eu passei a achar que ele (Guerra) acredita em Deus. Eu acho que ele realmente está afim de ajudar”, disse Marcelo.

Rogério contrapôs: “Eu acho que ele é um assassino. Quando me procuraram para entregar essa história é claro que eu ia tratá-lo como um assassino porque realmente ele é. A questão religiosa serve para ele, mas não é o caminho. Ele se vale da bíblia para mudar a vida dele. Ele acha que ele queria entregar essa história”.

Na réplica, Marcelo voltou a defender a suposta conversão de Guerra. “Ele hoje, na minha opinião, ele quer ajudar. É isso que eu queria passar para vocês, ele quer ajudar. Eu acho, eu tenho feito um esforço, e vou apanhar muito por causa disso, no sentido de mostrar que é muito melhor tirar dele informações do que partir para cima dele, tentar destruir e desqualificar ele”, disse o coautor no pequeno debate mediado, “emergencialmente”, como o próprio afirmou, por Geneton Moraes Neto, jornalista das organizações Globo.

Reedição
Na conversa acompanhada por cerca de 30 pessoas na Livraria da Travessa do shopping Leblon os autores fizeram um pequeno resumo do livro e insistiram na tese de que a obra serve como pauta para se desvendar um período importante da história recente do Brasil. Na visão de Marcelo e Rogério, os militares se aliaram a policiais fora da lei como Cláudio Guerra para “aprenderem” a matar e atuar em um contexto de guerrilha urbana, já que, ainda segundo os autores, o exército era treinado para atuar em um cenário internacional e de fronteiras.

Os autores também adiantaram que uma nova edição do livro está em preparo, já que algumas denúncias devem ser confirmadas e atualizadas. Entre elas a do número de vítimas incineradas nos fornos da usina Cambahyba, localizada em Campos dos Goytacazes, no Norte do Rio de Janeiro, e pertencente a família de Heli Ribeiro Gomes, vice-governador do Rio entre 1967 e 1971. Após a publicação do livro há suspeitas de que pelo menos os corpos de mais três pessoas teriam sido incinerados no local.

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