Avanços da vacina não serão suficientes para proteger população em pobreza extrema

Os esforços para conter a propagação do vírus deixaram em evidência o estado deficiente dos sistemas de saúde pública e o enorme impacto da situação na economia dos países

18/12/2020 14:30

A realidade levantou o véu sobre as políticas públicas dos governos %u213 sobretudo em nações em desenvolvimento (Marcelo Casal/Agência Brasil)

Créditos da foto: A realidade levantou o véu sobre as políticas públicas dos governos %u213 sobretudo em nações em desenvolvimento (Marcelo Casal/Agência Brasil)

 
Estamos vivendo uma das etapas mais estranhas da história recente. Mudaram os conceitos de liberdade, assim como as regras do jogo no âmbito pessoal e nos entornos social, laboral e de lazer, sentindo-se uma mudança radical à qual não estamos habituados. O que era considerado normal há menos de um ano, hoje é visto como conduta irresponsável contra as normas de convivência impostas por um vírus invisível e potencialmente mortífero. Este novo marco de responsabilidade coletiva tem favorecido, portanto, mudanças na vida cotidiana e no ambiente político, onde a imposição de limitações à voz da cidadania a partir dos centros de poder se tem consolidado graças a medidas de emergência ditadas pelos governos.

As restrições sociais estabelecidas para enfrentar a pandemia, mesmo quando foram necessárias para organizar as ações sanitárias respectivas, têm criado um ambiente de incerteza diante do qual os direitos e liberdades individuais perderam supremacia. Somado a isso, os esforços para conter a propagação do vírus não só resultaram infrutíferos na maioria das nações, também deixaram em evidência o estado deficiente dos sistemas de saúde pública e o enorme impacto da situação na economia dos países. A realidade levantou o véu sobre as políticas públicas dos governos – sobretudo em nações em desenvolvimento – cuja negligência na criação de planos de proteção para seus habitantes já teve um enorme custo, não só de vidas, mas também na perda de meios de subsistência e, portanto, de oportunidades de sair indenes e em um prazo razoável da atual crise.

Do mesmo modo como inimigo resulta invisível, também é quase impossível perceber as consequências a meio o longo prazo, produto de uma transformação tão abrupta do cenário cotidiano. As prioridades mudam a cada dia como resultado de um ambiente incerto, onde os grandes maiorias caminham às cegas sem certeza de qual será o seguinte passo e como enfrentá-lo. Enquanto a vida familiar tenta retomar certo aspecto de normalidade, os efeitos das restrições se fizeram sentir em um aumento substancial de violência doméstica, com a cauda de agressões sexuais contra crianças e adolescentes, feminicídios e violência econômica. Os novos sistemas de trabalho e estudo pela internet também constituem um giro de cento e oitenta graus nesse entorno íntimo, não acostumado à presença constante dos integrantes do grupo familiar.

A natureza humana não parece ser capaz de suportar longos períodos de imobilidade e restrições. O impulso natural leva a buscar o retorno aos seus costumes cotidianos e desestimar tudo aquilo que seja difícil de compreender. Isso é a necessidade de continuar com suas atividades de trabalho, de estudo ou de lazer têm relaxado substancialmente as medidas de precaução sujas sequelas prolongarão a pandemia – com as festas de fim de ano em perspectiva – por um tempo muito difícil de calcular. Os avanços na produção de uma vacina para enfrentar a poderosa onda de contágios da Covid-19, mesmo quando abriu uma porta de saída à crise, ainda é insuficiente para garantir a proteção de milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, marginadas por sistemas de governo -como os nossos – em cujas agendas os direitos humanos figuram só como consigna do bando inimigo.

A resistência à mudança de cenário é uma condição humana.

Carolina Vásquez Araya é colaboradora de Diálogos do Sul da Cidade da Guatemala

*Tradução de Beatriz Cannabrava | Publicado originalmente em 'Diálogos do Sul'



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